Roazes no Algarve: Como a temperatura da água afeta a abundância dos cetáceos e o que se pode avizinhar num planeta em crise

A temperatura da superfície do mar e a abundância de alimento são dois dos principais fatores que influenciam a ocorrência dos roazes ao longo da costa algarvia. Em entrevista à Green Savers, a investigadora Margarida Vizeu Pinheiro explica a importância da descoberta e as suas implicações para a conservação da espécie.

Filipe Pimentel Rações

Ao longo de toda a costa continental portuguesa, os roazes (Tursiops truncatus) são das espécies de cetáceos mais abundantes, e no Algarve é a segunda mais avistada, só atrás dos golfinhos-comuns (Delphinus delphis).

Embora os cientistas digam que ainda não é possível afirmar com toda a certeza que existe uma população residente de roazes na costa algarvia – sobretudo porque ainda faltam dados ao longo de grandes períodos para ajudar a perceber isso – facto é que esses mamíferos marinhos altamente sociais podem ser observados nessa região durante praticamente todo o ano.

E as ameaças que aí enfrentam não são poucas e tudo indica que agravar-se-ão no futuro. O encontro entre as águas mais frias e mais ricas em nutrientes do Oceano Atlântico com as mais quentes do Mar Mediterrâneo fazem da costa sudoeste da Península Ibérica, incluindo o Algarve, uma zona altamente produtiva e rica em espécies que servem de presas a outros animais, incluindo golfinhos e humanos.

As interações entre essas duas espécies de mamíferos nem sempre são as mais positivas. Mais humanos a pescar significa um risco maior de os golfinhos ficarem emaranhados nas redes de pesca, podendo sufocar se não se conseguirem libertar ou se não forem assistidos. Estudos recentes alertaram já que na costa oeste do Algarve os golfinhos estão muito expostos ao perigo de serem capturados acidentalmente.

Além disso, sendo uma região fortemente turística, as águas costeiras algarvias estão a tornar-se cada vez mais tumultuosas e ruidosas. É uma típica situação de “faca de dois gumes”: se, por um lado, essas águas atraem golfinhos devido à abundância de presas, por outro, atraem também muitas pessoas que os querem observar em meio selvagem. E, com elas, vêm os barcos.

Em 2024, um grupo de investigadores, liderado pela Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM), apontava para o aumento “exponencial” do turismo de observação de cetáceos em embarcações motorizadas nas últimas décadas. Isso faz com que as águas ao largo da costa algarvia se tornem mais barulhentas, afetando negativamente a comunicação e o comportamento dos golfinhos que as visitam.

O turismo de observação de cetáceos tem vindo a aumentar nas últimas décadas no Algarve e está a ter impactos nos golfinhos. Foto: Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM).

Esse trabalho detalhava que, para se fazerem ouvir, os animais tinham de aumentar a frequência dos seus assobios e de reduzir a sua complexidade, exigindo deles um esforço muito maior para poderem comunicar uns com os outros. Imagine o leitor tentar falar com alguém numa discoteca com música aos berros. Tem de gastar mais energia para se tentar fazer ouvir e a sua mensagem terá de ser mais simples para ser entendida pelo recetor, e, mesmo assim, nada garante que essa comunicação será bem-sucedida.

Ainda que os roazes não sejam considerados uma espécie ameaçada, classificados como “Pouco Preocupante” no Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental de 2023, populações locais podem estar mais vulneráveis do que outras a pressões que podem ameaçá-las. Por isso, saber como esses núcleos usam os espaços, e porquê, é fundamental para adaptar planos de conservação para que se possa atuar antes de as situações se tornarem demasiado complicadas.

Uma outra equipa de cientistas, também coordenada pela AIMM, lançou-se precisamente nessa missão.

“Gostos” adquiridos com a idade

Ainda que se possa pensar que os golfinhos de uma certa espécie usam as águas da mesma forma, diferentes grupos etários preferem determinadas condições. Num estudo publicado em outubro deste ano, a investigadora Margarida Vizeu Pinheiro e os seus colegas descobriram que a abundância e a distribuição dos roazes na costa algarvia são influenciadas sobretudo por dois grandes fatores: a disponibilidade de alimento e a temperatura da superfície do mar.

Os roazes juvenis e adultos preferem as águas mais frias (abaixo dos 18 ou 19 graus Celsius) e mais produtivas do oeste algarvio, onde podem encontrar presas em maiores quantidades. No entanto, as crias e os recém-nascidos gostam mais de águas mais quentes, como as da região mais oriental, especialmente a temperaturas que rondam os 21 ou 22 graus Celsius.

