Sem polinizadores as sociedades humanas entrarão em colapso

Dois investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra participam hoje num evento paralelo à cimeira mundial da biodiversidade, a COP15, levando uma mensagem muito clara: sem polinizadores as sociedades humanas entrarão em colapso, pelo que “temos de passar das palavras às ações”.

Filipe Pimentel Rações

Dois investigadores do Centro de Ecologia Funcional, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, Sílvia Castro e João Loureiro, vão este sábado participar num evento paralelo à cimeira mundial da biodiversidade, a COP15, que decorre até dia 19 em Montreal, no Canadá.

Com eles, levam uma mensagem muito clara: sem polinizadores as sociedades humanas entrarão em colapso, pelo que “temos de passar das palavras às ações”. Estima-se que, atualmente, 75% de todas as plantas que usamos na nossa alimentação estejam dependentes da ação dos polinizadores, que, dizem os investigadores, “não são só abelhas”.

Animais como morcegos, aves e tantos outros insetos são parte fundamental do processo de reprodução das plantas, atuando como ‘mensageiros’ que, inadvertidamente, transportam as células sexuais de uma planta para a outra, bem como são agentes cruciais de dispersão de sementes.

Investigadores Sílvia Castro e João Loureiro, do Centro de Ecologia Funcional, da Universidade de Coimbra, em trabalho de campo.
Fonte: Universidade de Coimbra

Membros da comissão de coordenação da Polinet, uma rede colaborativa que tem como missão principal promover a conservação dos polinizadores, a sustentabilidade dos serviços de ecossistemas e a sua resiliência, que envolve academia, os setores público e privado e a sociedade civil, Sílvia Castro e João Loureiro, em conversa com a ‘Green Savers, contaram que temos de encontrar um “equilíbrio” entre o ser humano e as atividades que desenvolve e o mundo natural.

Sem essa harmonia, nenhum dos lados de equação ecológica será capaz de subsistir. Por isso mesmo, é necessário criar “um mundo em que os polinizadores e os serviços de ecossistemas que eles fornecem sejam promovidos em todas as paisagens”, sejam elas agrícolas, florestas ou áreas urbanas.

As borboletas são também importantes polinizadores.
Fonte: Universidade de Coimbra

João Loureiro diz que o resultado ideal da COP15 seria um acordo para a Natureza da mesma dimensão e significado que o entendimento que foi alcançado para o clima em 2015, durante a COP21, em Paris. Apesar da esperança, mantém algum ceticismo com base em cimeiras anteriores.

“Vemos que há sempre muitas boas intenções, mas depois há pouca ação”, lamenta o especialista. “Os compromissos a que se chega nem sempre são os mais desejáveis, e damos passos muito pequenos para a urgência que a dimensão da crise exige”, assinala.

Os dois investigadores, com formação de base em botânica, querem trazer para a arena do debate político e público a importância da proteção das espécies de polinizadores. Afirmam que os fundos para a conservação de espécies tendem a ser canalizados para espécies que sejam mais facilmente acolhidas pelo público, como mamíferos e aves, acabando os pequenos polinizadores por serem eclipsados e arrumados num segundo plano.

Por isso, apresentam hoje na COP15 os conhecimentos e boas-práticas adquiridos no âmbito da coligação internacional ‘Promote Pollinators’, criada em dezembro de 2016, na sequência da COP13 da biodiversidade, e da qual fazem parte dezenas de países de todo o mundo, incluindo Portugal, que se juntou em 2020.

Por cá, a participação portuguesa pretende construir as bases para um verdadeiro plano de ação que promova a proteção dos polinizadores, estabelecendo-os como elementos incontornáveis das estratégias para a conservação da biodiversidade e para o combate às alterações climáticas.

“A participação na COP15 permitirá apresentar os resultados do processo participativo que envolveu a partilha construtiva de conhecimentos e a identificação de uma meta comum para os polinizadores em Portugal até 2030, e das ações, atores e resultados que nos poderão conduzir a atingir essa meta”, explica Sílvia Castro.

“Só um trabalho envolvendo todas as partes interessadas permitirá encontrar soluções viáveis, adaptadas ao nosso território, em prol dos polinizadores”, afiança a investigadora, que participará no evento ‘Pollinator protection: strengthening policies, knowledge exchange and engagement”, que decorrerá hoje pelas 23h15, mas pode ser acompanhado online.

“A proteção dos polinizadores é da maior importância para os ecossistemas e para a vida em geral”, destaca Helena Freitas, coordenadora do Centro de Ecologia Funcional e ponto de contacto em Portugal da ‘Promote Pollinators’.

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