O abandono de animais “continua a ser uma ferida aberta no nosso país”
O abandono de animais de companhia ainda é uma dura realidade. Rodrigo Livreiro, um dos fundadores da associação Animalife, afirma à Green Savers que este abandono se verifica “de forma cada vez mais preocupante”. Os dados mais recentes do ICNF, referentes a 2023, confirmam que foi o ano com o maior número de animais recolhidos de sempre pelos Centros de Recolha Oficiais (CRO): mais de 46 mil animais, entre cães e gatos. Este número representa um aumento pelo quinto ano consecutivo, “o que nos deve alarmar a todos enquanto sociedade”, alerta.
2023 foi o ano com o maior número de animais recolhidos de sempre pelos Centros de Recolha Oficiais (CRO): mais de 46 mil animais, entre cães e gatos. Este número representa um aumento pelo quinto ano consecutivo”, ICNF
E o pior, acrescenta Rodrigo, é que este número “nem sequer traduz a totalidade do problema”. Para além dos animais recolhidos pelos CRO, há ainda milhares que são acolhidos por associações zoófilas, muitos dos quais fora de qualquer registo oficial, e há tantos outros que nunca chegam a ser salvos — permanecem nas ruas, abandonados à sua sorte. Este aumento contínuo do número de recolhas “mostra que, apesar das campanhas de sensibilização e dos avanços legislativos, o abandono continua a ser uma ferida aberta no nosso país, profundamente ligada a questões sociais e económicas, à falta de respostas estruturadas e à ausência de uma estratégia nacional integrada de apoio às famílias com animais de companhia”, denuncia.
“Este aumento contínuo do número de recolhas mostra que, apesar das campanhas de sensibilização e dos avanços legislativos, o abandono continua a ser uma ferida aberta no nosso país, profundamente ligada a questões sociais e económicas, à falta de respostas estruturadas e à ausência de uma estratégia nacional integrada de apoio às famílias com animais de companhia”, Rodrigo Livreiro, um dos fundadores da associação Animalife
Em Portugal, são abandonados todos os anos milhares de animais de companhia, com picos sazonais no verão e após épocas festivas. Embora a maioria dos casos não seja visível no dia a dia de quem não está envolvido na causa, os números não enganam. “E o que mais nos preocupa é que por cada animal que chega a um centro de recolha ou associação, há muitos outros que ficam esquecidos nas ruas ou que não chegam sequer a ser resgatados”, lamenta o responsável.
Abandono “raramente acontece por maldade ou desinteresse”
Mas afinal que é que motiva muitos dos casos de tentativa de abandono, ou mesmo de abandono? Segundo o fundador da Animalife, o abandono “raramente acontece por maldade ou desinteresse”. Na verdade, a grande maioria dos casos está ligada a situações de vulnerabilidade social e económica. “Falamos de famílias que enfrentam desemprego, despejos, ruturas familiares, problemas de saúde ou envelhecimento — e que, nestes momentos de fragilidade, veem-se forçadas a escolher entre garantir o básico para si ou para os seus animais”, explica.
O abandono raramente acontece por maldade ou desinteresse. Na verdade, a grande maioria dos casos está ligada a situações de vulnerabilidade social e económica”, Rodrigo Livreiro, um dos fundadores da associação Animalife
Foi por isso que criaram o Programa de Apoio Social-Animal (PASA), que atua exatamente onde o abandono começa: no momento em que a pessoa sente que já não consegue cuidar do seu animal. Através deste programa, e em parceria com os municípios, conseguem apoiar famílias com alimentos, cuidados veterinários, esterilizações e acompanhamento social-animal. “É um trabalho preventivo, humano e profundamente transformador — porque salva não só os animais, mas também as relações de afeto e companhia que eles representam”, descreve. Neste momento, o PASA já está implementado em vários municípios, “mas é urgente alargar o número de protocolos, porque ainda há demasiadas zonas do país sem qualquer tipo de resposta nesta área”, avisa.

Para Rodrigo, os municípios “têm aqui um papel fundamental. Precisamos que reconheçam os animais como parte integrante das famílias e que invistam em programas sociais que os incluam”, sublinha, acrescentando que “só assim será possível combater o abandono de forma estrutural e eficaz”. Muitas vezes, continua, “as famílias querem continuar a cuidar dos seus animais, mas simplesmente não têm condições para o fazer”. A falta de apoios sociais que incluam os animais e o custo crescente dos cuidados veterinários “são fatores decisivos neste contexto”, afirma. Por isso, acredita que para combater o abandono “é essencial apoiar as famílias que cuidam dos animais”.
