Entre os montes e vales do Ribatejo, as oliveiras centenárias renascem. O projeto “Apadrinha Uma Oliveira”, lançado em 2023, quer recuperar olivais abandonados, preservar o património natural e agrícola da região e criar oportunidades de emprego para quem mais precisa. A iniciativa nasceu em Abrantes, em parceria com a organização espanhola Apadrinaunolivo.org, que já tem mais de uma década de experiência em recuperação de olivais, combinando tradição com inovação sustentável.
“Vale mais entregar os olivais ao Apadrinha uma Oliveira e vermos as nossas coisas zeladas do que termos tudo abandonado. É uma homenagem aos nossos pais”, explica Maria Manuela Maia Alves, proprietária de um dos terrenos envolvidos, à Green Savers.
Contexto e desafios
O projeto surge num momento crítico para a região, marcada por múltiplos desafios: o abandono agrícola, o despovoamento rural, a falta de renovação geracional na agricultura e o encerramento da Central do Pego em 2022, que deixou mais de 100 pessoas desempregadas.
A iniciativa recebeu apoio inicial da Endesa, através do Fundo de Transição Justa, permitindo iniciar a recuperação dos olivais e empregar antigos trabalhadores da central elétrica, oferecendo uma alternativa concreta à crise laboral e social gerada pelo encerramento da unidade.

Património natural e emprego local
Abrantes é uma terra de tradição olivícola. Atualmente, existem mais de 2.000 hectares de olival abandonado, equivalente a cerca de 2.800 campos de futebol, representando um risco elevado de incêndios e perda de biodiversidade. O projeto atua sobretudo em propriedades privadas que estavam sem uso, resultado do envelhecimento dos proprietários ou do abandono rural.
“A intervenção segue princípios de agricultura biológica, sem químicos, preservando a biodiversidade e os ecossistemas locais”, explica Jéssica Oliveira, porta-voz do projeto, em entrevista à Green Savers.
A equipa permanente é composta por seis trabalhadores a tempo inteiro, quatro deles ex-trabalhadores da Central do Pego. Durante épocas de maior atividade, como a poda ou a colheita, são contratados trabalhadores temporários locais, garantindo emprego justo e inclusão social, além de fortalecer a economia regional.
Impacto ambiental
O projeto tem também repercussões ambientais significativas. Cada oliveira retém carbono acumulado ao longo dos séculos, ajudando a equilibrar o clima. Uma árvore com 50 centímetros de diâmetro pode captar até 80 quilos de CO₂ em 20 anos, e quando recuperada, essa capacidade pode duplicar, segundo dados do iTree Tools.
A recuperação destas árvores centenárias contribui ainda para prevenir incêndios, preservar habitats de fauna e flora locais e manter a fertilidade natural do solo, promovendo uma agricultura sustentável que combina técnica e tradição.
Modelo de apadrinhamento aproxima comunidade
O conceito de “apadrinhamento” aproxima a comunidade ao olival e cria uma ligação emocional com a árvore. Atualmente, quase 5.000 oliveiras foram recuperadas, distribuídas por mais de 60 hectares de terreno cedido por proprietários locais. O projeto conta com apoio de mais de 180 padrinhos particulares e oito empresas madrinhas, incluindo Sociedade Ponto Verde, Artevasi, LUSH, OKE e a alemã Refine Projects AG.

“Eu adoro a experiência por vários motivos. Primeiro, porque sei que estou a contribuir com uma causa que impacta positivamente uma comunidade e ainda é um projeto que ajuda a prevenir incêndios e proteger o meio ambiente. Isso faz-me sentir parte de algo maior”, relata Fernanda Wolter, madrinha de uma oliveira.
Muitos padrinhos dão nomes às suas árvores e partilham os produtos resultantes do seu cuidado.
“Escolhi dar à árvore o nome da minha avó e presenteei minha mãe com o certificado e os azeites. Ela adorou a iniciativa e fez questão de contar a toda a família, cheia de orgulho”, conta Fernanda Wolter.
Este modelo não só fortalece o vínculo entre pessoas e território, mas também promove educação ambiental e responsabilidade social, ao permitir que cada padrinho acompanhe o crescimento e os cuidados da sua oliveira.
Recuperação dos olivais: técnica e tradição
O trabalho de recuperação é meticuloso e combina técnicas tradicionais com inovação sustentável. No olival AO-37, por exemplo, a equipa iniciou uma poda de rejuvenescimento, removendo ramos velhos e, em algumas árvores, reduzindo-as ao tronco principal para formar uma nova copa. Seguiu-se a limpeza do terreno, eliminando vegetação invasora e reduzindo o risco de incêndios. Depois, as árvores são monitorizadas, com controlo responsável de pragas e manutenção contínua
“O olival encontrava-se em muito mau estado de conservação, resultado de anos sem manutenção. Sem intervenção, muitas destas árvores acabariam por morrer lentamente, levando à perda de um olival tradicional com décadas — e em alguns casos, séculos — de existência”, refere Jéssica Oliveira.
Segundo a responsável, o proprietário apenas contratava uma equipa de tratoristas uma vez por ano para limpar o mato, apenas para cumprir a obrigação legal de prevenção de incêndios. As oliveiras não eram tratadas nem podadas, o que levou ao crescimento excessivo de rebentos na base do tronco (ladrões), transformando-as em autênticos arbustos densos e fechados. Esta situação impedia a entrada de luz e circulação de ar, comprometendo o desenvolvimento natural da árvore e a sua capacidade de frutificação.
Hoje, diz Jéssica Oliveira, as oliveiras do olival AO-37 “mostram sinais claros de recuperação” com copas “equilibradas, troncos saudáveis e nova rebentação”.

