Entrevista: Responsabilidade social “não é responsabilidade perante o estado, é perante quem ele representa”



A responsabilidade social é um conceito amplo e multifacetado e, por isso, “há uma certa confusão acerca do termo e do tema”. Em entrevista à Green Savers, Mário Parra da silva, Presidente da Associação Portuguesa de Ética Empresarial (APEE), esclarece que a Responsabilidade social” tem que ver com responsabilidades de uma entidade que tem licença para operar, traduzida num número de pessoa coletiva que lhe foi atribuído”. Mas, alerta, “não é responsabilidade perante o Estado, é responsabilidade perante quem o Estado representa”.

Para o responsável, a empresa “deve sentir a sua responsabilidade e responder a ela. A relação entre uma empresa e os seus públicos e as suas partes interessadas só pode assentar numa coisa chamada confiança mútua”. E a confiança, diz, “não se cria pelo puro cumprimento da lei. Porque a lei tem como contrapartida a sanção. E a sanção e a lei são duas coisas indispensáveis, mas não são as criadoras de confiança”.

Nesta entrevista, o Presidente da Associação Portuguesa de Ética Empresarial (APEE), diz ainda que Portugal “tem uma tradição muito grande de diabolização das empresas” porque estas “não comunicam suficientemente bem”.

O desafio das grandes empresas é integrarem fatores sociais, ambientais e de governança nas suas políticas de gestão até 2030. Vão conseguir?

Convém fazer aí uma pequena correção. De facto, houve uma disseminação do conceito ESG, do qual eu próprio sou responsável, e a APEE, que se confundiram muito as coisas.

As empresas estão convidadas/obrigadas a integrar a Agenda 2030 e os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. As obrigações depois podem agrupar-se de várias formas. Por exemplo, há quem agrupe pelos 5 pilares (os 5 P’s), há quem agrupe de outras formas, e houve nos mercados financeiros, e do ponto de vista da gestão do risco, quem agrupasse em três grandes blocos: um conjunto de riscos que as empresas têm associados a questões ambientais; riscos que as empresas têm a questões sociais; e riscos que as empresas correm associados à sua própria forma de governo, que têm a ver com a corrupção, com o bom uso dos recursos à sua disposição.

E, portanto, o modelo de relatório de sustentabilidade com o framework ESG tornou-se tão popular que às tantas começou a falar-se do ESG como substituto da sustentabilidade ou como alternativa à responsabilidade social. É uma confusão de palavras que convém, desde o início, esclarecer. Responsabilidade social é uma coisa, desenvolvimento sustentável é outra, e relatórios segundo o framework ESG é outra.

Portanto, as empresas estão, de facto, convidadas, porque a “obrigação” de implementar a Agenda 2030 e a sustentabilidade nas grandes empresas não é uma obrigação legal. E se algum conglomerado de países ou de uma região, como por exemplo a União Europeia, tem a veleidade de tornar a sustentabilidade uma obrigatoriedade legal, obviamente vai falhar. Porque quem conduz as empresas à necessidade de adotarem a sustentabilidade e um modelo de desenvolvimento que seja sustentável é a cadeia de valor.

E na cadeia de valor estão a montante os seus fornecedores, a jusante os seus clientes e à sua volta a sociedade em geral e o cidadão. E é a opinião do cidadão, que também se chama de reputação, ou à opinião dos clientes que se chama preferência do mercado, reputação da marca, imagem da marca…são essas coisas que, como grande movimento que afeta toda a gente, a sustentabilidade convida todas as pessoas a repararem que à nossa volta se passam fenómenos que não são possíveis de ignorar. Não é possível ignorar o que se passou no Texas, não é possível ignorar o que se passa noutros sítios como na África do Sul, não é possível. São grandes fenómenos ambientais que refletem um modelo de desenvolvimento de alto desperdício de energia, de alto consumo, que está errado e que tem de ser ultrapassado.