Os golfinhos, tal como os outros cetáceos, são animais endotérmicos, de “sangue quente”, capazes de regular a sua temperatura interna. Contudo, as crias e os recém-nascidos têm uma capacidade de termorregulação mais limitada, não sendo capazes de controlar tão bem a temperatura dos seus corpos. Por isso, para reduzirem perdas de energia e para sobreviverem, precisam de estar em águas ligeiramente mais quentes do que aquelas onde vivem os golfinhos mais velhos.

Os cientistas descobriram que a temperatura da superfície do mar e a abundância de alimento determinam a abundância dos roazes no Algarve. O mais velhos preferem águas mais frias mas mais produtivas, enquanto os mais novos águas mais quentes. Foto: Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM).

Essa é a grande descoberta do artigo divulgado recentemente na revista ‘Regional Studies in Marine Science’ e “ajuda a explicar as diferenças observadas na distribuição dos roazes ao longo da costa”, diz-nos Margarida Vizeu Pinheiro. O facto de a abundância dos roazes no Algarve ser moldada pela interação entre a temperatura e a produtividade das águas tinha também já sido identificado em estudos anteriores sobre golfinhos-comuns.

A primeira autora deste mais recente estudo explica que é importante perceber como é que diferentes grupos etários se distribuem ao longo da costa do Algarve para que medidas de proteção e conservação possam ter em conta essas especificidades e variações na forma como o espaço é usado.

“Medidas de gestão desenhadas a partir de uma visão ‘média’ da população podem proteger bem os adultos, mas falhar precisamente na proteção das fases mais sensíveis do ciclo de vida”, salienta, acrescentando que “as condições ambientais críticas para a sobrevivência das crias não coincidem necessariamente com aquelas que determinam a distribuição dos indivíduos mais velhos”.

Mesmo para espécies que não estão atualmente classificadas como ameaçadas, esses dados são fundamentais e podem ser determinantes para o futuro de populações específicas e até, eventualmente, de toda a espécie.

“Ignorar estas diferenças pode resultar em estratégias aparentemente adequadas, mas que deixam desprotegidos precisamente os indivíduos mais vulneráveis, com consequências diretas para a renovação e resiliência da população a longo prazo”, avisa a investigadora.

Águas mais quentes em tempos de crise climática

Se a temperatura da superfície do mar influencia a distribuição espacial dos vários grupos etários dos roazes, e de outras espécies de cetáceos também, o que poderá acontecer numa altura em que os mares e os oceanos estão cada vez mais quentes fruto do aquecimento do planeta?

Margarida Vizeu Pinheiro refere que isso poderá “reforçar a segregação espacial entre classes etárias”. Dessa forma, os juvenis e os adultos poderão afastar-se mais para oeste na costa algarvia, para longe das águas cada vez mais quentes a leste. Além de poder “aumentar a fragmentação do uso do habitat”, isso levanta um desafio adicional para as progenitoras.

As mães e as crias roazes ficam juntas, em média, entre três e seis anos após o nascimento, o que obriga as progenitoras a terem de permanecer em águas mais quentes e menos produtivas durante mais tempo do que outros juvenis e adultos.

Como tal, à medida que as águas mais frias e mais ricas em alimento se afastam para oeste, as fêmeas ver-se-ão confrontadas com escolhas difíceis: ou permanecem com as crias nas águas mais quentes e onde têm menos comida, arriscando a sua própria saúde e também o leite e a proteção que podem fornecer às crias, ou deslocam-se para zonas mais frias e com mais alimento, correndo o risco de expor as crias a temperaturas que podem comprometer o seu desenvolvimento e sobrevivência. Num mundo em crise climática, ser mãe roaz, ou de qualquer outra espécie na verdade, será incrivelmente mais difícil.

Além das implicações para o futuro das populações, o aquecimento marinho pode também afetar a própria estrutura dos grupos, aumentando a divisão por classes etárias.

Recorda Margarida Vizeu Pinheiro que outros estudos sobre outras populações costeiras de roazes mostraram que, em alturas mais quentes ou quando ocorrem ondas de calor marinhas, a abundância de golfinhos diminui, os grupos que se avistam são mais pequenos e aumenta a área que eles usam “sugerindo ajustamentos na distribuição espacial e na estrutural social dos grupos”.

Conhecer mais para proteger melhor

No estuário do rio Sado vive uma pequena população de roazes, considerada residente e que tem sido continuamente estudada desde a década de 1980. A articulação entre entidades públicas, universidades e organizações não-governamentais, bafejada com financiamento nacional e europeu, permitiu um estudo mais longo desse grupo de roazes e confirmar o que os entendidos chamam de “fidelidade espacial”.

