A igualdade de género como caminho para a sustentabilidade



No Dia Municipal para a Igualdade de Género, o Palácio das Galveias, em Lisboa, recebeu mais uma edição do ciclo Conversas Lisboa Sustentável – Empresas, dedicada ao tema “Como integrar a igualdade de género nas estratégias ESG para gerar inovação, sustentabilidade e impacto social?”.

No contexto global em que a sustentabilidade e a responsabilidade social assumem um papel cada vez mais determinante nas estratégias empresariais, a igualdade de género emerge como um eixo essencial para o progresso económico e social. Lisboa, cidade pioneira em políticas de inclusão e inovação sustentável, voltou a colocar este tema no centro do debate e a mais recente sessão reforçou a importância de integrar a perspetiva de género nas políticas ESG (Environmental, Social and Governance), destacando como a equidade pode impulsionar a inovação, a competitividade e o impacto social positivo.

A iniciativa, organizada pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) no âmbito do ciclo Conversas Sustentáveis – Pilar Social, contou com o apoio da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE) e do ISEG – Lisbon School of Economics & Management, tendo a GreenSavers como media partner.

A sessão abriu com a intervenção de Maria do Rosário Fidalgo, representante da CITE, e moderação de Nuno Caleia, da CML. “Esta é uma iniciativa relevante não só para a autarquia como para quem vive neste território. O nosso lema é igualdade e desenvolvimento”, afirmou no seu discurso a técnica superior que esteve em representação de Carla Tavares, presidente da CITE.

Entre as oradoras destacaram-se Alice Khouri, especialista em Direito Ambiental, Regulatório, Energia e Alterações Climáticas, Head of Legal na Helexia Portugal e fundadora da Women in ESG Portugal, Cláudia Mendes Silva, sustainability manager da Siemens Portugal e responsável pela Women in Tech Portugal, e Sandra Simões, vogal do conselho diretivo da IMPIC – Instituto dos Mercados Públicos, do Imobiliário e da Construção, que partilharam experiências inspiradoras e boas práticas sobre a promoção da igualdade de género nas empresas, apontando também as falhas que ainda é preciso corrigir para se atingir o pleno sem recurso a regulação.

Igualdade de Género e Contratação Pública: um caminho ainda por cumprir

Na sua intervenção, Sandra Simões trouxe uma perspetiva centrada na administração pública e no impacto das diretivas europeias na prática das entidades. A oradora sublinhou a importância de modernizar processos e de tornar efetivas as medidas que, apesar de estarem previstas em lei, ainda não se refletem de forma concreta no terreno.

“Muitas vezes não conseguimos alcançar as medidas a que nos propomos se não modernizarmos. As diretivas nunca criaram obrigatoriedade e nós sabemos como somos: Estamos sempre a correr atrás do prejuízo e temos medo de falhar. Nós, em termos dos contratos públicos, transpusemos parte do que diziam as diretivas europeias e Portugal foi dos países que introduziu no seu artigo 1ºA um dos princípios, que é o de que as entidades adjudicantes são obrigadas a exigir quer na formação, quer na execução dos contratos que os operadores económicos cumpram todas as formas ambientais, sociais, de inclusão. Aparece lá exatamente ‘respeitar a igualdade entre homens e mulheres’. Se perguntarmos se está a ter impacto, não”, disse, focando-se na experiência pública.

A técnica salientou ainda que o tema da desigualdade de género continua a ser pouco valorizado.

“A desigualdade de género está a ser muito desaproveitada basta olhar para a plateia, maioritariamente feminina. É um tema que achamos que não faz parte do nosso dia a dia, não é relevante, está noutra estratosfera, apesar deste esforço das diretivas, apesar de haver o estatuto europeu que tem feito um brilhante trabalho nestas matérias , de facto estamos muito longe de uma medida que possa ser alcançada.”

O ESG como ferramenta de igualdade e eficiência económica

Já Alice Khouri destacou a importância de integrar a igualdade de género como parte estruturante da governança das empresas. Na sua perspetiva, a igualdade não é apenas um valor ético, mas também um fator de competitividade e eficiência económica.