Portanto, a questão não é apenas ambiental, a questão não é apenas social, a questão não é apenas de governação, a questão é de conseguirmos construir um outro modelo de desenvolvimento.

A Responsabilidade Social das empresas é frequentemente conotada com benefícios aos trabalhadores, como melhores salários e condições de trabalho, com a redução das emissões de dióxido de carbono. É só mesmo isso ou deverá/poderá haver mais?

Há uma certa confusão acerca do termo e do tema responsabilidade social. A nível global, a responsabilidade social foi objeto de uma norma da ISO, a ISO 26000, que estabeleceu o que era responsabilidade social.

Uns anos antes, a União Europeia tinha feito uma coisa sobre responsabilidade social, o famoso Livre Verde. O Livre Verde foi aproveitado por muitas empresas para fazer um simulacro de responsabilidade social, mas também, uns anos depois, a União Europeia publicou a Estratégia Europeia de Responsabilidade Social, já decalcada da ISO 26000, muito boa e muito bem. A definição, quer da ISO 26000 quer da União Europeia, sobre responsabilidade social é muito clara e tem a ver com uma entidade organizacional que possui o seu próprio número de pessoa coletiva, tem responsabilidades, porque a sociedade, quando atribui o número de pessoa coletiva, entre nós o número de identificação fiscal, atribui um conjunto de responsabilidades. Essas são até suscetíveis de serem questionadas em tribunal. Uma empresa, desde que tenha número de contribuinte, pode ser demandada em tribunal. É uma pessoa coletiva.

O que demorámos foi muito tempo a perceber que, como pessoa coletiva, tinha responsabilidades obrigatórias que estão estabelecidas na lei, mas como qualquer pessoa individual também tem responsabilidades que não estão estabelecidas na lei, não necessitam de estar estabelecidas na lei, mas não deixam de ser responsabilidades. É esse conjunto de responsabilidades que as organizações têm, por serem licenciadas pela sociedade, porque têm uma permissão para operar, que se chama responsabilidade social. O termo social não diz respeito ao social no sentido restrito. É social no sentido de sociedade.

Responsabilidade social tem que ver com responsabilidades de uma entidade que tem licença para operar, traduzida num número de pessoa coletiva que lhe foi atribuído. Mas não é responsabilidade perante o Estado, é responsabilidade perante quem o Estado representa

Responsabilidade social tem que ver com responsabilidades de uma entidade que tem licença para operar, traduzida num número de pessoa coletiva que lhe foi atribuído. Mas não é responsabilidade perante o Estado, é responsabilidade perante quem o Estado representa. O Estado não passa da representação da sociedade de forma organizada. A sociedade é a sociedade. E a sociedade gera para o seu próprio uso e vantagem e benefícios, etc., o Estado. Há quem pense que o Estado gera a sociedade, mas não. Há um país chamado Portugal. Portugal tem um conjunto de pessoas, que são os cidadãos portugueses e cidadãs. Esse conjunto de cidadãos e cidadãs tem um acordo, um contrato social, dizia o Jean-Jacques Rousseau, e essa sociedade que é gerada por esses cidadãos tem uma organização política e administrativa chamada Estado. As responsabilidades para com o Estado costumam ser traduzidas em cumprimento da lei.

As responsabilidades para com a sociedade costumam ser traduzidas em deveres éticos. É esse conjunto de deveres éticos, isto é, coisas não obrigatórias por lei, mas da mesma forma, coisas que se devem fazer, do ponto de vista ético a que genericamente se chama responsabilidade social. Portanto, vai muito para lá daquilo que é a consideração para com os trabalhadores, que faz parte da dimensão social. Mas da dimensão social também faz parte a consideração para com os filhos das pessoas da sociedade, com o apoio às escolas, às universidades.

No fundo há uma maneira muito simples de dizer isto e que já foi usada por uma série de organizações, que é ser um bom cidadão.

Como é que olha para a nova legislação para tornar os produtos no mercado da União Europeia mais sustentáveis? Que efeitos terá na forma como as empresas operam e como as pessoas consomem?

