Os solos não são mero sedimento inerte, são mundos repletos de formas de vida, muitas delas além da nossa visão humana. Estima-se que albergam 59% de todas as espécies da Terra, sendo, por isso, o habitat mais biodiverso do planeta.
Num só punhado de solo podem esconder-se milhares de milhões de bactérias, múltiplos tipos de fungos, milhares de criaturas microscópicas, como nemátodos, e ainda diversos animais visíveis a olho nu, como insetos e minhocas. São esses seres vivos que mantêm saudável o solo do qual dependemos para cultivar os nossos alimentos, que ajudam a aprisionar gases com efeito de estufa e, no final de contas, a suportar a vida como hoje a conhecemos.
Mas um grupo de cientistas avisa que esse mundo, ainda repleto de mistérios e de perguntas sem resposta, corre o risco de colapsar ainda mesmo antes de os humanos o compreenderem devidamente.
Num artigo publicado na revista ‘Oryx’, estima-se que uma em cada cinco espécies que dependem do solo (que passam aí grande parte da sua existência ou etapas essenciais dos seus ciclos de vida) está ameaçada de extinção, e admite-se que essa poderá ser uma estimativa muito conservadora. O trabalho foi desenvolvido por dezenas de especialistas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), da organização Conservation International e investigadores de diversas instituições académicas e científicas de vários países, incluindo a Universidade dos Açores.
A investigação permitiu ainda constatar que para 20% das 8.653 espécies examinadas pela equipa faltam dados em quantidade e qualidade suficientes para que se consiga fazer uma avaliação devidamente fundamentada do seu estado de conservação.
Os cientistas apontam as alterações ao nível do uso do solo e das suas propriedades químicas (muito por causa do uso de agroquímicos) como uma das grandes causas da situação preocupante em que se encontra a biodiversidade que vive por baixo dos nossos pés.
“O solo sustenta praticamente todas as partes essenciais da vida humana, mas sabemos incrivelmente pouco sobre os milhares de espécies que o mantêm saudável”, afirma Neil Cox, da UICN e da Conservation International, e primeiro autor do estudo.
“Estamos a avançar às cegas no que diz respeito a um dos ecossistemas mais fundamentais da Terra”, avisa.
Os investigadores dizem que isso em muito se deve ao facto de grande parte dos organismos que vivem no solo escaparam à nossa visão, não atraindo, assim, muita atenção da parte do universo das ciências da conservação e também do público em geral.
Por exemplo, no caso de toupeiras ou cães-da-pradaria, “podemos observá-los, marcá-los, segui-los, mas com fungos e invertebrados, estamos a lidar com milhões de organismos numa única mão-cheia de terra, muitos dos quais nem sequer identificámos”, comenta Cox.
O grupo diz que sem medidas urgentes, algo que passa muito também por uma maior visibilidade pública destes organismos, a biodiversidade do solo poderá colapsar e levar com ela os sistemas de produção alimentar humanos, acelerando também ainda mais a instabilidade climática. E defende que mais espécies do solo devem ser integradas na Lista Vermelha da Espécies Ameaçadas da UICN, a referência global sobre o estado de conservação de milhares de espécies de todo o mundo.
“A Lista Vermelha ajuda a guiar o mundo sobre o que deve ser protegido. As espécies do solo mantêm unidos ecossistemas inteiros, mas mal aparecem nela. Essa é uma lacuna fundamental na forma como entendemos a vida na Terra”, sublinha o primeiro autor do estudo.









