Estávamos a 31 de outubro em Sesimbra, mais especificamente na sede do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA), uma organização criada em 1995 para aprofundar o conhecimento sobre as grutas da Arrábida e para promover a sua proteção.
O grupo é formado por um conjunto de entusiastas do mundo natural com diversas origens, mas todos têm a mesma vibrante paixão: as grutas. É ao NECA que muito se deve o que se sabe sobre a vida que pulula no subsolo dessa região do país, bem como sobre as maravilhas geológicas que aí se escondem.
Quando chegámos, Pedro Cardoso convidou-me a libertar no jardim duas aranhas que tinha capturado dias antes para mostrar numa exposição no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, dedicada aos “superpoderes” do reino animal.
Numa das caixas transparentes estava uma aranha do género Zoropsis (família Zoropsidae), um macho, nativa da região mediterrânica e muito abundante em Portugal. Na outra, uma fêmea de aranha-lobo (família Lycosidae), com o dorso coberto por uma bola ondulante de mais de uma centena de crias. Essa fêmea tinha apenas seis patas – quatro do lado esquerdo e duas no direito – e não se sabe a razão por que as perdeu, pois o especialista nesse grupo de animais do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, já a capturara assim.

Pedro Cardoso retirou-as das caixas com a própria mão, desprotegida, sem luvas. Entendi como uma prova clara de que, pelo menos aquelas duas espécies, eram absolutamente inofensivas para os humanos. Colocadas no solo, correram velozmente por entre a vegetação em busca de abrigo, e quase nem consegui fotografá-las devidamente.
As crias permanecem com a progenitora durante perto de duas semanas, sem comerem, focadas inteiramente no seu desenvolvimento. Estas duas espécies vivem cerca de um ano e teriam, quando as devolvemos à Natureza, uns poucos meses de idade.
Lá fora, o vento uivava e a chuva fustigava a terra. Fazia sentir-se, e bem, a força de uma frente fria que havia colocado grande parte do país sob avisos meteorológicos. Na sede do NECA, Pedro Cardoso estendeu-me um fato cor-de-laranja berrante que cobria todo o meu corpo, e também um capacete com uma lanterna frontal. Aceitei, mas com alguma surpresa. Sabia que ia visitar uma gruta no Parque Natural da Arrábida onde viviam algumas aranhas, mas não pensei que fosse tão “radical”. Em menos de nada, descobriria porque é que o biólogo, dias antes, me havia perguntado se eu tinha algum problema com “espaços apertados”.
Ao fim de alguns minutos de carro, deliciados a ouvir metal nórdico inspirado na mitologia viking, chegámos a um caminho de cascalho e terra, fendido pela ação de carreiros de água que se formavam com a chuvada. Não havia como continuar de carro, pelo que seguimos a pé. Pedro Cardoso movia-se com a confiança de quem estava familiarizado com ambientes mais desconfortáveis e desafiantes. Eu, por outro lado, ofegava e tentava manter o meu caderno seco, segurando-o dentro do impermeável, e soçobrando sob o peso da minha mochila.
Depois de cerca de meia hora (ou assim me pareceu), passando por uma pedreira onde um buraco enorme parecia abrir as entranhas da Terra ao céu escuro, chegámos ao topo da falésia na Arrábida. A rocha desaparecia abruptamente, numa parede escarpada, caindo para o mar revoltoso e cinzento. Parados, à beira do precipício, Pedro Cardoso indicou-me que a gruta era “já ali”, apontando para o abismo. A passo incerto, segui atrás dele, descendo pela ladeira, por entre arbustos rijos que pareciam querer travar o meu avanço.

“Ali está ela”, disse o biólogo, apontando para o que, aos meus olhos, era nada mais do que um pequeno buraco, totalmente inconspícuo, na face rugosa da falésia. “Onde é que eu me vim meter?”, pensei. Com cuidado para não resvalar para o mar, muitos metros lá em baixo, vesti o meu fato de proteção e pus o capacete. Pedro seguiu na frente, enfiando-se, pés primeiro, na abertura que talvez medisse pouco mais do que um metro de largura e pouco mais do que um antebraço de altura.