Tem efeitos enormes sobre a forma como as empresas operam, principalmente se a União Europeia souber manter essa pressão para a sustentabilidade dentro de limites razoáveis.

Se a União Europeia quiser legislar tudo, obrigar a tudo e tornar tudo obrigatório, tudo o que tem a ver com a sustentabilidade vai falhar. Aliás, o Mário Draghi deixou muito claro que estas questões da sustentabilidade devem progredir nas organizações à medida das suas possibilidades, porque senão a grande vítima deste processo é a competitividade.

A sustentabilidade gera competitividade, mas as duas coisas têm de se harmonizar. Dou-lhe um caso concreto. Imagine uma empresa que tem um determinado conjunto de produtos. Tem máquinas para produzir esses produtos e pessoas que têm competências adquiridas no seu local de trabalho e de base para fazer esses produtos. Ou seja, aquilo é o que os trabalhadores sabem fazer. Aquilo é o que o aparelho produtivo sabe fazer. E aquilo é o produto que o cliente está habituado a comprar. Mas esse produto tem aspetos insustentáveis. E pode ser substituído por produtos melhores, mais sustentáveis. Por exemplo, um produto que é um bloco pode ser substituído por produtos modulares. E um produto modular pode ser atualizado apenas por um módulo. Ora, a passagem de um produto para um novo produto mais sustentável, não se faz fechando o atual meio-fabril e abrindo outro. Porque se se fizer isso, tem um efeito devastador sobre o mercado de trabalho e sobre a competitividade. Portanto, tem de se dar tempo à empresa para ela substituir gradualmente a sua linha de produtos, pôr em circulação os seus produtos mais sustentáveis, fazer com que os clientes os adotem. Até porque há sempre um tremendo obstáculo. É que no início os produtos mais sustentáveis não são mais vendidos, são os menos vendidos porque estão a começar. E se são os menos vendidos, não há economia de escala. Se não há economia de escala, tendem a ser mais caros. E então temos a esquizofrenia do consumidor. Isto é, num lado do cérebro quer o produto mais barato. Do outro lado do cérebro quer o produto mais sustentável. Mas quando chega o momento de comprar, ou é uma pessoa com vasto poder de compra e provavelmente opta pelo produto mais sustentável, ou é um cidadão comum e este compra o mais barato.

Se a União Europeia quiser legislar tudo, obrigar a tudo e tornar tudo obrigatório, tudo o que tem a ver com a sustentabilidade vai falhar

Portanto, há todo um conjunto de políticas públicas que têm de ser colocadas em incentivo à sustentabilidade e há também todo um processo de evolução empresarial que tem de decorrer para que haja a substituição de produtos. Portanto, a União Europeia tem um papel muito importante a criar os instrumentos de estímulo. Por exemplo, para desenvolver toda uma nova linha de produtos sustentáveis, haver incentivos da União Europeia. Para haver uma operação de charme junto do consumidor e levá-lo a perceber que há produtos que são mais sustentáveis do que outros, tem de haver apoios da União Europeia para se fazer essa campanha de marca. Portanto, sim, a União Europeia pode ter um papel importante, desde que não tente ir pela via fácil para o legislador, mas péssimo para a economia, que é tornar tudo obrigatório.

Que avaliação faz do quadro empresarial português no que diz respeito à sustentabilidade? As empresas portuguesas estão realmente a assumir responsabilidades nos três pilares? O que falta fazer e porquê?

Estamos a admitir aqui que, para este efeito, três pilares são o económico, o ambiental e o social.

O que é que se passa com Portugal? Portugal é um país pequenino, com cerca de 10 milhões de pessoas. Além do tamanho da população, é um país com uma economia pequena. Há países com menos população, uma quantidade deles, Holanda, Irlanda, mas têm economias maiores.

