Entrevista a CEO da Savearth, a startup portuguesa que quer reduzir consumo de água nos hotéis e recompensar hóspedes

João Machado, CEO da startup Savearth, quer transformar duches longos em oportunidades de poupança e fidelização. Com tecnologia que escuta a água e recompensa comportamentos sustentáveis, a empresa está a conquistar hotéis em Portugal — e prepara a internacionalização.

Ana Filipa Rego

Foi a leitura de um estudo alarmante sobre o futuro da água potável que despertou João Machado para um problema global. Anos mais tarde, essa inquietação daria origem à Savearth, uma startup portuguesa que alia inteligência artificial e sensores acústicos para medir, em tempo real, o consumo de água no duche. O objetivo? Reduzir desperdício, cortar custos e recompensar hóspedes por comportamentos mais conscientes — sem comprometer o conforto ou a experiência.

Em entrevista à Green Savers, João Machado, fundador da Savearth, sublinha a importância de envolver os hóspedes na mudança de hábitos: “Acreditamos que o comportamento sustentável se incentiva, não se impõe.” A tecnologia desenvolvida pela startup já demonstrou resultados concretos — os projetos-piloto realizados em hotéis de Lisboa e do Porto permitiram poupanças médias de 46% em água e energia. Com estes resultados, a empresa prepara agora a internacionalização para mercados como Espanha, Itália e Dubai, com a ambição de se tornar uma referência mundial em sustentabilidade na hotelaria.

O que esteve na origem da Savearth, preocupação ambiental ou oportunidade de mercado?

Uma combinação das duas, sem dúvida, mas em momentos diferentes. Tudo começou com uma preocupação ambiental muito pessoal, depois de ler um estudo que mostrava que até 2050 cerca de cinco mil milhões de pessoas terão dificuldade em aceder a água potável. Isso foi um “wake-up call”. Mais tarde, ao investigar o setor hoteleiro, percebi que além do impacto ambiental, o consumo excessivo de água nos banhos representa uma perda superior a 7 mil milhões de dólares por ano para a indústria. A partir daí, ficou claro que sustentabilidade e rentabilidade não são opostos, podem, e devem, andar juntos.

Como é que a Savearth se posiciona neste novo contexto de exigência ambiental?

A Savearth nasce precisamente para transformar a sustentabilidade numa vantagem competitiva. Sustentabilidade não deve ser apenas uma obrigação, mas uma oportunidade para gerar eficiência e novas fontes de receita. Por isso criámos a primeira plataforma de “behavioral intelligence” para a hotelaria, que combina IA e IoT para reduzir consumos, recompensar hóspedes e gerar dados operacionais com valor real. Posicionamo-nos como o “Apple of Sustainability” da hotelaria, simples, escalável e desejável, tanto para o hotel como para o hóspede.

Como funciona a tecnologia e o que a distingue das outras soluções?

De uma forma muito simples, os nossos dispositivos convertem as frequências sonoras geradas pela água num espectrograma, ou seja, numa representação gráfica dessas vibrações. A partir daí, o nosso modelo de inteligência artificial analisa esses gráficos e identifica, com máxima precisão, o caudal do chuveiro, ou seja, a quantidade de água consumida em tempo real. Não há muitas soluções semelhantes no mercado. A única que existe é basicamente um cronómetro para colocar no duche, o que, na prática, não faz muito sentido, porque um banho de 5 minutos pode não ser “eco”, enquanto um de 10 pode perfeitamente ser. Tudo depende da quantidade de água consumida por minuto, e não apenas do tempo passado no banho.

De onde vem o conceito “save to earn”?

Queríamos transformar um ato de poupança num ato de valor. O “save to earn” nasceu da vontade de envolver o hóspede nesta missão, tornando-o parte ativa da solução, e não apenas um “culpado” a educar. Acreditamos que o comportamento sustentável se incentiva, não se impõe. Por isso, sempre que um hóspede toma um “eco-shower”, é recompensado com pontos ou benefícios, criando uma experiência positiva, divertida e memorável. É sustentabilidade com propósito, mas também com experiência.

Que feedback receberam dos pilotos em Lisboa e no Porto?