Ritmo das necessidades supera o ritmo das respostas
Segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a evolução social e legislativa em matéria de bem-estar dos animais de companhia exige hoje um enquadramento específico e reforçado. Questionado sobre se sentem que este está a ser cumprido, Rodrigo Livreiro revela que têm visto “mudanças significativas ao longo dos últimos anos, o que é positivo e mostra que há uma vontade crescente de fazer mais e melhor”. No entanto, alerta, “sentimos que o ritmo das necessidades supera o ritmo das respostas”.
O responsável considera que “há uma fragmentação de responsabilidades entre entidades e uma grande disparidade de atuação entre municípios, o que cria zonas do país onde quase não existem respostas eficazes para situações de abandono, colónias de gatos, ou apoio a famílias com animais”. As associações e os protetores “continuam a ser a principal linha de frente — muitas vezes sem recursos ou enquadramento legal suficiente para o trabalho que fazem. Há um esforço, mas é preciso reforçar e articular melhor as políticas públicas nesta área”, avisa.
Há uma fragmentação de responsabilidades entre entidades e uma grande disparidade de atuação entre municípios, o que cria zonas do país onde quase não existem respostas eficazes para situações de abandono, colónias de gatos, ou apoio a famílias com animais, Rodrigo Livreiro
Atualmente, os animais têm estatuto jurídico que lhes confere proteção legal alargada. Mas será suficientemente alargada? Rodrigo não tem dúvidas: “o reconhecimento do animal como ser senciente foi um marco civilizacional importante e tem vindo a influenciar decisões judiciais e legislativas”. No entanto, alerta, “a proteção legal ainda tem lacunas, sobretudo na sua aplicação prática”.
A lei existe, mas falta “fiscalização eficaz, respostas rápidas a denúncias e, muitas vezes, sensibilidade no tratamento dos casos”, denuncia. Além disso, acrescenta, “continuam a faltar recursos — humanos e financeiros — para que as entidades competentes possam agir de forma célere e preventiva. A lei é o ponto de partida. O que falta, muitas vezes, é a sua operacionalização no terreno”.
Com ou sem recursos, associações como a Animalife, têm vindo a deixar a sua marca. Fundada em 2011, a sua missão principal é combater o abandono de animais de estimação e promover o bem-estar animal. Como é que o fazem? “Atuando a montante do problema — ou seja, prevenindo que ele aconteça. Fazemo-lo através de um modelo de intervenção pioneiro em Portugal, que chamamos de abordagem ‘social-animal’”, responde o fundador. Isto significa que não olham apenas para o animal isoladamente, mas para o contexto familiar, social e económico em que ele está inserido. “Sabemos que na maioria das situações, o abandono de um animal é um último recurso. Na maioria das vezes, as pessoas abandonam porque perderam o emprego, foram despejadas, estão doentes ou envelheceram sozinhas. E é precisamente nestas situações que a Animalife entra — não só com apoio alimentar e veterinário, mas também com acompanhamento social e emocional, através do Programa de Apoio Social-Animal (PASA) e do projeto Vet na Rua, que presta apoio social e cuidados veterinários gratuitos a pessoas e famílias em situação de especial vulnerabilidade”, explica.
Sabemos que na maioria das situações, o abandono de um animal é um último recurso. Na maioria das vezes, as pessoas abandonam porque perderam o emprego, foram despejadas, estão doentes ou envelheceram sozinhas. E é precisamente nestas situações que a Animalife entra, Rodrigo Livreiro
BSA alivia fome que se vive nos abrigos
Além disso, têm uma “forte ação de apoio” a associações e protetores, através do Banco Solidário Animal (BSA) e do Banco Vet, que são campanhas de recolha de bens essenciais, como alimentação e medicamentos, para melhorar a qualidade de vida dos animais a cargo destas entidades. E atuam também na sensibilização da sociedade, através da Animalife Academy, promovendo a adoção responsável, o respeito pelos animais e o envolvimento cívico nas soluções.