Dei por mim numa pequena câmara, o teto coberto de estalactites, que pendiam como pingentes de gelo de tons leitosos e contornos arredondados, aqui e ali enredadas pelas raízes da vegetação que crescia por cima. No chão, as estalagmites brotavam como estranhas flores petrificadas, unidas umas às outras por teias em lençol que dançavam na leve brisa que soprava da entrada. Apesar desse ligeiro sopro do exterior, o ar na câmara era calmo e mais quente do que lá fora. Um verdadeiro microcosmo subterrâneo.
Sentei-me e saquei do caderno, de caneta e gravador em riste, quando Pedro Cardoso me disse que as aranhas que fôramos ver estavam lá mais em baixo. Engoli em seco, mas não queria dar parte de fraco. “Vamos lá”, disse eu, talvez num tom não tão confiante quanto pretendia. A entrada para a segunda câmara era ainda mais estreita. O biólogo foi à frente. Eu segui. Pés primeiro, a rocha a apertar-me o peito. A cabeça passou. Estaquei. Uma sensação de ansiedade acutilante começou a trepar por mim acima, como se o ar tivesse sido, de súbito, sugado dos meus pulmões por alguma força invisível.
“Tenho de sair”, disse. “Tem calma. Respira fundo”, ecoou a voz de Pedro, ao longe. “Não. Tenho mesmo de sair”, ouvi-me dizer, num tom surpreendentemente calmo, tendo em conta que um pânico irracional tomava conta de mim.
Atabalhoadamente voltei para a primeira câmara, a respiração acelerada e às golfadas. Minutos depois, uma cabeça surge da pequena abertura. Pedro juntara-se a mim. Algo embaraçado, sugeri casualmente que conversássemos ali mesmo, com o rugido do vento a assegurar-me que ainda existia um “lá fora”.
Uma conservação difícil
Sentados no chão calcário da Gruta da Calma, batizada com esse nome pelo facto de nutrir uma atmosfera profundamente tranquila mesmo quando no exterior uma tempestade fulgia a toda a força, falámos dos obstáculos à conservação das aranhas.
Na Europa, existem entre 4.000 e 5.000 espécies diferentes de aranhas. Em Portugal continental, são aproximadamente 800, das quais cerca de 43 são endémicas, ou seja, não existem em mais lugar algum. Apesar dessa grande diversidade, o que se sabe sobre elas é uma parte infinitesimal do que ainda há por descobrir.

A falta de conhecimento é, por isso, um dos principais entraves à conservação deste grupo de invertebrados. Desde os trabalhos pioneiros de Amélia Bacelar, que descreveu a buraqueira-de-fagilde (Nemesia berlandi), e de António de Barros Machado, ambos grandes nomes da aracnologia portuguesa, no início do século XX, pouco ou nada mais se fez entre os anos 1940 e 1990.
Por parte dos cientistas, havia interesse em estudar aranhas em Portugal, mas a priorização política e de investimento não seguiam nesse sentido. Os vieses socioculturais em desfavor desses invertebrados, e de tantos outros, deixavam os investigadores e eventuais projetos sem pernas para andar. No entanto, desde a última década do século passado, o estudo sobre as aranhas em Portugal tem conseguido um novo fôlego, em muito potenciado pelo avanço das tecnologias de informação, como a Internet, que permitiu aos cientistas e entusiastas ter acesso a um manancial de conhecimento produzido além-fronteiras que ajudou a impulsionar o desenvolvimento da aracnologia em Portugal. A consciência da importância de saber mais sobre as aranhas também aumenta, embora a um ritmo muito inferior ao da que é investida sobre outros animais, especialmente mamíferos e aves.