Produção de azeite
O azeite produzido é Azeite Virgem Extra de alta qualidade, obtido a frio e sem aditivos químicos. Apresenta um perfil frutado verde de intensidade média, com notas de maçã, folha de oliveira e tomate, ligeiramente amargo e picante, refletindo a pureza do olival tradicional.
A colheita é manual, o transporte feito em caixas cuidadas e a moagem realizada em menos de 24 horas, garantindo frescura, sabor e qualidade máxima.
Envolvimento da comunidade
O projeto envolve ativamente a população local, especialmente na freguesia das Mouriscas, onde se concentra grande parte dos terrenos cedidos. “Tentamos envolver sempre a população através de visitas regulares aos olivais e momentos de partilha com padrinhos e empresas”, explica a responsável. A iniciativa dá a conhecer a cultura e a história olivícola da região, o trabalho realizado no terreno e as histórias dos proprietários locais que confiaram os seus olivais ao projeto.
Além disso, há uma parceria com a ACROM (Associação Cultural das Rotas de Mouriscas) para desenvolver uma Rota das Oliveiras Centenárias, que pretende mostrar a riqueza natural e patrimonial da região e aproximar ainda mais a comunidade à preservação do património olival.
“Queremos que cada padrinho veja a sua oliveira a crescer e sinta que faz parte desta transformação”, explica a responsável
No Dia Mundial da Oliveira, a 26 de novembro, os padrinhos recebem fotografias atualizadas das árvores e são convidados a partilhar nas redes sociais a evolução do projeto, reforçando o vínculo entre comunidade e natureza.

Desafios e perspetivas
Apesar do sucesso inicial, os responsáveis reconhecem desafios:
“O principal desafio é garantir a continuidade e sustentabilidade do projeto a longo prazo. É essencial dar a conhecer a nossa missão a mais pessoas e empresas em todo o país”, refere Jéssica Oliveira.
Pedidos de expansão surgem de outras regiões portuguesas, mas o foco mantém-se em Abrantes, incluindo Sardoal, Mouriscas, Alvega e São Facundo. Proprietários de olivais que não têm condições para cuidar dos terrenos podem confiar na associação, cedendo-os por contrato de dez anos e recebendo 10% da produção de azeite, mantendo a titularidade do terreno sem custos, Jéssica Oliveira
Para empresas, o apadrinhamento traduz-se num triplo impacto: social, económico e ambiental, com azeite solidário e experiências de voluntariado corporativo. Com o estatuto de utilidade pública a caminho, os apoios terão benefícios fiscais diretos, incentivando a participação empresarial na preservação do património olival.
Como podem cidadãos ou empresas envolver-se e contribuir para a continuidade do projeto?
1 – Proprietários de olivais: muitos dos hectares de olival ao cuidado da organização são terrenos de vários proprietários que, apesar de terem o terreno, não têm condições para cuidar dele. Seja pelo fator idade, como pela distância ao terreno, estes proprietários podem confiar na organização para cuidar dos seus terrenos. Assim, após realizar um contrato de cedência a dez anos entre as partes, a equipa da organização garante a limpeza do terreno e o cuidado das oliveiras de modo a que tudo esteja conforme a lei. É ainda de referir que os proprietários, após dois ou seis anos (dependendo do estado do olival), recebem 10% da produção de azeite obtido na sua propriedade; o proprietário não perde a titularidade do terreno e não tem qualquer custo com o mesmo.
2 – Apadrinhar uma oliveira: O apadrinhamento da oliveira garante que vário olival tradicional é recuperado. O apadrinhamento deve ser feito online, através do site apadrinhaumaoliveira.org. Os interessados devem selecionar a oliveira que querem apadrinhar e fazer um donativo anual de 35€ ou 60€. A primeira modalidade garante a oferta de um litro de azeite no ano seguinte ao apadrinhamento e a segunda modalidade garante a oferta de dois litros de azeite no ano seguinte ao apadrinhamento. Os padrinhos podem visitar a sua afilhada sempre que quiserem, batizá-la e acompanhar a sua evolução e recuperação. Recebem ainda o Diploma de Apadrinhamento.
3 – Empresas: As empresas madrinhas podem apadrinhar um conjunto de oliveiras, ou um olival em nome da organização, envolvendo colaboradores e clientes na parceria. O apoio empresarial traduz-se num triplo impacto:
- Social – apoio na criação de postos de trabalho.
- Económico – dinamização do território apoio no desenvolvimento da economia local. produção de azeite solidário
- Ambiental – preservação da biodiversidade e dos ecossistemas onde estão inseridos os olivais e prevenção de incêndios.
- Por cada oliveira apadrinhada, a empresa receberá azeite solidário produzido a partir das oliveiras recuperadas pela associação em forma de garrafas personalizadas pela mesma (250ml ou 500ml).
- As empresas podem ainda organizar com a associação, uma experiência de voluntariado corporativo que envolve as equipas nas tarefas agrícolas.
- A empresa tem ainda presença como parceira no website, entrevistas no blog, menções nas redes sociais e placas identificativas no olival.
- O donativo é isento de IVA e dedutível como despesa.
- Em breve, com o estatuto de utilidade pública, os apoios terão também benefícios fiscais diretos.









