Água-de-Bonelli e Tapada Nacional de Mafra: três décadas de convivência entre conservação e território



Discreta, rara e extraordinariamente exigente quanto à tranquilidade do seu habitat, a águia-de-Bonelli encontrou na Tapada Nacional de Mafra um dos seus mais importantes refúgios em Portugal. O recente regresso do casal residente e a reconstrução do ninho assinalam mais um capítulo de uma história de conservação com mais de 30 anos, que faz deste território um símbolo vivo da biodiversidade mediterrânica.

Apesar da sua grande dimensão e estatuto de superpredador, a águia-de-Bonelli é uma das aves de rapina mais difíceis de observar em Portugal. Os seus hábitos reservados e a preferência por locais de difícil acesso fazem com que passe despercebida mesmo em territórios onde está presente durante todo o ano. Em Portugal, trata-se de uma espécie rara e muito localizada, com uma distribuição fragmentada de norte a sul do país, ocupando essencialmente vales alcantilados com fragas, sobretudo no Norte, e zonas acidentadas e bem florestadas no Alentejo e Algarve. É neste segundo tipo de habitat que a espécie encontra árvores de grande porte para nidificar, uma exigência ecológica cada vez mais difícil de satisfazer no sul do país.

É também por essa razão que a presença continuada da águia-de-Bonelli na Tapada Nacional de Mafra assume uma relevância particular. A Tapada alberga um casal residente há várias décadas, constituindo um território de referência para a conservação da espécie e um raro exemplo de estabilidade reprodutora numa paisagem peri-urbana.

Águia-de-bonelli.
Foto: Mike Prince / Wikimedia Commons (licença CC BY 2.0)

Conhecida também como águia-perdigueira, é a mais pequena e discreta das grandes águias que ocorrem em Portugal. Os adultos distinguem-se facilmente pelo contraste entre o corpo claro e as asas escuras, bem como pela mancha branca característica no dorso, enquanto os juvenis apresentam uma plumagem dominada por tons ruivos. Como é comum nas aves de rapina, as fêmeas são maiores do que os machos. Exímia caçadora, adapta a sua dieta às presas mais abundantes e revela um comportamento particularmente interessante: os casais caçam frequentemente em conjunto, protagonizando voos acrobáticos que figuram entre os espetáculos mais impressionantes da natureza.

Este desempenho não a protege, contudo, de um conjunto alargado de ameaças. A perturbação humana durante a época de reprodução, que se estende de dezembro a junho, é uma das mais críticas, uma vez que a espécie é extremamente sensível à presença humana nas imediações dos ninhos. A mortalidade associada a linhas elétricas perigosas, seja por colisão ou eletrocussão nos postes, continua igualmente a afetar adultos e juvenis. A estas ameaças somam-se fatores regionais específicos, como a diminuição da abundância de presas no Douro Internacional, associada à perda e degradação do habitat agrícola, ou o desaparecimento acelerado de árvores de grande porte no sul do país.

Na Tapada Nacional de Mafra, o regresso recente do casal de águia-de-Bonelli e o início da reconstrução do ninho marcam o arranque de um período particularmente sensível do ciclo reprodutor. Nesta fase, a tranquilidade do território é determinante para o sucesso da reprodução, reforçando a importância de uma gestão rigorosa dos usos humanos compatível com a conservação da espécie.

A presença da águia-de-Bonelli na Tapada foi detetada pela primeira vez em 1991, por um guarda-florestal, sendo posteriormente confirmada por especialistas da Associação AÇOR e do Centro Falco. Desde 1995, a monitorização do casal residente é assegurada de forma regular pelo quadro técnico da Tapada, com o apoio da SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves durante o período de nidificação. Este acompanhamento continuado permitiu documentar um elevado sucesso reprodutor, com a saída do território de pelo menos uma cria independente na maioria dos anos. Em 1995, 1997, 2005, 2014 e 2025, o casal conseguiu mesmo criar duas crias.

Os únicos insucessos reprodutores recentes, registados em 2023 e 2024, ficaram a dever-se à substituição do macho adulto por um juvenil, após o desaparecimento do macho residente por causas desconhecidas, presumivelmente naturais. Esta alteração levou à rejeição dos ovos nesses dois anos, ilustrando a sensibilidade da espécie à estabilidade do casal e à experiência dos indivíduos reprodutores.

Do ponto de vista da conservação, a águia-de-Bonelli apresenta estatuto de Vulnerável em Portugal, com uma população reduzida e fragmentada. A Tapada Nacional de Mafra destaca-se, no entanto, como um território que continua a oferecer condições de excelência em termos de abrigo e alimentação, funcionando como um importante indicador da qualidade ecológica do espaço. A população peri-urbana aqui existente, considerada única na Europa, reveste-se de especial importância pelo seu valor genético, fundamental para a adaptação da espécie a territórios cada vez mais humanizados.

Este trabalho de conservação foi reforçado com a integração da Tapada no Projeto LIFE LxAquila, uma iniciativa com duração de cinco anos, entre setembro de 2020 e setembro de 2025, orientada para a criação de uma rede de custódia do território destinada à proteção da única população peri-urbana de águia-de-Bonelli na Europa. O projeto teve como objetivos centrais a proteção dos locais de reprodução através da gestão de atividades humanas, a redução da mortalidade não natural, a melhoria do habitat e da disponibilidade de presas, bem como a sensibilização de proprietários, gestores, comunidades escolares e público em geral para a importância dos superpredadores nos ecossistemas.

Coordenado pela SPEA, o projeto envolveu uma ampla rede de parceiros públicos e privados, incluindo entidades como a Altri Florestal, várias câmaras municipais, a Companhia das Lezírias, a EDP Distribuição, a GNR/SEPNA, o ICNF, os Parques de Sintra – Monte da Lua, a SEO/BirdLife e a Xarxa de Custòdia del Territori, entre outros.

Para a Tapada Nacional de Mafra, a participação no LIFE LxAquila traduziu-se em resultados concretos e mensuráveis. Foi colocado um emissor GPS num juvenil nascido no território, permitindo estudar em detalhe a fase de dispersão da espécie, e instalada uma câmara de ninho que possibilitou a recolha de informação detalhada sobre a reconstrução do ninho, incubação e alimentação das crias. Foram ainda adquiridos equipamentos de apoio à monitorização da fauna e materiais didáticos para programas de sensibilização ambiental, desenvolvidas ações educativas que envolveram centenas de alunos, professores e participantes, e realizada a gestão de combustível numa área de 35 hectares, essencial para a proteção da biodiversidade e a prevenção de incêndios florestais.

Com o término do projeto, a Tapada Nacional de Mafra reafirma o seu compromisso com a conservação da águia-de-Bonelli, integrando a monitorização do casal residente como uma prioridade permanente. A suspensão de atividades em áreas sensíveis durante o período de reprodução, a gestão contínua do combustível florestal e a aposta em programas de sensibilização ambiental permanecem no centro da estratégia, assegurando que este território continue a ser um refúgio seguro para uma das aves de rapina mais emblemáticas da fauna portuguesa.

O regresso do casal e a reconstrução do ninho não são apenas um sinal de esperança para a espécie, mas também a prova de que a gestão cuidada e consistente da Tapada Nacional de Mafra permite conciliar conservação, conhecimento científico e fruição responsável da natureza, garantindo a permanência de um verdadeiro símbolo da biodiversidade nacional.

Saiba mais no site da Tapada Nacional de Mafra.






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