A associação ambientalista QUERCUS alertou para falhas estruturais graves na classificação oficial da ocupação do solo em Portugal, afirmando que mais de dois terços do eucaliptal ardido estão ocultos das estatísticas nacionais, o que distorce a perceção real da dimensão dos incêndios florestais e compromete a definição de políticas públicas.
O alerta surge após a análise da Carta de Uso e Ocupação do Solo (COS) e da Carta de Ocupação do Solo Conjuntural (COSc), produzidas pela Direção-Geral do Território (DGT) com base em imagens de satélite do programa europeu Copernicus. Segundo a QUERCUS, estas ferramentas apresentam um desfasamento significativo face à realidade no terreno, levando à classificação incorreta de vastas áreas de eucaliptal como “mato”.
De acordo com o 5.º relatório provisório de incêndios rurais do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), publicado em setembro, Portugal registou já em 2025 a quarta maior área ardida desde 1996, com um total de 254.296 hectares consumidos pelo fogo. No entanto, a associação ambientalista sublinha que estes números não refletem com rigor a verdadeira ocupação florestal das áreas afetadas.
A QUERCUS aponta como principais causas a atualização pouco frequente da COS — realizada apenas de cinco em cinco anos — e o recurso a ortofotomapas cuja última edição remonta a 2018. A situação é agravada, segundo a associação, pelo facto de a COSc classificar anualmente como “mato” áreas de eucaliptal jovem, em regeneração ou após corte, mascarando a real extensão desta espécie florestal.
Como exemplo, a associação refere o incêndio de Arouca, ocorrido em 2024, onde arderam cerca de 6.500 hectares. Apesar de mais de 80% da área afetada corresponder a eucaliptal, sobretudo jovem, os dados oficiais classificam 62% da área como “fogo de mato”. Situação semelhante é identificada no incêndio de Pedrógão, onde relatórios europeus indicam 80% de “mato” numa área em que cerca de 90% correspondia a eucaliptos jovens ou em regeneração natural.
Segundo a QUERCUS, esta subavaliação estatística tem consequências diretas na prevenção e combate aos incêndios, na avaliação ambiental e no ordenamento do território, alimentando uma narrativa oficial que desvirtua a realidade florestal do país.
Entre as medidas propostas, a associação defende a retificação urgente dos protocolos de análise, uma atualização mais próxima do tempo real e a introdução de licenciamento obrigatório e georreferenciação das plantações de eucalipto e de outras espécies florestais de rápido crescimento, numa plataforma oficial do Estado, para permitir uma monitorização mais transparente e eficaz.
A QUERCUS conclui que, sem correções urgentes e maior transparência, Portugal continuará a basear decisões estratégicas em dados que não refletem a realidade, comprometendo a segurança das populações, a proteção dos ecossistemas e uma gestão florestal sustentável.