“Tudo isto só é possível porque trabalhamos com uma rede de voluntários, parceiros e municípios, que acreditam connosco que só cuidando das pessoas conseguimos cuidar dos seus animais. Esta é a visão da Animalife: combater o abandono, sim — mas sobretudo, evitá-lo antes que aconteça, olhando para os animais como parte integrante da comunidade”, esclarece.
Um dos projetos mais conhecidos desta associação é o “Banco Solidário Animal”, que recolhe alimentos e produtos essenciais para animais, distribuindo-os por famílias carenciadas e instituições que acolhem animais abandonados. O fundador garante que “é muito mais do que uma campanha de recolha de alimentos. É, hoje, a maior e mais significativa iniciativa de apoio a animais de companhia em Portugal, com uma capacidade única de mobilizar a sociedade para um problema muitas vezes invisível: a fome que se vive diariamente nos abrigos de norte a sul do país, incluindo nas ilhas. Duas vezes por ano, o país para — literalmente — para olhar para esta realidade”.
Banco Solidário Animal é muito mais do que uma campanha de recolha de alimentos. É, hoje, a maior e mais significativa iniciativa de apoio a animais de companhia em Portugal, com uma capacidade única de mobilizar a sociedade para um problema muitas vezes invisível, Rodrigo Livreiro
Milhares de voluntários, centenas de lojas e dezenas de marcas juntam-se à Animalife “para fazer algo extraordinário: alimentar mais de 75 mil animais, a cargo de mais de 680 entidades de apoio animal. Estamos a falar de associações zoófilas e grupos de proteção informal … estruturas que todos os dias enfrentam dificuldades enormes para garantir o básico — ração, areia e produtos de higiene. O BSA existe para aliviar esse peso, com consistência e compromisso, há mais de uma década”, reforça.
Mas o verdadeiro impacto do BSA está na forma como envolve a comunidade. São famílias, estudantes, reformados, jovens, profissionais de todas as áreas que, de forma voluntária, dão o seu tempo para estar numa loja, num turno, com um sorriso e uma missão: tocar o coração de quem passa e lembrar que todos podemos ajudar. Esse gesto de colocar um saco de ração no carrinho “é um ato de empatia, é um voto de confiança no trabalho das associações, é um contributo direto para o bem-estar de um animal”, sublinha. E é por isso que dizem que o BSA faz parar a sociedade — “porque os obriga, nem que seja por um instante, a refletir sobre o papel que temos na vida dos mais frágeis”, adianta.
“É uma ação de solidariedade em massa, um fenómeno que transforma voluntários em agentes de mudança e donativos em refeições que salvam vidas. Ano após ano, mantemos viva esta corrente de entreajuda. Não deixamos cair os abrigos no esquecimento, nem permitimos que os animais que lá vivem sejam esquecidos. E enquanto existir fome nos abrigos, existirá Banco Solidário Animal”, remata.
A educação é o maior antídoto contra o abandono
Rodrigo considera que a educação e sensibilização para a proteção animal “é absolutamente fundamental”, que “a mudança começa sempre pela consciencialização”. E explica: “Quando educamos crianças e adultos para o respeito pelos animais, estamos a criar uma sociedade mais empática, justa e responsável. Muitas das situações de maus-tratos e abandono acontecem por desconhecimento ou por falta de empatia. Através da Animalife Academy e de várias ações nas escolas, eventos públicos e campanhas digitais, procuramos desmistificar preconceitos, ensinar boas práticas e promover a adoção responsável. A educação é o maior antídoto contra o abandono”.
Quando educamos crianças e adultos para o respeito pelos animais, estamos a criar uma sociedade mais empática, justa e responsável. Muitas das situações de maus-tratos e abandono acontecem por desconhecimento ou por falta de empatia, Rodrigo Livreiro
De facto, a responsabilidade social das associações de animais foca-se na sua proteção e bem-estar combatendo os maus-tratos e o abandono através de ações como o resgate, acolhimento, esterilização e adoção responsável. Mas estas organizações também promovem a inclusão social, o apoio a famílias vulneráveis, o controlo populacional de animais e a educação da comunidade sobre a posse responsável de animais.
A Associação Portuguesa para a Intervenção com Animais de Ajuda Social (ÂNIMAS), por exemplo, é uma IPSS, com Estatuto de Utilidade Pública, que se dedica à promoção de Serviços Assistidos por Animais (SAA) e à cedência, gratuita, de Cães de Assistência.
