Quando a água testa as cidades

As cheias que afetaram várias regiões de Portugal no início deste ano mostram que não basta gerir a escassez: é preciso preparar as cidades para lidar com o excesso, garantindo segurança, resiliência e qualidade de vida.

Redação

Por Nuno Garcia, diretor-geral da GesConsult

Ao celebrarmos o Dia Mundial da Água, importa lembrar que este recurso é, ao mesmo tempo, precioso e um desafio crescente para as cidades portuguesas. As cheias que afetaram várias regiões de Portugal no início deste ano mostram que não basta gerir a escassez: é preciso preparar as cidades para lidar com o excesso, garantindo segurança, resiliência e qualidade de vida. Importa reconhecer que não podemos impedir a ocorrência de cheias, mas podemos e devemos adotar estratégias que permitam minimizar os seus impactos e proteger pessoas, bens e infraestruturas.

O impacto destes episódios é evidente: ruas submersas, garagens inundadas, comércio em pausa, interrupções na mobilidade e prejuízos para famílias, empresas e serviços. Estes eventos deixaram de ser pontuais e são agora vistos como sinais de alerta para repensarmos o planeamento e a construção das nossas cidades.

Durante décadas, o desenvolvimento urbano privilegiou soluções que favoreceram a impermeabilização do solo. Estradas, parques de estacionamento e edifícios reduziram a capacidade do terreno de absorver a água da chuva, acumulando-a rapidamente nas superfícies urbanas e pressionando redes de drenagem muitas vezes insuficientes.

Perante esta realidade, torna-se necessário preparar as cidades para fenómenos extremos. Isso exige uma abordagem integrada, que combine infraestruturas, planeamento urbanístico e tipologias construtivas adaptadas.

Entre as medidas mais eficazes estão soluções que devolvem à cidade parte da sua capacidade natural de absorção de água: pavimentos drenantes, zonas verdes, parques enquanto bacias de retenção e áreas de infiltração que reduzem a acumulação superficial, aliviam a pressão sobre as redes e valorizam o espaço público.

Em áreas vulneráveis, soluções específicas fazem a diferença. Por exemplo, barreiras amovíveis em entradas de edifícios, garagens ou acessos a infraestruturas críticas permitem reagir rapidamente a subidas súbitas do nível da água. Além disso, tipologias construtivas adaptadas, como pisos térreos elevados ou parcialmente livres, permitem que a água circule sem comprometer os espaços habitacionais.

De forma complementar, a manutenção e o dimensionamento adequados das redes de drenagem continuam a ser essenciais. Sarjetas, coletores e bueiros limpos e bem dimensionados garantem que a água escoe de forma eficiente. Sempre que há alterações significativas no uso do solo, é fundamental rever a infraestrutura hidráulica para acompanhar a realidade urbanística.

Conhecer o comportamento da água subterrânea é igualmente crucial, pois a prevenção não se limita à superfície. Estudos hidrogeológicos detalhados ajudam-nos a analisar percursos preferenciais do lençol freático e zonas de maior vulnerabilidade, orientando decisões sobre onde e como construir de forma segura.

Quando integradas numa estratégia de planeamento e engenharia, estas medidas tornam as cidades mais resilientes, salvaguardam pessoas, reduzem custos futuros e fortalecem a confiança das comunidades.

A realidade climática exige que o setor da engenharia, construção e planeamento urbano incorpore a prevenção e a adaptação como princípios estruturantes. Investir nestas soluções é uma decisão estratégica, com benefícios económicas e sociais claros.

Preparar as cidades para a água – seja quando escasseia, seja quando chega em excesso – é uma das grandes responsabilidades do setor nas próximas décadas. Construir cidades resilientes significa aprender a conviver com a água e a usá-la como recurso que protege, sustenta e transforma as nossas comunidades.

 

 

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