Os resultados foram impressionantes: poupanças médias de 46%, tanto em água como em energia. Os hotéis reportaram reduções imediatas e, mais importante, uma nova narrativa para comunicar aos hóspedes. Do lado dos hóspedes, o feedback foi extremamente positivo, muitos disseram que se sentiram “parte da solução” e apreciaram o facto de a tecnologia os recompensar sem interferir com o conforto. Isso é o maior elogio que poderíamos receber.

Qual é o impacto económico para um hotel médio e como comunicam isso aos investidores?

Para um hotel de 300 quartos, as poupanças anuais podem ultrapassar 100 mil euros em custos diretos e, ao mesmo tempo, gerar um aumento da actividade do hóspede e de receitas, através do aumento de fidelização e gasto médio por hóspede. Comunicamos isto aos investidores de forma muito clara: somos uma ClimateTech rentável, que reduz custos e aumenta receitas, algo raro no setor da sustentabilidade.

Como garantem que a experiência do hóspede não é afetada?

Essa foi a nossa prioridade desde o primeiro dia. O dispositivo é discreto, não altera a pressão da água e não requer interação do hóspede. Tudo acontece de forma automática, transparente e positiva. Para além disso, o design e a interface do dispositivo foram pensados ao detalhe, com base em princípios de user experience e psicologia comportamental. A informação é transmitida de forma visual, simples e discreta — um pequeno indicador de cor mostra, em tempo real, se o hóspede está dentro da faixa “eco” ou acima do ideal, sem alarmes nem interrupções. Por último, o formato compacto e o design minimalista fazem com que o dispositivo se integre perfeitamente em qualquer casa de banho, sem comprometer o conforto, a estética ou a privacidade. Em vez de alertar ou constranger, o que o hóspede sente é uma motivação positiva para fazer parte da mudança, e esse detalhe muda tudo.

Como planeiam gerir a procura internacional?

No curto prazo queremos manter a operação próxima dos nossos primeiros clientes, para sermos rápidos a resolver desafios e a evoluir o produto. O próximo passo natural é Espanha, especialmente regiões como a Catalunha, que enfrentam secas severas. Depois disso, Itália e Dubai são os mercados mais promissores, onde já temos contactos e pedidos de parceria.

A nossa ambição é clara: tornar a Savearth a referência mundial em sustentabilidade hoteleira.

O que procuram nos próximos investidores?

Capital é importante, mas não suficiente. Procuramos smart capital, investidores que partilhem a nossa visão, que tragam experiência, contactos e influência nos setores de hospitalidade, energia ou tecnologia. Mais do que apenas financiar, queremos parceiros que acelerem o impacto.

Há planos para expandir para outros consumos?

É importante referir que já ajudamos a poupar energia, porque menos água quente significa menos eletricidade ou gás consumido. O futuro passa por levar esta tecnologia para novos contextos, como alojamentos locais, ginásios, residências e até casas particulares. O problema é o mesmo: desperdício inconsciente. E a nossa missão é transformá-lo em consciência, e em poupança.

Qual tem sido o maior desafio nesta jornada?

Definitivamente, o tecnológico. Desenvolver hardware é sempre complexo, especialmente quando se combina com um modelo de IA inovador, que exige milhares de amostras de som reais para ser treinado com precisão. Mas é precisamente isso que torna o desafio excitante. Cada obstáculo ultrapassado é uma barreira de entrada a menos para quem vier depois. No curto prazo queremos manter a operação próxima dos nossos primeiros clientes, para sermos rápidos a resolver desafios e a evoluir o produto. O próximo passo natural é Espanha, especialmente regiões como a Catalunha, que enfrentam secas severas. Depois disso, Itália e Dubai são os mercados mais promissores, onde já temos contactos e pedidos de parceria. A nossa ambição é clara: tornar a Savearth a referência mundial em sustentabilidade hoteleira.

Estamos realmente a caminhar para uma hotelaria sustentável, ou ainda há muito de “greenwashing”?

Há progresso, mas ainda há muito “greenwashing”. A diferença entre intenção e ação está nos dados, e é aí que a Savearth entra. As boas intenções são importantes, mas só o que é medido pode ser melhorado. Acreditamos que a nova era da sustentabilidade será liderada por quem conseguir medir, reduzir e comunicar impacto real. E é exatamente isso que estamos a construir.

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