A exposição a nanoplásticos pode comprometer as capacidades cognitivas dos peixes e afetar de forma significativa a sua sobrevivência, conclui um novo estudo internacional que contou com a participação de investigadores australianos.
A investigação, desenvolvida pela Universidade de Shantou e pela Academia Chinesa das Ciências das Pescas, na província de Guangdong, em parceria com o Instituto de Investigação para a Agricultura do Norte (RINA) da Universidade Charles Darwin (CDU), analisou o impacto dos nanoplásticos na cognição e na adaptabilidade do Oryzias melastigma.
De acordo com dados ambientais, o plástico representa entre 80% e 85% do lixo marinho. Os plásticos mais comuns degradam-se em fragmentos cada vez menores quando expostos à radiação ultravioleta e a temperaturas baixas, originando partículas microscópicas, entre as quais os nanoplásticos.
No estudo, os investigadores compararam o comportamento de exemplares de Oryzias melastigma. expostos a nanoplásticos esféricos de poliestireno com o de peixes não expostos, recorrendo a testes em labirinto para avaliar a capacidade de aprendizagem e tomada de decisão.
Os resultados demonstraram que, embora o tempo total necessário para completar o labirinto não tenha sofrido alterações significativas, os peixes expostos cometeram substancialmente mais erros e revelaram tendência para decisões mais rápidas — indício de maior impulsividade.
Segundo o coautor do estudo, o professor Sunil Kadri, do RINA e especialista em Aquacultura Tropical, esta mudança comportamental pode aumentar a probabilidade de escolhas desajustadas, tanto na procura de alimento como na fuga a predadores.
“As prioridades de qualquer animal são a reprodução, o abrigo e a alimentação. Se o comportamento de um peixe se altera, pode ter dificuldade em capturar alimento e, sobretudo, em evitar predadores”, afirma. “Pode igualmente enfrentar obstáculos na procura de parceiro e na reprodução. As consequências potenciais para estes três pilares da sobrevivência são enormes.”
Embora a exposição em ambiente controlado e os testes em labirinto não reproduzam integralmente as condições reais dos ecossistemas marinhos, o investigador sublinha que os resultados evidenciam a necessidade urgente de reforçar medidas contra a poluição plástica.
“Os decisores políticos devem prestar atenção a estes dados. É essencial rever não só as políticas relativas ao uso de plásticos, mas também as estratégias de conservação ecológica e de gestão das pescas”, alerta, acrescentando que a degradação dos ecossistemas marinhos pode ter impactos profundos, dado o grau de dependência humana destes sistemas.
O estudo abre ainda novas perspetivas de investigação sobre os efeitos tóxicos dos plásticos em peixes marinhos — uma ameaça que, segundo o coautor Zonghang Zhang, da Faculdade de Ciências da Universidade de Shantou, permanece insuficientemente compreendida.
“O tamanho não reduz o risco — pode até ampliá-lo. Precisamente devido à sua dimensão microscópica, os nanoplásticos são mais facilmente assimilados pelos organismos e conseguem penetrar em órgãos e sistemas celulares de forma que partículas maiores não conseguem”, explica.
O investigador acrescenta que, mesmo na ausência de danos físicos evidentes ou mortalidade imediata, estas partículas podem alterar comportamentos essenciais e tornar os peixes mais vulneráveis no seu habitat natural.
Os nanoplásticos estão já amplamente disseminados nos oceanos, em sistemas de água doce e até nos solos, podendo acumular-se ao longo da cadeia alimentar. “Dada a sua presença generalizada e o seu potencial de acumulação, não podemos ignorá-los apenas por serem ‘invisíveis’”, concluiu.
A participação da Universidade Charles Darwin neste trabalho resulta de uma colaboração científica com a Universidade de Shantou, no âmbito de um projeto de cooperação académica entre a Austrália e a China destinado a promover uma produção primária tropical sustentável e rastreável.









