“Os ecossistemas terrestres respondem a variações climáticas e tanto podem contribuir para o aumento ou redução do CO2 atmosférico”

Em média, os ecossistemas terrestres retêm o carbono durante 23 anos – cerca de 15 nos trópicos ou 255 nos pólos -, mas em maiores quantidades, principalmente nos solos, do que anteriormente se pensava. Esta é uma das principais conclusões de um estudo sobre o ciclo do carbono nos ecossistemas terrestres liderado pelo investigador português Nuno Carvalhais.

A resposta do ciclo do carbono terrestre às alterações climáticas é uma das maiores incertezas que afectam as projecções destas mesas alterações. O Green Savers falou com o investigador Nuno Carvalhais para conhecer melhor o estudo e perceber a importância do ciclo do carbono.

Uma das principais conclusões do estudo é o maior período de armazenamento do carbono nos ecossistemas terrestres, tempo superior ao que anteriormente se pensava. Qual o tempo de armazenamento médio considerado antes e qual o descoberto no decorrer da investigação?

O tempo de retorno médio é o que decorre desde o momento em que um átomo de carbono é absorvido através da fotossíntese até que é libertado novamente para a atmosfera. Este tempo de retorno de carbono nos ecossistemas terrestres é superior ao dos modelos, mas antes não havia observações que nos permitissem estimar este valor à escala global. O tempo de retorno médio estimado, de 23 anos, é um indicador, ou seja, este período varia em função de outros factores climáticos e biológicos. Por exemplo, a latitudes mais elevadas a norte este tempo passa para os 255 anos, enquanto que nos trópicos um átomo de carbono é libertado a cada 15 anos. No fundo, estes 23 anos correspondem a um indicador médio, mas a questão principal reside em perceber como é que variações no clima podem influenciar estes tempos de retorno de carbono tanto na vegetação como nos solos.

Uma outra conclusão é a importância que a precipitação tem no tempo de decomposição do carbono. Que importância é esta e de que forma se materializa?

O que este estudo mostra é que, tal como esperado, os tempos de retorno são fortemente dependentes da temperatura: quanto mais quente mais rápida é a degradação da biomassa morta e da matéria orgânica. No entanto, a precipitação também se mostrou tão importante como a temperatura. Esta análise também mostra que estes tempos de retorno são mais rápidos quando a precipitação aumenta. O que é completamente plausível, pois os microorganismos que estão envolvidos nos processos de decomposição precisam de água para o seu metabolismo, por exemplo, é necessário bastante mais tempo para uma planta morta ser decomposta num deserto do que numa floresta.

A resposta do ciclo de carbono terrestre às alterações climáticas é uma das maiores incertezas que afectam as projecções destas mesmas alterações, como é referido no estudo. Qual a interligação do ciclo de carbono com as alterações climáticas para que a variação do primeiro afecte a projecção das segundas?

O dióxido de carbono é um importante gás de efeito estufa e o balanço entre a captura e libertação de carbono pelos ecossistemas terrestres é um factor relevante nos modelos climáticos. Os ecossistemas terrestres respondem a variações climáticas, e dependendo de como, tanto podem contribuir para um aumento ou redução do dióxido de carbono atmosférico. Será que as plantas terrestres e os solos vão continuar a ser reservatórios para o excesso de carbono da atmosfera no futuro? Ou será que vão libertar maiores quantidades de dióxido de carbono se a temperatura aumentar – transformando-se de sumidouros em fontes de carbono? A resposta a estas questões ainda não é clara, e dependendo do tipo de ecossistema, é espectável que não sejam as mesmas para diferentes regiões do globo.

De que forma é que as conclusões evidenciadas pelo estudo podem contribuir para a elaboração de futuros modelos climáticos globais?

Os resultados deste trabalho podem ser comparados com os dos modelos para tentar identificar onde é que se verificam as maiores diferenças, e perceber de que forma é que estes modelos podem ser melhorados. Um dos aspectos importantes a focar parece ser a influência do ciclo hidrológico nos processos de decomposição, mas pode haver outros igualmente importantes. No entanto é difícil prever como podem mudar as nossas previsões climáticas em resultado de uma maior precisão no ciclo global do carbono.

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