Nas diversas iniciativas, destacam-se programas educativos que visam fomentar o respeito e a empatia pelos animais. Os programas realizados em escolas, universidades, empresas e hospitais, onde cães com formação criam um ambiente especial para aprendizagens e desenvolvimento de competências cognitivas e socio emocionais. Também desenvolvem workshops para sensibilizar crianças, jovens e adultos sobre o bem-estar animal, ensinando-lhes a importância de tratar os animais com dignidade.
O papel transformador dos animais na vida humana
Além disso, as atividades da ÂNIMAS abrangem uma vasta rede de instituições, como lares de idosos, hospitais, centros de apoio à aprendizagem, casas de abrigo entre muitas outras entidades. Estas interações “têm demonstrado benefícios significativos na redução de níveis de stress e na promoção da empatia entre os participantes”, conta Abílio Leite, presidente da associação, à Green Savers, sublinhando que a ÂNIMAS “contribui diariamente para construir uma sociedade mais consciente sobre o papel transformador dos animais na vida humana”.

Outro bom exemplo é a ABAADV – Escola de cães-guia para cegos, uma IPSS que, como o nome indica, tem uma estrutura que permite o alojamento de cães desde o seu nascimento (reprodução própria), até os 24 meses (altura em que é formada a dupla cego/cão-guia) e mesmo na sua reforma (depois de ter cumprido o seu papel de cão-guia quando o seu utilizador não pode ficar com ele).
A nossa missão é ‘valorizando a intervenção do cão, existimos para melhorar a qualidade de vida das pessoas’ e, se na origem da Escola esta missão se destinava só a pessoas cegas, desde 2019 foi alargada a idosos institucionalizados ou isolados em domicílio da área do nosso concelho e desde o início deste ano a crianças com necessidades específicas do agrupamento de Mortágua”, Filipa Paiva, diretora técnica da ABAADV
“A nossa missão é ‘Valorizando a intervenção do cão, existimos para melhorar a qualidade de vida das pessoas’ e, se na origem da Escola esta missão se destinava só a pessoas cegas, desde 2019 foi alargada a idosos institucionalizados ou isolados em domicílio da área do nosso concelho e desde o início deste ano a crianças com necessidades específicas do agrupamento de Mortágua”, explica Filipa Paiva, diretora técnica desta associação à Green Savers.
Promoção de saúde pública através da melhoria da saúde animal
Destacam-se também os Veterinários Sem Fronteiras Portugal (VSF), que têm como missão a promoção de saúde pública através da melhoria da saúde animal, em locais que carecem de cuidados veterinários. A falta de cuidados de saúde animal “torna uma população vulnerável a vários níveis”, explicam as veterinárias Carolina Pinto e Filipa Barreto.
Em primeiro lugar, dizem, “compromete a saúde pública, uma vez que doenças transmissíveis entre animais e humanos, como a sarna, doenças transmitidas por carraças, brucelose, entre outras, podem propagar-se com facilidade na ausência de prevenção e tratamento adequados”.
Não havendo cuidados veterinários disponíveis, a população de cães e gatos de rua “facilmente aumenta descontroladamente, o que coloca a população em risco de mordeduras e acidentes de viação”, veterinárias Carolina Pinto e Filipa Barreto
Além disso, acrescentam, “tem impacto direto na segurança alimentar, já que animais doentes produzem menos leite, carne ou ovos, afetando a nutrição e o sustento de muitas famílias”. Não havendo cuidados veterinários disponíveis, a população de cães e gatos de rua “facilmente aumenta descontroladamente, o que coloca a população em risco de mordeduras e acidentes de viação”, exemplificam.
Outro efeito possível é o aumento do número de ataques a animais de produção e a animais selvagens, como tartarugas marinhas. Existe ainda aumento da poluição sonora e da poluição ambiental, com o aumento da dispersão de lixo pelas ruas. Assim, “quando trabalhamos para melhorar a saúde dos animais, estamos a contribuir para a melhoria de um leque de situações com impacto na saúde humana e na saúde do ambiente”, garantem.
Quando trabalhamos para melhorar a saúde dos animais, estamos a contribuir para a melhoria de um leque de situações com impacto na saúde humana e na saúde do ambiente, veterinárias Carolina Pinto e Filipa Barreto
A nível de impacto social, os VSF tentam trabalhar ao máximo com as comunidades de forma a produzir uma mudança de comportamento com impacto a longo prazo, “pois acreditamos que essa é a única forma de produzir resultados sustentáveis”, rematam.