Pedro Cardoso, do CE3C, conta-me também que a forma como se fala das aranhas, inclusivamente na comunicação social, mas também nas redes sociais online, nem sempre é a melhor e pode perpetuar imagens erradas. O biólogo lembra o caso das aranhas Zoropsis, que foram introduzidas na Alemanha e onde ganharam fama de perigosas para os humanos, tendo-lhes sido atribuído o epíteto de “Nosferatu”, em referência à criatura vampiresca que protagoniza tantos fenómenos da cultura popular. Contudo, “é perfeitamente inofensiva”, esclarece.
“É muito mais fácil uma notícia falsa ser propagada, sobretudo se for sensacionalista, do que uma que seja verdadeira”, lamenta Pedro Cardoso, para quem muita dessa desinformação resulta de falta de conhecimento e do apetite por conteúdos chocantes.
Todas essas noções erradas sobre as aranhas, e igualmente sobre outros invertebrados, fazem com que muito menos dinheiro seja canalizado para a sua investigação e proteção. Reflexo disso é a própria Diretiva Habitats, da União Europeia, e a Convenção de Berna para a conservação da biodiversidade do continente, que apenas contêm uma única aranha na lista de espécies legalmente protegidas, a Macrothele calpeiana. Isto sabendo que há milhares de espécies na Europa e que diversos trabalhos alertam para várias em risco de extinção.
Embora reconheça que é preciso ter cuidado para assegurar a conservação da Macrothele calpeiana, Pedro Cardoso diz que essa espécie de aranha “nem de perto, nem de longe” é a que está mais ameaçada. “Todas as outras, mesmo aquelas que estão em extinção, são completamente ignoradas”, lamenta, dizendo que “não há monitorização, não há qualquer tipo de proteção nem de preocupação”. E sem financiamento dedicado, pouco se pode fazer para reverter essa situação.
Lembrando que esse não é um fado exclusivo das aranhas, pois também o é de quase todos os invertebrados e até mesmo de alguns grupos de vertebrados, como os répteis, Pedro Cardoso sentencia que “a maior parte da biodiversidade não está protegida de forma alguma”.
Contas feitas “por alto”, em 2011, pelo biólogo e outros colegas sugeriam que o financiamento de um projeto de conservação de uma espécie de invertebrado, por exemplo através do programa europeu LIFE, era, em média, algo como 1.000 vezes inferior quando comparado com um projeto sobre alguma espécie de ave ou mamífero. “Isso diz muito”, aponta.
Em Portugal, o quadro não é diferente, uma vez que o país segue as linhas europeias, especialmente no que diz respeito a invertebrados. É reflexo de alguma falta de vontade política, mas também de falta de recursos para fazer mais, embora os polinizadores, como abelhas, sirfídeos e borboletas, estejam a ganhar um grande destaque, incluindo um plano de ação nacional para a sua conservação. Isso resulta especialmente do facto de os polinizadores terem entrado nos discursos económicos, que destacam a polinização natural como fundamental para a produtividade agrícola e, assim, para o rendimento do setor e para a segurança alimentar humana.
Pedro Cardoso gostava que o mesmo reconhecimento fosse estendido às aranhas. Num artigo publicado no início de 2025 na revista Biological Reviews, com o título “Serviços de ecossistema fornecidos pelas aranhas” (“Ecosystem services provided by spiders”, no inglês original), ele e mais de uma dezena de colegas de vários países criaram um inventário de todas as funções desempenhadas pelas aranhas que podem traduzir-se em benefícios para os humanos.

É uma perspetiva antropocêntrica, claro, mas muitos na área da conservação entendem que se não se tocar “onde dói” dificilmente se consegue mobilizar as pessoas. Além disso, ajuda os investigadores e conservacionistas a convencerem os decisores políticos e os investidores de que financiar a conservação rende e não é deitar dinheiro à rua.
O artigo lista 20 serviços prestados pelas aranhas, desde a inspiração para novas fibras (mais resistentes e flexíveis que o Kevlar que cobre os coletes à prova de bala) e tecnologias à criação de novos medicamentos humanos e bioinsecticidas com base nos venenos, passando pelo controlo de pragas, doenças e espécies invasoras, pela reciclagem de nutrientes, pelo suporte ao ecossistema enquanto presas.
