Alerta para ameaça silenciosa de doença associada às alterações climáticas

Os autores defendem a necessidade urgente de reforçar a testagem da população à leptospirose — uma doença zoonótica —, de aumentar a vigilância em regiões muito para além do norte tropical do país e de investir em mais investigação científica.

Redação

O aumento da frequência de tempestades e cheias associado às alterações climáticas está a elevar o risco de uma infeção humana grave, para a qual as comunidades rurais australianas não estão devidamente preparadas. O alerta é lançado por um estudo liderado pela Universidade da Nova Inglaterra (UNE), publicado no Australian and New Zealand Journal of Public Health.

Os autores defendem a necessidade urgente de reforçar a testagem da população à leptospirose — uma doença zoonótica —, de aumentar a vigilância em regiões muito para além do norte tropical do país e de investir em mais investigação científica.

A leptospirose é uma infeção bacteriana de importância crescente para a saúde pública a nível mundial, fortemente associada a cheias e a temperaturas elevadas. Não existe atualmente uma vacina para humanos. Em vários países, os surtos têm-se tornado mais frequentes e graves, ao mesmo tempo que surgem novos subtipos da bactéria Leptospira.

Trabalhadores agrícolas e hortícolas, pessoas que lidam com carcaças de animais, veterinários e praticantes de atividades recreativas em água doce estão entre os grupos considerados de maior risco.

“Os casos e os surtos estão a aumentar em todo o mundo, incluindo na Austrália”, afirma a autora principal do estudo, a professora associada Jacqueline Epps, médica de clínica geral rural e docente da Escola de Medicina Rural da UNE. “A leptospirose era relativamente rara fora do norte de Queensland — uma das regiões desenvolvidas com maior número de casos —, mas estão agora a surgir surtos noutras zonas do país, associados ao aumento da precipitação, das tempestades, das cheias e das temperaturas.”

Segundo a investigadora, a bactéria presente nas fezes e na urina dos animais portadores sobrevive mais tempo em solos húmidos e quentes. “As cheias facilitam a dispersão dos agentes infeciosos a longas distâncias e a contaminação de fontes de água”, explica.

Embora os climas tropicais e subtropicais apresentem tradicionalmente as taxas mais elevadas da doença — com surtos documentados entre trabalhadores rurais do Território do Norte e em explorações de banana, cana-de-açúcar e frutos vermelhos em Queensland e no norte de Nova Gales do Sul —, a bactéria pode persistir durante meses em ambientes quentes e húmidos.

“Muitas pessoas subestimam o risco e o impacto desta infeção, e é muito provável que numerosos casos humanos tenham passado despercebidos”, afirma Epps. “Não existem estudos sobre a sua prevalência em humanos desde 2011.”

A leptospirose é uma doença de notificação obrigatória, mas os sintomas — semelhantes aos da gripe ou da COVID-19 — fazem com que muitos casos não sejam diagnosticados ou sejam incorretamente classificados. Um diagnóstico precoce é crucial para evitar a progressão da doença, que pode levar a falência de órgãos, meningite, necessidade de cuidados intensivos e, nos casos mais graves, à morte em cerca de 10% dos doentes.

A coautora do relatório, a investigadora Alison Colvin, da área de Ciência Animal da UNE, alerta que a leptospirose representa uma ameaça crescente para comunidades responsáveis por grande parte da produção agrícola australiana, num contexto em que a vigilância atual é insuficiente.

“É essencial reforçar a monitorização, melhorar a informação pública e aprofundar a investigação para compreender melhor os mecanismos de transmissão e desenvolver estratégias de prevenção direcionadas, que protejam tanto o gado como as pessoas que trabalham nos sectores agrícola e hortícola”, defende.

Um vasto conjunto de mamíferos pode transportar a doença, permanecendo portadores ao longo de toda a vida. Na indústria leiteira, a leptospirose tem causado graves prejuízos, incluindo abortos em massa nos efetivos, o que levou à vacinação sistemática do gado. Um relatório da Nova Zelândia estimou perdas anuais de cerca de oito milhões de dólares na produção pecuária, acrescidas de seis milhões de dólares em custos de vacinação preventiva.

Para Terry Slevin, diretor executivo da Associação Australiana de Saúde Pública, “as condições meteorológicas extremas estão a tornar-se cada vez mais evidentes, e isso exige respostas adequadas às mudanças nos riscos para a saúde”. O aumento dos casos de leptospirose, afirma, é um exemplo claro dessa realidade.

A leptospirose é uma doença bacteriana de notificação obrigatória, fortemente associada a episódios de cheias e a temperaturas elevadas. Os surtos estão a aumentar em frequência e gravidade em todo o mundo, ao mesmo tempo que surgem novos subtipos da bactéria Leptospira. O agente infeccioso encontra-se na urina e nas fezes de roedores, bovinos, ovinos, equinos, alguns animais domésticos e mamíferos nativos. Os humanos contraem a infeção por contacto direto com animais infetados ou de forma indireta, através de feridas na pele, da inalação de partículas contaminadas ou do contacto com água, solo húmido e vegetação contaminados.

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