Portanto, Portugal é uma economia muito aberta a outros países, de quem importa e para onde exporta. Ou seja, o nosso país não tem uma posição dominante nas cadeiras de valor. Normalmente é uma posição já secundária nas cadeiras de valor. Se numa cadeia de valor uma empresa tem uma posição mais secundária, isso não determina o que a cadeia de valor faz, tem de se ajustar. A economia portuguesa não é composta por pessoas que não querem sustentabilidade, pelo contrário. A economia portuguesa é gerida por pessoas muito bem-intencionadas.

É normal uma empresa estar envolvida com os bombeiros, com as festas locais, com grupos disto, grupos daquilo, de ajuda às coletividades, por aí afora. As empresas portuguesas fazem o que a cadeia de valor lhes manda, respondem ao mercado. Se o mercado pede, fazem. Se o mercado não pede, não fazem.

Agora, imagine que a empresa portuguesa está essencialmente ligada a uma cadeia de valor de países fora da União Europeia, ou países com menor nível de exigência nestes domínios, e onde a concorrência é muito marcada por preços. Adapta-se. Tenta cumprir a legislação e obviamente cumpre, porque senão tem processos, mas cumprir a legislação não vai muito além disso, porque a grande frase é, segue o mercado. O que o mercado pede, a gente faz. O que o mercado não pede, a gente não faz.

Portanto, tenho uma enorme consideração pelas empresas portuguesas, mas compreendo que não posso obrigá-las a fazer aquilo que o mercado não está a pedir.

Terá a Responsabilidade Social, agora chamada de ESG por muitos, um papel a desempenhar nessa mudança de “estar no mundo” das empresas? Em que é que esse novo sentido de responsabilidade se deve traduzir?

A responsabilidade social não pode ser chamada de ESG. ESG é uma moldura para a elaboração de relatórios. A responsabilidade social tem a ver com assumir os impactos positivos e negativos que a empresa, pela sua atividade, pelas suas operações, provoca na sociedade.

A sustentabilidade ou o desenvolvimento sustentável vai mais além no sentido de dizer que o modelo de desenvolvimento tem de cuidar dos ODS. Primeiro, o modelo de desenvolvimento não pode ser alheio às questões de base. As pessoas têm de ter rendimentos, têm de ter educação, não podem ter fome, não podem ter pobreza, porque como é que a economia pode achar que está a fazer o seu papel se continuar a ter pessoas entregues à pobreza e à fome? A economia foi feita para dissipar isso. Além disso, a produção mundial hoje é mais do que suficiente para que absolutamente ninguém sofra de pobreza ou de fome. Portanto, provavelmente temos um problema de desequilíbrios na distribuição. Logo, isto é um objetivo da sustentabilidade.

Assim, no fim dos ODS, os últimos na escala de 1 a 16, porque o 17 é um ODS especial, de parcerias, tem a ver com os cuidados que o modelo de desenvolvimento tem de ter com o ambiente, com as alterações climáticas, com os impactos sobre o oceano, com os impactos sobre a terra e, portanto, a exploração da terra, tudo isso. O desenvolvimento sustentável não exige tanto como a responsabilidade social, que é assumir a responsabilidade por todos os impactos positivos e negativos causados sobre a sociedade.

As organizações têm, de facto, que atender a isto. E podem fazer uma enorme mudança no mundo. Só foram chamadas para esta grande mudança a partir de 2015. Até 2015, toda a responsabilidade da mudança era colocada em cima dos governos e das políticas públicas, e o papel de chamar a atenção dos governos e das políticas públicas era das ONGs, e as empresas eram consideradas o inimigo, eram excluídas.

Quando, afinal de contas, o que há não são empresas, o que há são organizações, e as organizações têm acionistas, e o acionista é um stakeholder. As organizações dos países não-capitalistas também têm acionistas, em geral o Estado, mas o Estado é tão patrão como o acionista, portanto a organização acaba por ter os mesmos desafios, quer esteja num lado quer esteja no outro.