“O ESG, gostemos ou não de regulação, passa por impacto tridimensional: ambiental, social e governança e a igualdade de género está muito relacionada e pode ser integrada dentro da governança, que é o desenho de processos e etapas para tomadas de decisão. Tem influência direta nos resultados da empresa, como também na parte social, a força de trabalho interna. Simplificando, a igualdade é um valor a ser alcançado tal como as vendas. Se começarmos a pensar na igualdade como algo que gera eficiência, podemos mudar o paradigma. E falo mesmo de eficiência económica. Igualdade de géneros significa melhorias nos resultados, inclusive humanos. A desigualdade é, sobretudo, um desperdício de capital humano”, afirmou. “Somos postos perante desafios cada vez mais disciplinares, cada vez complexos, que exigem inovação permanente e não se faz inovação com as mesmas perspetivas. Faz-se com diversidade e integração, que acrescentam e trazem valor. É preciso promover medidas de equidade. A mulher pode estar ausente por licença de maternidade, mas esteve antes a trabalhar e estará depois, não pode ser penalizada por isso. É importante lembrar que toda a população é filha de mulheres. Todas as vozes importam. Em Portugal, temos mulheres com ‘hard skills’ importantes que não estão a ser usadas ou pouco usadas. Temos de espoletar o potencial disso tudo.” A jurista relembrou que este está a ser “um ano muito difícil em termos de sustentabilidade”. “Não se enganem, quando os anos são difíceis para a sustentabilidade, são difíceis para a Democracia e para valores como a Liberdade. E aí vêm a extrema direita e, consequentemente, uma mitigação dos Direitos Humanos”, alertou.

Cultura de Inclusão e Diversidade nas empresas

Cláudia Mendes Silva, sublinhou, por seu lado, a importância de criar ambientes de trabalho onde cada colaborador possa ser autêntico e participar ativamente na construção de uma cultura diversa e inclusiva. “Na Siemens temos uma estratégia global, um posicionamento de como queremos que as nossas pessoas se sintam e vivam dentro da empresa, como é que elas podem ser quem elas são. Os desafios são imensos a nível global. As transposições são feitas para cada um dos contextos dos países e das legislações, mas nós vamos além da legislação. Como temos a política de ‘bottom up’, ou seja das pessoas proporem as suas iniciativas, terem voz, mostrarem como se sentem, como é que podem aprimorar esta cultura da diversidade, elas próprias são agentes de mudança, catalisadores da mudança dentro da empresa. Esta relação de pertença é medida através de uma série de perguntas que englobam como se sentem na empresa e que são que depois são usadas para mensurar em termos de ESG.”

Desconstruir estereótipos e inspirar novas gerações

A representante da Siemens sublinhou também os desafios que persistem na área tecnológica e a necessidade de promover o acesso e a formação de mais mulheres neste setor em rápida transformação. “Em Portugal, temos um rácio de 19 a 20% de mulheres formadas em áreas de tecnologia. Na verdade, tudo passa pela educação das crianças. Primeiro, é preciso desconstruir estereótipos de género – não há profissões para meninos e para meninas -, e depois saber explicar o que se faz na área da engenharia, o que é difícil. Um engenheiro resolve problemas que surgem na sociedade, mas é complicado explicar o propósito da tecnologia, mesmo num mundo cada vez mais tecnológico. As meninas têm de perceber como vão fazer parte da construção da nova tecnologia, que depois vão deixar à sociedade e esse pode ser um propósito muito bonito. Temos de ter mulheres irreverentes para que esta sociedade seja mais resiliente.”

O encontro no Palácio das Galveias deixou clara uma mensagem incontornável: A igualdade de género é um motor de transformação. É no cruzamento entre sustentabilidade, inovação e justiça social que se constrói o futuro das empresas e das instituições.

Mais do que um princípio ético, a igualdade é uma condição para gerar valor, mobilizar talento e fortalecer a democracia económica. Integrar a perspetiva de género nas estratégias ESG significa abrir caminho a uma sociedade mais justa, resiliente e preparada para os desafios do futuro.

Lisboa reafirma-se também como cidade comprometida com este propósito, onde a diversidade é força motriz e a igualdade de género deixa de ser uma meta distante para se tornar parte essencial do desenvolvimento sustentável.

 






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