Além de tudo isso, são também destacados serviços culturais, pois as aranhas fazem parte das mitologias e espiritualidade de muitos povos, bem como de práticas de medicina tradicional, além de serem também parte da cultura popular contemporânea (pense no “Homem-Aranha” da Marvel) e de permitirem ensinar, especialmente os mais novos, sobre as maravilhas do mundo natural do qual também fazemos parte.
Quando falamos de conservação e restauro dos ecossistemas, as aranhas têm também um papel, pois, como me diz Pedro Cardoso na Gruta da Calma, “um ecossistema saudável terá sempre aranhas”, de tal forma que se numa área recuperada as aranhas não regressarem “alguma coisa está errada”.
“Se há aranhas, então é porque aquele local está bem conservado”, garante.
As muitas ameaças
Apesar de todos esses benefícios, as aranhas continuam a estar altamente desprotegidas e a serem fortemente ameaçadas por diversos fatores. De forma geral, a perda e fragmentação de habitat, com a conversão em áreas agrícolas ou urbanas e a construção de estradas, é um deles, mas também o são a poluição, especialmente química por pesticidas e herbicidas, os impactos das espécies invasoras, surtos de doenças e as alterações climáticas, especialmente incêndios mais frequentes e intensos.
Há também uma outra ameaça, que atinge especialmente as aranhas que vivem em grutas: a exploração mineira. Para chegar à Gruta da Calma, passámos por pedreiras, a cerca de um quilómetro de distância, e logo o biólogo me havia dito que eram um grande problema para as aranhas cavernícolas. Os principais impactos são a perda de habitat, com a destruição das cavidades subterrâneas onde elas vivem, sendo que muitas dessas espécies são altamente sensíveis a perturbações no seu ambiente e não são encontradas em mais lado algum.
Ainda, há o grande problema do tráfico, que afeta sobretudo as tarântulas, que todos os anos são traficadas aos muitos milhares pelo mundo fora. “Há cerca de 1.000 espécies de tarântulas conhecidas e muitas mais desconhecidas, e elas são realmente um grande alvo do tráfico”, diz-me Pedro Cardoso, que também muito tem estudado o comércio ilegal de invertebrados.

Muitas espécies que estão a ser comercializadas, destacadamente em grupos nas redes sociais ou em cantos mais recônditos da Internet, não foram ainda sequer descritas cientificamente. “Mas os caçadores furtivos já as conhecem, já sabem onde ir”.
Aliás, um reflexo muito claro dessa ameaça é o facto de alguns investigadores, quando descobrem uma nova espécie de tarântula, descreverem-na, mas evitarem dizer ao certo onde a encontraram. Isso, porque, se o fizerem, e especialmente se se tratar de uma espécie mais vistosa que os traficantes achem que lhes vai valer dinheiro, em menos de nada “compram o bilhete de avião e estão lá a exterminar completamente a população”.
Muitas dessas aranhas acabam, sobretudo, no mercado europeu. E a legislação existente para impedir que o comércio, legal ou ilegal, de aranhas, e outros animais e plantas, ponha em risco a sobrevivência de populações e espécies inteiras nem sempre é a melhor e pode estar repleta de lacunas que, ao invés de dissuadiram más práticas, permitem que continuem a acontecer.
Todos os anos, cerca de 900 novas espécies de aranhas são descritas, numa média de duas ou três por dia. Pedro Cardoso e a sua equipa descobriram em Portugal cerca de 100 espécies de aranhas totalmente novas para a Ciência só nos últimos 20 ou 25 anos, embora muitas não tenham ainda sido descritas por falta de recursos.
Se com pouco ou nada se consegue fazer isso, imagine-se o que se conseguirá fazer com mais. Caso contrário, muitas espécies podem estar a desaparecer sem que alguma vez tenham sido descritas cientificamente.