Uma empresa tem um âmbito, muitas vezes, muito maior que o estado. Aquilo que se chama esfera de influência, aquilo que permite que uma empresa se propague naquilo em que ela acredita, nos seus bons valores, que que lhe trazem a competitividade, a eficiência e a eficácia no mercado. E pode propagar isso para lá das fronteiras. O Estado Português não, só pode propagar até às fronteiras

Estamos em 2025, passaram-se 10 anos. A esmagadora maioria das empresas ainda não percebeu isto. Agora, há empresas que já perceberam. São as empresas maiores que o Estado. A Microsoft é maior que Portugal. O produto interno bruto da Apple é maior que a maioria dos Estados por esse mundo fora.

Portanto, uma empresa tem um âmbito, muitas vezes, muito maior que o estado. Aquilo que se chama esfera de influência, aquilo que permite que uma empresa se propague naquilo em que ela acredita, nos seus bons valores, que que lhe trazem a competitividade, a eficiência e a eficácia no mercado. E pode propagar isso para lá das fronteiras. O Estado Português não, só pode propagar até às fronteiras.

Segundo o 3º Relatório Global de Consumo MARCO 2024, promovido pela MARCO em parceria com a Cint, 90% dos consumidores portugueses acreditam que as marcas afirmam ser sustentáveis apenas para fins promocionais. É um número bastante elevado. Falta transparência e responsabilidade às marcas? Porque é que os consumidores mostram essa desconfiança face ao compromisso das empresas para com a sustentabilidade?

É preciso não esquecer que Portugal tem uma tradição muito grande de diabolização das empresas. Desde o 25 de Abril para cá que há consistentemente uma grande parte da sociedade portuguesa cujas forças de pensamento político, etc. são de atribuir às empresas tudo de mal. Quer a nível de partidos políticos quer depois a nível de sindicatos.

Portanto, porque é que as pessoas têm essa perceção? Primeira razão, porque estão mais preparadas para olhar para a empresa como uma coisa que faz, por definição, mal, do que olhar para a empresa e ver uma coisa que faz bem. Mas, agora, qual é a culpa das empresas? A culpa das empresas é que muitas vezes estão a fazer bem, mas não comunicam suficientemente bem. Por exemplo, muitos relatórios de sustentabilidade que nós aqui na APEE vemos com imensa frequência, são excelentes peças de propaganda comunicacional. Fotografias, toda a composição gráfica do relatório é admirável, os textos, os gráficos…mas qual é a conclusão que eu tiro imediatamente? Os relatórios não foram feitos para o público. Foram feitos para o acionista, grande cliente, para a cadeia de valor. Está no site? Está, mas o público nunca vai consultá-lo. Portanto, as empresas não comunicam sustentabilidade com o público porque as empresas não acham que o público perceba o que a empresa está a fazer. E aí, de facto, tem como resultado isto. Muitos consumidores não percebem, não sabem, não têm consciência do que a empresa está a fazer.

As empresas não comunicam sustentabilidade com o público porque as empresas não acham que o público perceba o que a empresa está a fazer. E aí, de facto, tem como resultado isto. Muitos consumidores não percebem, não sabem, não têm consciência do que a empresa está a fazer

Portugal é um dos países onde as energias renováveis têm maior cota na produção de energia nacional. Ou seja, quando comparada a contribuição para a sustentabilidade da EDP com as suas congéneres elétricas noutros países, a EDP é largamente campeã e sabe-se na Bolsa de Nova Iorque. Não se sabe em Portugal, mas na Bolsa de Nova Iorque sabe-se. E quem diz a EDP diz uma quantidade de outras grandes empresas que comunicam sustentabilidade, mas não comunicam para o consumidor. Comunicam com excelentes, lindos relatórios de sustentabilidade, às vezes até bonitos demais, porque têm um bocadinho de exageros aqui e ali, porque as pessoas da comunicação entusiasmam-se…mas é para o acionista, é para a cadeia de valor, não é para o consumidor.

Portanto, eu acho que devia haver mais comunicação com o consumidor acerca de sustentabilidade e não há.

