Um novo instrumento de avaliação da conservação da biodiversidade, centrado nos riscos futuros, identifica os répteis como o grupo de vertebrados terrestres que poderá exigir maior atenção nos próximos anos — superando mesmo os anfíbios, tradicionalmente considerados os mais ameaçados.
A ferramenta, denominada Índice de Conservação Proactiva (PCI), foi desenvolvida por uma equipa internacional liderada por Gabriel Henrique de Oliveira Caetano, investigador na Universidade Ben-Gurion do Negev (Israel) e na Université Paris-Saclay (França). Os resultados foram publicados na revista científica PLOS Biology.
A atual crise da biodiversidade, impulsionada por fatores como as alterações climáticas, a perda de habitat e a exploração excessiva dos recursos naturais, tem vindo a provocar um declínio acentuado das populações de fauna selvagem. A maioria dos instrumentos de avaliação do risco de extinção baseia-se, no entanto, em dados históricos, subestimando a velocidade a que novas ameaças estão a surgir.
Para colmatar essa lacuna, os investigadores criaram o PCI — uma ferramenta que integra não só os riscos futuros, como a alteração do uso do solo, o avanço de espécies invasoras e os efeitos das mudanças climáticas, mas também características biológicas das espécies que influenciam a sua vulnerabilidade, como o tamanho corporal, a taxa de reprodução e a distribuição geográfica.
Aplicando o índice a 33.560 espécies de vertebrados terrestres em todo o mundo, os investigadores compararam os resultados com as classificações atuais da Lista Vermelha da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Embora se tenha verificado uma correlação geral entre os dois sistemas, surgiram diferenças significativas: os répteis, por exemplo, aparecem no PCI como o grupo com maior prioridade de conservação, enquanto os anfíbios são atualmente o grupo com a maior proporção de espécies ameaçadas na Lista Vermelha.
Espécies ainda não avaliadas oficialmente pela UICN obtiveram frequentemente pontuações elevadas no PCI, semelhantes às das espécies classificadas como “Em Perigo” ou “Criticamente em Perigo”, o que sugere que há uma margem importante de subavaliação no sistema atual.
Segundo os autores, o novo índice complementa os métodos já existentes, oferecendo uma perspetiva mais orientada para a ação preventiva. A ferramenta poderá ser essencial para ajudar gestores e decisores a atribuir recursos de forma mais eficiente, antecipando ameaças e concentrando esforços em espécies e regiões que ainda não estão em destaque nas prioridades globais.
“A nossa abordagem focada no futuro revela muitas espécies e regiões que, em breve, poderão necessitar de maior atenção do que aquelas atualmente indicadas por métodos baseados em ameaças passadas”, afirmam os autores. “O nosso índice destaca particularmente os répteis, as regiões áridas, ilhas tropicais e florestas tropicais de montanha como áreas críticas. Atuar antes que as ameaças se concretizem poderá dar-nos a vantagem necessária para proteger esta biodiversidade valiosa”, concluem.