Para evitar essas “extinções silenciosas” das aranhas, e de muitos outros invertebrados, vertebrados, plantas e fungos, é preciso perceber que investir na produção do conhecimento sobre o nosso planeta e sobre aqueles que nele vivem é investir na sua proteção e futuro.
Maravilhas de oito patas
Oito patas, duas partes corporais, sem antenas e, regra geral, com quatro pares de olhos. As aranhas vivem em praticamente todos os cantos do planeta, à exceção da região antártica, dos mais altos cumes montanhosos e dos oceanos, e são dos predadores mais comuns e abundantes dos ecossistemas terrestres.
Contudo, têm uma reputação duvidosa, vistas por muitos como animais arrepiantes e repelentes, o que pode ter implicações negativas no que toca à sua proteção legal e à sua conservação. Vieses socioculturais a favor de animais mais emblemáticos e esteticamente apelativos (os mamíferos e as aves em grande destaque) marginalizam um grande número de criaturas mais estranhas, mas não menos extraordinárias, e limitam o apoio público, bem como o político, a ações e investimentos com vista a promover o conhecimento sobre as suas vidas e a garantir a sua sobrevivência.

Num artigo publicado em 2021, na revista ‘Frontiers in Ecology and Evolution’, investigadores da Eslováquia e dos Estados Unidos da América debruçaram-se sobre as razões pelas quais as aranhas são vistas com medo e repulsa pela maior parte das pessoas. A sua popularidade é reduzida, dizem, e a aracnofobia é uma das fobias a animais mais comuns, sendo as aranhas, regra geral, consideradas mais perigosas e repulsivas do que escaravelhos, vespas e borboletas, por exemplo.
Esses cientistas constataram, ao mostrarem imagens de aranhas a cerca de 1.000 participantes de várias idades, que grandes quelíceras (os apêndices com ganchos que as aranhas têm perto da cavidade oral que servem para injetar veneno nas presas e como arma de defesa e de ataque), o abdómen e corpos peludos são dos principais traços que geram medo e repulsa nos humanos. Por isso, sugerem que ações de conservação de aranhas evitem chamar a atenção para essas características que são consideradas como as que mais geram perceções negativas sobre esses animais.
“A conservação das aranhas parece ser mais difícil do que a de quaisquer outros invertebrados (e do que a maioria dos vertebrados), e isso deve-se, em parte, ao facto de, pelo menos na cultura ocidental, as aranhas serem consideradas perigosas, pequenas e aparentemente insignificantes”, explicam os autores do estudo. Além disso, argumentam que a ideia de que não há quaisquer benefícios económicos em investir na sua proteção “torna a conservação das aranhas ainda mais difícil”.
Mas o mundo das aranhas é muito mais do que sugere a má reputação que sobre elas impomos, e que a indústria cinematográfica, as narrativas populares e até a imprensa não melhoram. Está repleto de uma grande diversidade de formas e de modos de vida afinados ao longo de milhões de anos de evolução que criaram animais incrivelmente bem-adaptados aos habitats em que vivem, mas que, ainda assim, estão vulneráveis a uma miríade de ameaças de criação dos humanos, que muito pouco sabem ainda sobre elas.
Uma grande diversidade
Um dos grupos de artrópodes mais abundantes e diversos, atualmente estão descritas perto de 50.000 espécies de aranhas em todo o mundo. A primeira foi descrita em 1757 e especula-se que muitos mais milhares estão ainda por descobrir, e todas elas com um antepassado comum do qual terão divergido algures no período Devónico, há 400 milhões de anos. Para uma referência de comparação, e em linha com o consenso científico, os dinossauros terão surgido no Triássico, há cerca de 245 milhões de anos.
Não se sabe ao certo quantas aranhas individuais existem no mundo (imagine o leitor quão difícil seria fazer essa contagem!), mas algumas estimativas, ainda que não cientificamente confirmadas, apontam para algo como mil biliões de aranhas (um número com 15 zeros). No entanto, um artigo publicado em 2017, na revista ‘The Science of Nature’, avança alguns números que nos dão, pelo menos, uma ideia da quantidade de aranhas que andam pela Terra.