Acha que o Greenwashing é um efeito colateral na corrida do mercado pela sustentabilidade? Há uma diferença entre o dizer que se faz e o faz realmente. As empresas estão realmente a fazer ou só a dizer que fazem?

A última afirmação é uma generalização ilegítima. “As empresas estão realmente a fazer ou só a dizer que fazem?” Não devia ter a generalização, devia dizer: “algumas empresas estão…?” Não tenho dúvida que sim, que algumas empresas estão a dizer que fazem, mas não fazem.

E isto porquê? Porque as empresas são fenómenos humanos, dirigidas por seres humanos e nestes, em geral, há uma dicotomia. A grande maioria das pessoas são uma mistura de bem e de mal, tem uma componente de egoísmo/egocentrismo e, ao mesmo tempo, são viradas para o exterior. Portanto, se nas pessoas o fenómeno do bem e mal existe, era estranho que não existisse nas empresas. Nas pessoas existe o fenómeno de corrupção. Também existe nas empresas. Nas pessoas existe o fenómeno de fingir o que não se é, e dar a ilusão que se é alguma coisa diferente do que se é. Nas empresas também. Ou seja, tudo o que de mal as pessoas têm, as pessoas refletem também nas suas empresas. Muito menos nas empresas do que nas pessoas.

Nas pessoas existe o fenómeno de fingir o que não se é, e dar a ilusão que se é alguma coisa diferente do que se é. Nas empresas também. Ou seja, tudo o que de mal as pessoas têm, as pessoas refletem também nas suas empresas. Muito menos nas empresas do que nas pessoas

Portanto, se há empresas que fazem coisas menos boas, há, sim senhor, mas acredito que é numa percentagem muito inferior ao que seria se forem bem governadas. É aí que entram os princípios da governação e a necessidade de explicar às empresas o que é governação. Mais uma vez, uma doutrina completamente desconhecida até há uns anos. Não havia sequer cursos universitários sobre governação. Havia só legislação de empresa, mas nada sobre governação. Era na formação que se fazia qualquer coisa. Cursos de liderança, cursos de gestão. Mas, no resto, a gestão era fundamentalmente económica. Tinha em mente essencialmente a economia, não a governação. Portanto, a governação é uma disciplina nova que visa, precisamente, fazer com que as empresas sejam bem governadas. E bem governadas significa que aquilo que se diz ao mercado que se faz, faz-se.

No atual quadro de crises planetárias, há quem defenda que a responsabilidade social tem de deixar de ser vista como algo voluntário, para passar a obrigatório para evitar agudizar a degradação dos sistemas da Terra. Mas as empresas, pelo menos algumas, tendem a resistir a obrigações, defendendo o carácter voluntário. Considera que a responsabilidade social em contexto de alterações climáticas deve ser uma obrigação? Quais os prós e os contras dessa abordagem?

Definitivamente não. A responsabilidade social foi sempre definida pela ISO e depois definida pela União Europeia como algo que as empresas assumem perante a sociedade. Portanto, a empresa deve sentir a sua responsabilidade e responder a ela. A relação entre uma empresa e os seus públicos e as suas partes interessadas só pode assentar numa coisa chamada confiança mútua. E a confiança não se cria pelo puro cumprimento da lei. Porque a lei tem como contrapartida a sanção. E a sanção e a lei são duas coisas indispensáveis, mas não são as criadoras de confiança. Por exemplo, se uma determinada empresa excede as expectativas do cliente, vai para além daquilo que é o serviço que está comprometido a fazer, ajudando-o numa fase em que ele necessita. A empresa responde ao seu fornecedor, ao seu cliente, criando confiança. Essa confiança gera competitividade, negócio. Isto não pode ser tornado obrigatório. Tem de ser uma criação com origem ética.

