A comunicação na construção de resiliência climática

Falar da importância da comunicação na construção de resiliência climática num momento em que tantas pessoas enfrentam perdas, incerteza e dificuldades gera desconforto.

Redação

Por Ana Pedro, fundadora da Polka Dots

A dimensão humana e territorial dos incêndios florestais de 2017. A devastação provocada pela depressão Martinho em 2025. As consequências ainda em apuramento da tempestade Kristin, que afetou recentemente várias regiões portuguesas. Cada um destes episódios constitui aquilo a que os cientistas chamam de “eventos focais” da crise climática: ocorrências repentinas e dramáticas que concentram a atenção pública e têm o potencial de catalisar mudanças.

Mais do que acontecimentos isolados, estes momentos expõem fragilidades estruturais e confirmam a necessidade de estratégia, preparação e coordenação, exigindo ainda transparência, clareza e eficácia na forma como são comunicados. Se é verdade que a crise climática é um problema que requer alinhamento e cooperação entre nações, indústrias e indivíduos, é igualmente evidente que tem tudo a ganhar com competências sólidas de articulação de mensagens – e de porta-vozes preparados para tal.

Falar da importância da comunicação na construção de resiliência climática num momento em que tantas pessoas enfrentam perdas, incerteza e dificuldades gera desconforto. No entanto, não reconhecer a relação direta entre a forma como estas crises são comunicadas e a forma como são geridas é abrir caminho a mais sofrimento no futuro. A comunicação não é acessória à resposta climática, integra-a.

Uma parte significativa da comunicação sobre alterações climáticas acerta no diagnóstico, ao sublinhar riscos reais e cenários negativos. Falha, porém, na forma como procura mobilizar as pessoas. Muitos discursos continuam ancorados quase exclusivamente na razão, em dados, projeções e conceitos abstratos. O problema é que a razão, por si só, raramente motiva o comportamento humano.

Importa, por isso, refletir sobre a história a contar. É uma narrativa de inevitabilidade e desespero, dominada por conceitos distantes como emissões negativas, pontos de inflexão ou métricas incompreensíveis para o cidadão comum? Ou é uma história de possibilidade, escolha e ação humana, que deixa claro que existem caminhos diferentes, com potencial para influenciar positivamente o futuro?

É neste ponto que a comunicação se revela determinante. Circunstâncias específicas, contextos locais e públicos concretos oferecem pontos de partida essenciais para mensagens eficazes. Em vez de assumirem o papel de “narradores da desgraça”, os comunicadores são chamados a promover uma lógica de “esperança ativa”: uma esperança que não nega a gravidade da situação, mas que se constrói a partir de estratégias acionáveis, caminhos orientados, metas realistas e de um papel claro atribuído a cada pessoa na mitigação de novos episódios de calamidade.

A emergência climática é, reconhecidamente, um dos desafios mais prementes da sociedade contemporânea. Os seus efeitos fazem-se sentir nos ecossistemas, nas economias e no bem-estar humano. O aumento das temperaturas globais, a acidificação dos oceanos, a subida do nível do mar e a perda de biodiversidade são reais e somam-se à intensificação de fenómenos meteorológicos extremos para testar a capacidade coletiva de adaptação. Assim sendo, a resiliência climática não se constrói “apenas” com infraestruturas, planos de emergência ou políticas públicas. Constrói-se também – e de forma decisiva – com a maneira como comunicamos risco, responsabilidade e possibilidade. Num contexto de crise, comunicar bem não é suavizar a realidade; é torná-la clara, compreensível e mobilizadora.

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