Os investigadores Martin Nyffeler e Klaus Birkhofer concluíram que a população mundial de aranhas pesará, no seu conjunto, uns 25 milhões de toneladas e que consumirá entre 400 milhões e 800 milhões de toneladas de presas todos os anos. Para os que, ao lerem estas linhas, começam a arrepiar-se, convém recordar que as aranhas se alimentam sobretudo de insetos, pelo que esse grande apetite se traduz em importantes serviços, como o controlo de populações de insetos que, sem as aranhas, podem ser altamente prejudiciais para os ecossistemas e para a agricultura.
Ao contrário do que muitos possam pensar, as aranhas não são insetos, porque, como me diz Pedro Cardoso, “têm patas a mais”, uma vez que os insetos têm seis. Além disso, também não têm asas, nem têm antenas como todas as espécies de insetos.
Embora, tal como os insetos, façam parte do filo dos artrópodes, as aranhas pertencem à classe Arachnida, onde estão também outros aracnídeos como os escorpiões, os opiliões, os pseudoescorpiões e as carraças. No entanto, ao contrário de todos esses, as aranhas integram a ordem Araneae.
Com duas divisões corporais – o cefalotórax e o abdómen – as aranhas têm, geralmente, oito olhos, mas, tal como todas as regras, há exceções. Ao longo das suas respetivas histórias evolutivas, alguns grupos e espécies foram perdendo pares de olhos ou desenvolvendo uns mais do que outros. Por exemplo, as aranhas-saltadoras, ou salticídeos (família Salticidae), conhecidas precisamente por capturarem as suas presas saltando sobre elas, têm oito olhos, mas um dos pares está altamente desenvolvido e virado para frente, para ajudar a calcular distâncias e a conseguir uma visão mais precisa, e os restantes seis em torno da cabeça para detetarem movimento em seu redor.
As aranhas-lobo, da família dos licosídeos, também têm quatro olhos mais desenvolvidos do que a restante metade, mas talvez as aranhas da família Deinopidae sejam um dos casos mais extremos no que toca a olhos grandes no mundo das aranhas: têm oito olhos, mas dois deles são enormes e apontados para a frente.
Nativas das florestas tropicais e subtropicais da Austrália, África, Ásia e Américas, aranhas Deinopidae têm um método de caça peculiar, no qual uma visão particularmente precisa é indispensável. Estendem uma teia entre as patas dianteiras e esperam que passe uma presa, suspensas de cabeça para baixo por um fio de seda preso, por exemplo, a um galho ou ramo de árvore. Quando um inseto, a sua principal presa, passa por perto, a aranha estende a teia como uma rede e lança-se sobre a próxima refeição, envolvendo-a com a sua seda emaranhada, numa espécie de abraço fatal.
Outras espécies ou grupos têm menos de oito olhos, fruto das pressões da evolução e de milhares de anos, ou mais, de adaptação aos habitats e nichos ecológicos específicos nos quais aprenderam a viver. Algumas espécies da família Caponiidae têm apenas dois olhos e a aranha-cavernícola-do-frade (Anapistula ataecina), endémica de Portugal continental e uma das mais pequenas do mundo com menos de meio milímetro, tem quatro olhos arranjados em conjuntos de dois. Essa aranha, criticamente em perigo de extinção, foi descrita por Pedro Cardoso em 2009, depois de a ter descoberto quatro anos antes no sistema cavernícola do Frade, perto de Sesimbra, não tendo sido encontrada em qualquer outro local até ao momento.
Apesar de algumas aranhas que vivem em grutas e cavernas terem olhos, como a aranha-cavernícola-do-algar-do-carvão (Turinyphia cavernicola), só encontrada na Ilha Terceira, nos Açores, outras não os têm. A aranha-nómada-das-estalactites (Harpactea stalitoides), em perigo de extinção, é uma delas. É endémica de Portugal continental, sendo que só existe em grutas no Maciço Calcário do Algarve, e não tem quaisquer olhos nem pigmentação.
