Um estudo internacional divulgado hoje indica que a desestabilização de diversos elementos do sistema terrestre está mais próxima do que se pensava, colocando o planeta num maior risco de caminhar para um cenário de “Terra estufa”.
Esta trajetória é impulsionada por ciclos de ‘feedback’ que podem amplificar as consequências do aquecimento global, segundo o estudo “O risco de uma trajetória para uma ‘Terra estufa’”, publicado hoje na revista científica One Earth.
A análise de uma equipa de cientistas liderada por William Ripple, professor emérito de ecologia na Universidade Estadual do Oregon (OSU), nos Estados Unidos, resume descobertas científicas sobre ciclos de ‘feedback’ climático e 16 elementos de inflexão, refere um comunicado da universidade.
No primeiro caso, trata-se de processos naturais que amplificam ou reduzem o aquecimento global causado por gases com efeito de estufa (GEE), sendo considerados elementos de inflexão os “subsistemas da Terra que podem sofrer perda de estabilidade se forem ultrapassados limites críticos de temperatura”.
São disso exemplo as calotas polares da Antártida e da Gronelândia, a floresta amazónica e a Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), um sistema de correntes oceânicas que transporta águas quentes do sul para o norte, o que ajuda a regular o clima na Europa.
Os especialistas acreditam que as mudanças bruscas podem levar a uma “cascata de interações entre subsistemas” que conduzirá o planeta a uma via de aquecimento extremo e subida do nível do mar, “condições que poderão ser difíceis de reverter em escalas de tempo humanas, mesmo com cortes profundos nas emissões” de GEE.
“Após um milhão de anos a oscilar entre eras glaciares e períodos mais quentes, o clima da Terra estabilizou há mais de 11.000 anos, tornando possível a agricultura e sociedades complexas”, indica Ripple, citado no comunicado.
“Estamos agora a afastar-nos dessa estabilidade e podemos estar a entrar num período de alterações climáticas sem precedentes”.
O Relatório sobre o Estado do Clima publicado em outubro de 2025 na revista científica BioScience, um estudo anual realizado por uma equipa internacional de investigadores e coliderado por William Ripple, revela que a crise climática está “a acelerar a um ritmo alarmante”, apresentando “provas contundentes” de que o planeta “se está a aproximar do caos climático”.
No estudo divulgado hoje, os investigadores observam que, quase 10 anos após a assinatura do Acordo de Paris – que procurava limitar o aquecimento médio a longo prazo a 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais -, “o aumento da temperatura global ultrapassou os 1,5ºC durante 12 meses consecutivos”, um período também de fenómenos climáticos extremos entre incêndios florestais, inundações e outros desastres naturais relacionados com o clima.
“É provável que as temperaturas globais estejam tão quentes ou mais quentes do que em qualquer momento dos últimos 125.000 anos e que as alterações climáticas estejam a avançar mais rapidamente do que muitos cientistas previram”, diz o coautor do estudo, Christopher Wolf, investigador da organização Terrestrial Ecosystems Research Associates (TERA).
Os cientistas consideram igualmente provável que os níveis de dióxido de carbono sejam os mais elevados em pelo menos dois milhões de anos. A concentração atmosférica de CO2, de mais de 420 partes por milhão (ppm), é cerca de 50% superior à que era antes da Revolução Industrial.
Segundo um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), em 2024, os níveis de CO2 na atmosfera registaram um aumento recorde e atingiram novos máximos, tendo o nível médio anual sido de 423,9 ppm.
Quando o clima muda, observam os investigadores, podem ser desencadeadas respostas que amplificam ou atenuam a mudança original, processos conhecidos como “ciclos de retroalimentação climática”.
“Por exemplo, o degelo e a neve, o derretimento do ‘permafrost’ [solo permanentemente gelado no Ártico e outras áreas frias], a morte das florestas e a perda de carbono do solo podem amplificar o aquecimento e, assim, afetar a sensibilidade do sistema climático aos gases com efeito de estufa”, explica Ripple.
William Ripple, Christopher Wolf e os seus colaboradores – Jillian Gregg, da TERA, e destacados cientistas climáticos da Alemanha, Dinamarca e Áustria – afirmam que os dados atuais, juntamente com as incertezas inerentes à previsão climática, devem ser interpretados como um sinal de que são urgentemente necessárias estratégias de mitigação e adaptação climática, segundo o comunicado.
“As abordagens de mitigação climática existentes, incluindo o alargamento da energia renovável e a proteção dos ecossistemas que armazenam carbono, são essenciais para limitar o aumento das temperaturas globais”, assinala Ripple.
Prioritárias devem ser também, segundo os autores, as estratégias para aumentar a resiliência climática e “uma eliminação socialmente justa dos combustíveis fósseis”, discutindo-se ainda “a necessidade de novas abordagens, incluindo a monitorização global coordenada dos pontos de inflexão e melhores planos para a gestão do risco”.
“Os decisores políticos e o público continuam em grande parte alheios aos riscos do que seria efetivamente uma transição sem possibilidade de retorno. E embora evitar a trajetória de aquecimento global não seja fácil, é muito mais viável do que tentar recuar depois de já estarmos nela”, salienta Wolf.









