MUBi acusa ACP de promover retrocesso na mobilidade e políticas anti-bicicleta

“Sob o pretexto da segurança rodoviária, o ACP propõe medidas que, na prática, transferem a responsabilidade do risco rodoviário dos condutores de veículos motorizados para os utilizadores de bicicleta, que são precisamente os que menos contribuem para o risco”.

Redação

A MUBi – Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta rejeita firmemente várias das propostas apresentadas pelo Automóvel Club de Portugal (ACP) para a reforma do Código da Estrada, considerando-as “desajustadas, desproporcionadas e perigosamente desalinhadas com os objetivos nacionais e europeus de mobilidade sustentável”, sublinha em comunicado.

Segundo a mesma fonte, “sob o pretexto da segurança rodoviária, o ACP propõe medidas que, na prática, transferem a responsabilidade do risco rodoviário dos condutores de veículos motorizados — que, ao contrário dos velocípedes e dos peões, podem circular a velocidades elevadas e possuem grande massa, tendo por isso um potencial destrutivo significativamente superior — para os utilizadores de bicicleta, que são precisamente os que menos contribuem para o risco”.

Algumas das medidas que propõe sugerem, por outro lado, que o ACP “reconhece que uma parte significativa dos condutores portugueses demonstra, com demasiada frequência, dificuldade em manobrar com segurança máquinas de mais de uma tonelada, muitas vezes a velocidades excessivas”.

Ao tentar distrair-nos com a defesa da imposição de matrícula, seguro e uso universal do capacete obrigatórios, o ACP “engendra também formas injustificadas de burocratizar e desincentivar um dos modos de transporte mais seguros, eficientes e benéficos para a sociedade”.

Sem paralelo na Europa

Estas propostas ignoram de forma “alarmante a evidência internacional, não encontrando paralelo nos países europeus com melhores índices de segurança rodoviária e de utilização da bicicleta. Pelo contrário, esses países têm reduzido o tráfego automóvel e as velocidades dentro das localidades, investido em infraestruturas seguras para todos os utilizadores e colocado a responsabilidade onde ela deve estar: nos veículos motorizados, que representam a esmagadora maioria dos riscos graves nas ruas e estradas”.

Desviar atenções das causas reais

A MUBi considera “particularmente preocupante que se procure criar falsas equivalências entre bicicletas e veículos motorizados, desviando a atenção das verdadeiras causas da insegurança rodoviária em Portugal: condutores em excesso de velocidade e outros comportamentos perigosos, fiscalização insuficiente e desenho inadequado das vias”.

Este conjunto de propostas revela uma” visão ultrapassada da mobilidade, centrada no automóvel, que contraria compromissos climáticos, de saúde pública e de qualidade de vida nas nossas cidades”.

A MUBi alerta que a adoção destas medidas teria como consequência direta:

  • a redução do uso da bicicleta,
  • o aumento da dependência do automóvel,
  • um retrocesso nos indicadores ambientais e de saúde pública.

O que deve ser feito

Portugal “não pode dar-se ao luxo de regredir na ainda incipiente adoção de meios de transporte social e ambientalmente responsáveis”. Em vez de diluir responsabilidades e criar barreiras à mobilidade ativa, a MUBi defende uma reforma do Código da Estrada que:

  • privilegie a redução do risco de todos os utilizadores do espaço público, e em especial dos mais vulneráveis,
  • estabeleça o limite padrão de 30 km/h em meio urbano, possibilitando a sinalização de exceções com limites superiores.
  • contribua para os objetivos estratégicos da política de mobilidade em Portugal, incentivando a transferência modal do automóvel para os modos mais benignos e sustentáveis,
  • e assegure o princípio da responsabilidade proporcional entre utilizadores da via, incluindo a clarificação do Princípio da Responsabilidade Objetiva (Lei de Badinter / Strict Liability)[2] na legislação portuguesa.

A MUBi exige ainda que “qualquer revisão do Código da Estrada seja baseada em evidência científica, boas práticas internacionais e no interesse público, e não em propostas avulsas que penalizam injustamente quem contribui para cidades mais saudáveis, seguras e sustentáveis”.

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