Combinação do calor extremo e da seca vai afetar mais de 90% da população mundial



Depois de um verão em que se registaram, praticamente em todos os pontos do planeta, temperaturas bem acima das normas, secas extremas que mataram milhares de animais e agravaram o risco de fome nos países mais pobres e cheias e deslizamentos de terras devido a chuvas torrenciais, não deverão restar dúvidas de que as alterações climáticas, impulsionadas pela ação humana, estão a mudar a Terra.

No entanto, a combinação do calor extremo com a seca poderá representar riscos muito maiores para as sociedades humanas e para os ecossistemas do que quando essas ameaças são consideradas em separado.

Uma investigação que reuniu cientistas dos Estados Unidos, do Reino Unido, da China e do Japão, estima que mais de 90% da população mundial, bem como o PIB global, estará vulnerável aos riscos combinados do aquecimento extremo e da escassez de água. Num cenário de grandes emissões de gases com efeito de estufa, prevê-se um aumento de até 10 vezes da frequência dos eventos extremos que juntem esses dois fenómenos.

No entanto, mesmo num cenário em que as emissões sejam inferiores ao que são atualmente, os riscos combinados não desaparecem.

Esses impactos devastadores serão sentidos com maior força em regiões mais pobres e rurais, em que a exposição aos elementos e o acesso a água canalizada é significativamente menor do que em áreas mais desenvolvidas.

Além dos impactos sobre os ecossistemas, sobre as populações humanas e sobre as economias em todo o mundo, os cientistas dizem ainda que a terrível combinação entre calor e seca extremos diminuirá a capacidade dos sistemas naturais para captarem e armazenarem carbono que absorvem da atmosfera, podendo transformar ‘sumidouros de carbono’ em ‘emissores de carbono’.

Jiabo Yin, da Universidade de Wuhan e principal autor do artigo publicado na ‘Nature Sustainability’, afirma que a combinação dessas duas ameaças “pode ter graves impactos socioeconómicos e ecológicos que agravarão as desigualdades sociais”,

aprofundando ainda mais o hiato que separa dos países mais ricos, e que têm maior capacidade para se protegerem destes eventos, e os países mais pobres, mais vulneráveis a eventos climáticos extremos e com menores recursos para se adaptarem às mudanças que estão a assolar o planeta.

Contudo, foi para colmatar essas desigualdades, e para tentar repor alguma justiça climática, que os líderes mundiais, reunidos na cimeira global do clima (COP27) em novembro passado, acordaram a criação de um fundo financeiro para compensar os países e comunidades mais vulneráveis por perdas e danos sofridos devido a eventos climáticos extremos.

Apesar de ter sido aplaudido como uma acordo histórico que marcava uma nova era nas relações entre os chamados Norte e Sul globais, alguns observadores acautelavam que o fundo não é a solução final, mas que deve ser compensado com o corte drástico das emissões de gases com efeito de estufa.

Esse aviso foi deixado pelo o próprio Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que argumentou que “a COP27 deu um importante passo em direção à justiça”, mas que o fundo “não será suficiente” para combater as alterações climáticas e os seus efeitos sobre as comunidades que estão mais expostas.

Outra crítica apontada ao desfecho da COP27 foi a falta de um compromisso claro para o abandono progressivo dos combustíveis fósseis, com Manuel Pulgar-Vidal, responsável de políticas climáticas e energéticas da WWF, a afirmar que “ao falharem em chegar a um acordo sobre o abandono progressivo dos combustíveis fósseis”, os líderes mundiais escolheram manter o planeta “na rota da catástrofe climática”, explicando que “sem cortes rápidos e profundos nas emissões, não podemos limitar a escala das perdas e dos danos”.





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