Proteção dos animais de companhia: uma responsabilidade social e ambiental?
As associações não têm dúvidas: a proteção dos animais de companhia é também uma preocupação ambiental. A própria lei refere que os detentores têm de assegurar o bem-estar animal e, se as pessoas conhecerem as necessidades dos seus animais e as respeitarem, tudo é mais fácil. Responsabilidade e Consciência pelo próximo “vai criar uma relação harmoniosa entre a pessoa e o seu animal de companhia, beneficiando ambos, de uma relação emocional positiva, e tal tem um impacto no meio ambiente. Desde o simples apanhar dos dejetos, com sacos biodegradáveis, até ao não abandono”, afirma Abílio Leite.
Responsabilidade e Consciência pelo próximo “vai criar uma relação harmoniosa entre a pessoa e o seu animal de companhia, beneficiando ambos, de uma relação emocional positiva, e tal tem um impacto no meio ambiente. Desde o simples apanhar dos dejetos, com sacos biodegradáveis, até ao não abandono”, Abílio Leite
Já Carolina Pinto e Filipa Barreto explicam que, em alguns locais do globo, os animais de companhia “podem representar um risco não só para populações humanas, mas também para outros animais, alguns deles espécies endémicas, que podem ser predados ou vítimas de transmissão de doença pelos animais de companhia”.

Assim, acrescentam, “entende-se que a gestão de populações de animais errantes é uma prioridade ambiental. O aumento de populações cães e gatos errantes obriga-os a procurar fontes de alimento nas zonas urbanas e periferias, entrando muitas vezes em áreas de floresta. Essas buscas de alimento e refúgio podem fomentar ainda o aparecimento de matilhas. O avistamento de cães errantes em zonas de reserva natural constitui um alerta para que todas as medidas de controle dessas populações sejam iniciadas”.
A gestão de populações de animais errantes é uma prioridade ambiental. O aumento de populações cães e gatos errantes obriga-os a procurar fontes de alimento nas zonas urbanas e periferias, entrando muitas vezes em áreas de floresta. Essas buscas de alimento e refúgio podem fomentar ainda o aparecimento de matilhas. O avistamento de cães errantes em zonas de reserva natural constitui um alerta para que todas as medidas de controle dessas populações sejam iniciadas, Carolina Pinto e Filipa Barreto, VSF
E uma responsabilidade social? “Claramente, desde a educação, legislação, iniciativas individuais e coletivas, ao promovermos o bem-estar animal estamos a fortalecer os nossos valores éticos enquanto sociedade”, responde Abílio. Já as veterinárias esclarecem que os VSF procuram integrar soluções de longo prazo para a defesa da saúde animal e da saúde pública, “pois naturalmente enfrentamos obstáculos sociais, inerentes a diferenças culturais”. Através de atividades de educação e sensibilização “pretendemos até às populações mais vulneráveis e gerar mudança de mentalidades, para que o futuro destas comunidades possa ser mais sustentável e assente no conceito de One Health”, contam.
“No âmbito da responsabilidade social, a nossa missão traduz o nosso empenho numa sociedade melhor e mais inclusiva, com provas dadas ao longo de 25 anos”, diz Filipa Paiva contando que, no âmbito da responsabilidade ambiental, a associação “contribui de uma forma generalista para a conservação do meio ambiente através do apelo a todos os colaboradores na redução do consumo de água, energia, matérias-primas e na gestão de resíduos e reciclagem”.
No âmbito da responsabilidade social, a nossa missão traduz o nosso empenho numa sociedade melhor e mais inclusiva, com provas dadas ao longo de 25 anos, Filipa Paiva
Para uma instituição como a ABAADV “não está a ser “fácil” (pela atipicidade do seu trabalho), ter acesso a programas e projetos que lhe permitam ver realizados os seus objetivos para redução do seu impacto negativo no ambiente, quer no aproveitamento de águas pluviais, reutilização de águas residuais, produção de energia elétrica com o recurso a painéis solares e redução de consumo de energias fosseis com recurso a veículos elétricos”, lamenta. No entanto, acrescenta, “estamos neste momento à procura de soluções para implementar estas medidas”.
