Pela primeira vez, uma equipa conjunta do Museu Nacional de Ciência Natural e da Universidade Nacional de Taiwan conseguiu reconstruir o ecossistema perdido de Taiwan durante o Pleistoceno — um ambiente quente e árido, dominado por savanas e rios. A descoberta, publicada na revista Royal Society Open Science, oferece uma nova perspetiva sobre a paisagem e a vida animal na região há dezenas de milhares de anos.
Os cientistas analisaram o esmalte dos dentes de antigos elefantes de presas direitas (Palaeoloxodon) e concluíram que estes animais alimentavam-se quase exclusivamente de plantas C4 — um tipo de vegetação herbácea adaptada a climas tropicais e savânicos. “A análise isotópica do carbono mostra que estes elefantes tinham uma dieta muito diferente da dos Palaeoloxodon da Europa e do Japão, que preferiam plantas C3 associadas a florestas e zonas temperadas”, explicou o investigador Chun-Hsiang Chang, do Museu Nacional de Ciência Natural.
Segundo o especialista, os resultados aproximam os elefantes de Taiwan dos seus congéneres da Índia e de África, espécies adaptadas a habitats de savana tropical ou subtropical. “Isto confirma que o Estreito de Taiwan, quando ainda fazia parte do continente, era uma vasta planície seca e quente, coberta por ervas e rios — muito diferente das florestas húmidas que hoje caracterizam a ilha”, acrescentou Chang.
A investigação permitiu também obter dados paleohidrológicos inéditos. A análise dos isótopos de oxigénio realizada pela equipa de Cheng-Hsiu Tsai, professor da Universidade Nacional de Taiwan, revelou que os antigos elefantes utilizavam água doce proveniente de grandes rios. “Os resultados demonstram a existência de um sistema fluvial de grande escala a atravessar o Estreito de Taiwan durante o Pleistoceno, fornecendo provas concretas da presença desse antigo curso de água”, sublinhou Tsai.
Além de reconstituir o ecossistema desaparecido, o estudo revela diferenças marcadas na dieta das várias espécies de Palaeoloxodon ao longo do continente euroasiático, associadas à latitude e às condições climáticas.
A investigação, que contou também com a participação do doutorando Deep S. Biswas, permitiu ainda identificar registos isotópicos sequenciais que documentam o comportamento de desmame dos jovens elefantes, o qual se prolongava até aos cinco ou seis anos de idade.
Para os autores, este trabalho representa “um marco fundamental” na compreensão da paleoecologia do Leste Asiático, da diversidade evolutiva e da diferenciação regional das espécies. “É a primeira vez que temos uma visão clara do antigo ecossistema de savana e vales fluviais que existiu onde hoje se encontra Taiwan”, concluem os investigadores.









