A Europa não pode liderar a mobilidade do futuro com metas do passado
Por Miguel Pinto, Diretor-Geral da Polestar Portugal
No final de 2025, a Comissão Europeia resolveu recuar na meta inicialmente estabelecida para 2035 que previa o fim dos motores de combustão na União Europeia a partir dessa data. Esta suavização do objetivo inicial marca um retrocesso num dos pilares fundamentais da transição energética. Na prática, Bruxelas permitirá que modelos com motor de combustão continuem a ser produzidos após 2035, desde que acompanhados por mecanismos de compensação como e‑fuels, biocombustíveis ou aço de baixo carbono. Este recuo foi justificado como sendo necessário para proteger a competitividade industrial, garantindo uma transição ordenada, num cenário de pressão de vários estados membros e de boa parte do setor automóvel europeu.
Penso que este recuo compromete exatamente aquilo que a Europa afirma querer defender em matéria de ambição climática, segurança energética e liderança industrial. A Polestar posicionou-se de forma muito clara contra esta medida: recuar agora não prejudica apenas o clima mas também a competitividade europeia (de recordar que um veículo a combustão produzido em 2035 continuará a poluir até meados da década de 2050).
Ao rever as metas ambientais, a Comissão Europeia envia um sinal de incerteza no preciso momento em que o setor automóvel precisa de previsibilidade para poder orientar investimentos de longo prazo. Ao permitir que veículos híbridos plug‑in e motores de combustão continuem a vigorar para além de 2035, a Europa acaba por desincentivar a inovação, arriscando atrasar a modernização das suas cadeias de valor.
Outros dos argumentos usados para justificar o recuo é a procura desigual de veículos 100% elétricos nos vários mercados. Considero ser esta uma falsa questão. Nos locais onde a oferta é competitiva e a infraestrutura está à altura, a procura cresce. O verdadeiro problema não é a falta de interesse dos consumidores mas sim a falta de confiança no rumo político. Ao mudar as metas, mudam as decisões de investimento, tanto das marcas como dos consumidores.
A competitividade europeia não se reforça prolongando o passado. Mantém-se investindo no futuro. E o futuro é claramente elétrico. A Europa arrisca perder liderança tecnológica e industrial se não assumir com clareza este caminho. A flexibilização das regras pode parecer uma forma de aliviar pressão, mas, na prática, prolonga dependências e atrasa o inevitável.
Na Polestar, acreditamos que a eletrificação não é apenas uma escolha ambiental — é uma necessidade estratégica. As soluções existem, a tecnologia está pronta e a sociedade preparada para avançar. O que falta é consistência regulatória. Metas firmes e estáveis são essenciais para garantir confiança, atrair investimentos e assegurar que a Europa mantém capacidade de inovação num setor decisivo para a sua economia.
Recuar agora significa perder tempo precioso. E tempo é o recurso mais escasso no combate às alterações climáticas — e na corrida global pela liderança da mobilidade do futuro.