Histórias diárias que emocionam e motivam a continuar
Apesar das pedras no caminho, são muitas as histórias de sucesso. Até hoje já foram entregues 294 cães-guia, estando neste momento 116 Duplas cego/cão-guia em trabalho. Em relação às duplas formadas ao longo de todos estes anos, “podemos considerar que são todas histórias de sucesso pois em todas se verificou uma grande mudança na vida do seu utilizador”, revela Filipa Paiva.

Abílio Leite, diz que o impacto do seu trabalho se conta em histórias, diárias, que “nos emocionam e nos motivam a continuar”. Têm, por exemplo, um projeto com jovens do ensino secundário que enfrentam altos níveis de desmotivação e dificuldades de relacionamento interpessoal. Apesar de as sessões serem voluntárias e realizadas à sexta-feira à tarde, quando não há aulas, a taxa de assiduidade é de 98%. O mais gratificante? “Ver como o comportamento e o aproveitamento escolar destes jovens melhoram significativamente com o apoio dos nossos cães”, sublinha.
Nos hospitais, continua, “os momentos mágicos acontecem todos os dias. Já testemunhámos casos em que pacientes, que não reagiam a qualquer estímulo, abrem um sorriso ao sentir o cão deitar-se ao seu lado. É como se uma faísca de vida voltasse a acender-se quando os dedos começam a entrelaçar-se no pelo do nosso cão”.
Os momentos mágicos acontecem todos os dias. Já testemunhámos casos em que pacientes, que não reagiam a qualquer estímulo, abrem um sorriso ao sentir o cão deitar-se ao seu lado. É como se uma faísca de vida voltasse a acender-se quando os dedos começam a entrelaçar-se no pelo do nosso cão, Abílio Leite
Nos cuidados paliativos, o impacto “é igualmente transformador”, conta. Assim que o cão entra na sala, os rostos iluminam-se com sorrisos, as conversas ganham vida e ouvem-se risadas. Muitos pacientes expressam o desejo de voltar a ver o cão na próxima sessão – “é um momento de conforto e alegria na fase terminal da vida”, descreve.
E quem pode esquecer as crianças com perturbações do espectro do autismo? “É com frequência que vemos crianças em plenas crises acalmarem-se ao sentir a aproximação do cão. É um instante em que a serenidade toma conta da situação e a criança consegue retomar as suas atividades”, revela.
Mas talvez o mais especial “seja algo tão simples e poderoso como os sorrisos espontâneos. Os sorrisos genuínos que surgem sem aviso, sem esforço, apenas porque o nosso cão entrou na sala. É isso que nos move – saber que, através do trabalho que fazemos com os nossos cães, conseguimos trazer esperança, conforto e felicidade a quem mais precisa”, salienta.
“Acompanhar o nosso trabalho é fazer parte destas histórias incríveis. Juntos, podemos continuar a transformar vidas – humanas e animais – com gestos de amor e empatia”, remata.
“Tornámos alguns animais errantes em vedetas sociais”
Carolina Pinto e Filipa Barreto confidenciam-nos que ao longo dos anos têm “experienciado e visto transformações pessoais e sociais nos locais de ação”. Nos últimos anos os esforços têm estado direcionados para o controle e cuidado de populações de animais errantes, pelo que os melhores exemplos vêm dai.
Muitas vezes, as populações de animais errantes são vistas com repudio social e só a desmistificação desse estigma pode colocar os animais de companhia numa posição merecedora de cuidados básicos, nomeadamente as 5 liberdades base do bem-estar animal, Carolina Pinto e Filipa Barreto
“Podemos dizer que tornámos alguns animais errantes em vedetas sociais, como é o caso do Tripé e do Calulu, na ilha do Príncipe. Ambos cães de São Tomé e Príncipe que ao colaborarem nas missões VSF são o exemplo vivo de como podem ser os melhores amigos do Homem. O Tripé por ser um exemplo de gratidão após a sua amputação em 2020, e o Calulu por ser um exemplo de que é possível comunicar e estabelecer uma ligação forte e saudável com estes animais, mesmo quando tiveram um início de vida em circunstâncias difíceis”, contam.
E concluem: “muitas vezes, as populações de animais errantes são vistas com repudio social e só a desmistificação desse estigma pode colocar os animais de companhia numa posição merecedora de cuidados básicos, nomeadamente as 5 liberdades base do bem-estar animal”.
*Reportagem publicada originalmente na edição de setembro de 2025
