Redução das emissões marítimas alterou a formação das nuvens, mas não terá afetado o seu efeito no clima

Equipa de cientistas diz que a diminuição das emissões de enxofre dos navios não contribuiu para o agravamento das alterações climáticas, pelo menos não sobre o Atlântico Norte.

Redação

Em 2020, registou-se uma redução de 80% das emissões de gases com efeito de estufa de navios, fruto das restrições mais apertadas ditadas pela Organização Marítima Internacional sobre o conteúdo de enxofre dos combustíveis.

Há quem defenda que essa redução levou ao aumento da temperatura global, uma vez que as emissões de enxofre “mascaravam” o real aquecimento do planeta através de um efeito de arrefecimento temporário da atmosfera. Isso, porque as partículas de enxofre refletem mais radiação solar.

Num artigo de 2025, investigadores sugeriam que as reduções da quantidade de enxofre no combustível marítimo poderão ter contribuído para picos na temperatura global observados em 2023 e 2024. Algo semelhante era apontado pela organização Carbon Brief.

Contudo, Arindam Roy, especialista climático na organização Clean Air Fund, escrevia em julho do ano passado que era preciso ter cautela, pois esses estudos, e outros, apresentam conclusões que envolviam “incertezas consideráveis que ainda estão a ser ativamente debatidas na comunidade científica”.

Agora, uma equipa de cientistas da Universidade do Utah (Estados Unidos da América) publicou este mês um artigo na revista ‘Atmospheric Chemistry and Physics’, no qual explicam como a redução das emissões marítimas afetou a formação das nuvens sobre o arquipélago dos Açores.

Os investigadores descobriram que essa redução afetou a estrutura interna das nuvens, que passaram a ser constituídas por menos gotas de águas, mas de maiores dimensões. Além disso, revelam que esses efeitos “surpreendentemente” não alteraram a capacidade das nuvens para refletir a radiação emanada do Sol, um efeito conhecido como albedo.

Com menos partículas de enxofre na atmosfera, havia também menos 15% de núcleos de condensação, partículas, como poeira, fumo, cinza ou sais, em torno das quais se formam gotículas de água ou cristais de gelo.

Nos tempos de grandes emissões de enxofre, explicam os investigadores, as nuvens tinham muito mais partículas em torno das quais podiam condensar. Por isso, as gotas eram mais pequenas, porque a água dividia-se por mais núcleos de condensação.

Esta investigação, liderada por Gerald Mace, pretendia perceber se a redução das emissões marítima de enxofre podia acelerar as alterações climáticas ao mudarem as propriedades das nuvens que se formam sobre o Atlântico. Embora alguns tenham teorizado nesse sentido, a equipa de Mace diz ter encontrado algo diferente, que a redução das emissões de enxofre pelos navios não reduziu o efeito de albedo das nuvens do Atlântico, que mantiveram a sua capacidade de reflexão da radiação solar.

Por isso, os cientistas concluem que essa redução de emissões não contribuiu para o aquecimento do planeta, pondo, assim argumentam, um ponto final no debate.

“De alguma forma, o sistema climático ajustou-se de maneira que o efeito radiativo destas nuvens manteve o equilíbrio”, afirma Mace.

Com base nos dados que recolheram, a equipa diz que alterações na cobertura de nuvens na região estarão mais associadas a alterações nos padrões meteorológicos do que a alterações nas concentrações de aerossóis, “sugerindo que múltiplos fatores ditam como as nuvens de comportam”.

Estas conclusões são, contudo, limitadas no espaço, pois dizem respeito ao que se passa no Atlântico Norte e Mace acautela face a generalizações.

“É uma descoberta regional e não posso generalizá-la sem muitos mais dados”, afirma.

“Aquilo que podemos concluir deste estudo é que o sistema climático é capaz de se ajustar de formas que podem ser contraintuitivas e que simples argumentos muitas vezes precisam de ser considerados mais atentamente.”

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