Como se pode ver, aranhas há muitas e cada uma das espécies reflete as pressões evolutivas que as moldaram ao meio no qual evoluíram, das mais pequenas – como a aranha-cavernícola-do-frade – às maiores de todas – como a tarântula-golias (Theraphosa blondi), com perto de 13 centímetros de comprimento e 170 gramas de peso.
As teias não são tudo
As teias são, porventura, os elementos mais associados às aranhas. No entanto, ainda que todas elas possam produzir seda, na verdade, apenas cerca de metade das espécies de aranhas conhecidas fazem teias. Tudo depende da forma como caçam, porque, no final de contas, é para o que as teias servem. Há as orbiculares, aquelas que vemos, por exemplo, nas decorações de Halloween e que são as que mais facilmente reconhecemos, embora apenas três ou quatro famílias, entre mais de 100, as façam. Essas teias, construídas na vertical, são usadas para capturar sobretudo insetos voadores, que esbarram contra os fios de seda.
Há também teias tipo lençol, tecidas na horizontal, que servem para apanhar insetos que sobre elas caiam, muitas vezes depois de colidirem com fios que encimam esse “tapete” de seda.

Mas há ainda teias que não servem exatamente para envolver as presas, mas antes como mecanismos de sinalização. As aranhas buraqueiras, por exemplo, fazem, como o nome indica, buracos no solo e forram-nos com seda, ligando a teia do túnel ao exterior através de fios dispostos em raios que se estendem para lá da entrada. Assim, quando uma presa toca num dos fios, a aranha sai disparada do seu alçapão e arrasta-a para a sua toca, onde a devorará sem ser perturbada.
De entre as aranhas que fazem teia, algumas têm propensão para a economia circular. Ao passo que a maioria das aranhas de teias orbiculares constroem teias para durarem semanas e só façam novas quando as que estão a uso já estão demasiado degradadas para servirem o seu propósito, algumas aranhas-de-cruz, como a tecedeira-de-cruz-cosmopolita (Araneus diadematus) que encontramos em Portugal, regularmente desfazem a sua teia, consumindo-a e, assim, reciclando as proteínas da seda, que usarão para criar uma nova. Ao fazê–lo, estão também a consumir pequenos animais e até grãos de pólen que possam estar presos aos fios.
Mesmo as espécies que não criam teias produzem e usam seda. As aranhas-saltadoras, por exemplo, usam fios de seda como “corda salva-vidas”. Quando saltam de um lado para outro prendem um fio ao local de partida para, caso caiam, poderem regressar à base em segurança. Algumas espécies usam também fios de seda especial para serem transportadas pelo vento, como um balão de ar quente.
Há ainda as aranhas-lobos, as aranhas-caranguejeiras e as da família Zodariidae, como a aranha-formigueira-viúva (Zodarion viduum), endémica de Portugal continental, em perigo de extinção e que vive em ecossistemas dunares no centro e norte do país. Essas não constroem teias, mas capturam as suas presas perseguindo-as ou através de táticas de dissimulação para passarem despercebidas e atacarem de surpresa.
Além disso, muitas aranhas usam seda para fazerem sacos nos quais colocam os seus ovos, sendo que algumas transportam esses sacos de um lado para o outro, no que pode ser entendido como uma demonstração de dedicação parental na qual nos podemos rever. Assim se percebe que as teias não são a medida de todas as aranhas, embora a seda seja elemento comum, e que as nossas perceções sobre esses animais têm por base generalizações que, nem de longe, nem de perto, nos permitem vislumbrar a imensa diversidade que caracteriza o mundo desses seres.
Numa altura em que a perda de biodiversidade é reconhecida como uma crise planetária, sabemos o que temos de fazer para combatê-la. É preciso, agora, vontade, recursos e mais conhecimento para proteger as maravilhas de oito patas da Natureza.
*Reportagem publicada originalmente na revista de dezembro de 2025.