Além disso, esse esforço de monitorização mais aturado permitiu também testemunhar todo o ciclo de vida de indivíduos específicos, calcular taxas de sobrevivência e de reprodução com maior precisão e perceber as principais ameaças, chegando-se à conclusão de que esse grupo está especialmente vulnerável. Isso deve-se, sobretudo, ao relativo isolamento face a outros grupos, à baixa diversidade genética, ao alto nível de envelhecimento e ao declínio que se tem registado nas últimas décadas.

Desde por volta de 2010 que os investigadores da AIMM têm monitorizado continuamente os cetáceos nas águas costeiras algarvias para perceber melhor as suas vidas e dinâmicas sociais e ecológicas. Foto: Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM).

“Por estas razões, esta população é considerada ameaçada a nível nacional e alvo de medidas de conservação específicas. Este caso mostra claramente que uma população local pode estar em situação crítica mesmo quando a espécie, no global, não o está”, diz-nos Margarida Vizeu Pinheiro.

Como se vê, sabe-se muito sobre a população do estuário do Sado, mas o mesmo ainda não se pode dizer da da costa algarvia, algo que a associação científica AIMM quer resolver. Há mais de uma década que tem monitorizado sistematicamente os cetáceos no Algarve, recolhendo dados regularmente e identificando os indivíduos através de imagens (foto-identificação) ao longo de toda a costa.

O objetivo é conseguir-se criar séries temporais mais longas que permitam perceber se, por exemplo, os roazes que se veem nas águas costeiras algarvias são ou não residentes, quantos é que visitam essa região e quais os grupos etários presentes.

“Sabemos hoje, graças ao trabalho conjunto que a AIMM tem vindo a desenvolver com organizações espanholas, através da comparação de catálogos de foto-identificação e de esforços coordenados de monitorização, que alguns dos golfinhos-roazes observados no Algarve deslocam-se também para águas espanholas, nomeadamente para o Golfo de Cádis”, refere Margarida Vizeu Pinheiro.

A investigadora diz que esses dados sugerem que os roazes usam toda a região do sul da Península Ibérica como se fosse uma única e contínua área de distribuição, “sem reconhecerem fronteiras políticas”, que, na maioria dos casos, são artifícios de criação humana. E acrescenta que “esta conectividade transfronteiriça evidencia a importância de abordagens de conservação integradas entre Portugal e Espanha”.

Algarve pode ser berçário de roazes

Embora há décadas se saiba da ocorrência de cetáceos, roazes incluídos, no Algarve, a informação disponível sobre esse grupo de mamíferos marinhos durante muito tempo era escassa e dispersa e baseava-se sobretudo em arrojamentos e em avistamentos ocasionais. Além disso, o facto de não se reconhecer uma população residente de roazes na região também não atraía particularmente o interesse de financiadores e até de investigadores, pelo menos não da mesma forma como se via no Sado ou até mesmo nas ilhas.

Margarida Vizeu Pinheiro, no entanto, está confiante de que isso está a mudar com o trabalho desenvolvido pela AIMM. “Este esforço tem permitido construir séries de dados cada vez mais consistentes sobre ocorrência, abundância e estrutura etária, essenciais para compreender o papel do Algarve no ciclo de vida de espécies como o roaz e o golfinho-comum”.

E a investigadora assegura que “o Algarve não é menos importante do ponto de vista ecológico”, somente “entrou mais tarde no radar da investigação sistemática e está agora a recuperar esse atraso”.

Essa importância torna-se ainda mais saliente quando se percebe que o Algarve pode ser um berçário de roazes, ou seja, uma zona de grande importância para a reprodução da espécie. Mas isso só se conseguirá confirmar com dados mais longos, ainda que se acredite, desde já, que o Algarve tem “uma função importante de reprodução e criação” para os roazes, “com registos frequentes de recém-nascidos e condições ambientais favoráveis”, explica Margarida Vizeu Pinheiro.

“Por isso, a nossa posição é prudente: tudo indica que o Algarve funciona como berçário para o golfinho roaz, mas a validação formal deste estatuto depende da continuidade da monitorização de longo prazo e estudos dedicados”, diz, e sublinha que, embora não seja uma espécie ameaçada, proteger os roazes enquanto “espécie-bandeira”, sendo eles “carismáticos, facilmente reconhecidos pelo público e culturalmente muito valorizados”, bem como as áreas marinhas que para eles são fundamentais, ajudará a proteger também “muitas outras espécies e processos ecológicos essenciais, tornando a conservação mais eficaz e socialmente mobilizadora”.

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