A confiança não se cria pelo puro cumprimento da lei. Porque a lei tem como contrapartida a sanção. E a sanção e a lei são duas coisas indispensáveis, mas não são as criadoras de confiança

Portanto, a responsabilidade social, como eu disse atrás, vai para além da lei. A lei é a legislação e o Estado impõe legislação e sanções. A responsabilidade social vai a tudo aquilo que a empresa, a não ser estritamente obrigada pela lei, decide fazer. Decide assumir a responsabilidade pelos impactos positivos e negativos que causa. Supondo uma empresa que emprega 300 mulheres, não pode sequer ser estimável que esta se cinja à lei. A lei não diz que tem de olhar para a sua massa trabalhadora, verificar quais são as mães que são solteiras e tentar dar-lhes um apoio especial. A lei não exige isso. Também não diz que deve procurar olhar para as mulheres que têm crianças pequenas em fase escolar e fazer uma festa para essas crianças na empresa. Também não diz que não pode mandar em missões que implicam viajar, pessoas que estão num período familiar em que é muito complicado sair de casa. No dia em que isto for convertido em obrigação legal, envenena completamente as relações laborais, que deixam de se basear na confiança mútua, no apoio mútuo, na ajuda mútua, ou seja, na consideração e respeito que devemos ter uns pelos outros, para se passarem a basear no estrito cumprimento da lei, com sanções a poderem ser aplicadas. Não. Aliás, quanto mais voluntárias forem as relações, melhor.

O ideal mesmo numa sociedade era não ser necessária uma única lei. Porque as pessoas saberiam, no contrato social que as une, o que é que têm de fazer e o que não têm de fazer.

O Merco, o monitor de referência para a Ibérico-América, publicou em fevereiro o ranking das 100 empresas mais responsáveis em termos de ESG. O Grupo Nabeiro – Delta Cafés (1º) lidera o ranking das empresas mais responsáveis de Portugal, seguido do IKEA (2.º) e da EDP (3.º). Nas posições seguintes, encontram-se a Jerónimo Martins, em 4.º lugar, e a Sonae, em 5.º. Lidl (6.º), Microsoft (7.º), CUF (8.º), Leroy Merlin (9.º) e Mercadona (10.º) completam o top. Como é que analisa estes resultados?

Analiso esses resultados dizendo que quem faz rankings não tem outro remédio se não fazer os rankings assim. Ou seja, o ranking é feito a partir de quem se apresenta. Normalmente quem se candidata ao ranking prepara uma candidatura, seja ou não paga, não importa, não é isso que está em causa. Veja-se que apenas foram referidas multinacionais, de grande porte.

Portanto, ficamos com a ideia de que as multinacionais de grande porte é que são boas. Não. São tão boas como outras muito mais pequenas que fazem tão bem ou melhor do que elas. A questão é que não se candidataram. Portanto, parabéns às empresas que ficaram nesse quadro, concordo com esse ranking. Algumas delas são aqui nossas associadas com o maior orgulho da nossa parte. No entanto, não gosto de rankings de sustentabilidade.

Por exemplo, se esse ranking fosse: “vamos seriar as empresas pelo nível de impacto que causam nas suas cadeias de valor”. Não tenho dúvida nenhuma que essas grandes empresas têm cadeias de valor muito grandes e causam um grande impacto nas cadeias de valor. Enquanto se eu colocar aí uma empresa que tem melhores práticas de sustentabilidade, mas só tem 50 clientes e só tem 3 fornecedores nunca na vida ganharia o prémio, mas o que ela faz é muito bom. Não tem é grande impacto na cadeia de valor. Porque é uma cadeia de valor pequena. Agora, portanto, estes prémios não estão a premiar as práticas de sustentabilidade. Estão a premiar quem se candidatou. E quem se candidatou, em geral, é uma grande organização que tem capacidade para se candidatar e capacidade para exercer uma grande influência que é reconhecida. E ainda bem. Está tudo bem. Mas há muito mais além dessas.

Vanessa Sequeira, Country Manager do Merco em Portugal, considera que “só há um caminho para concretizar a responsabilidade social das empresas: a coerência”. Concorda?

A coerência é uma palavra perigosa. Por exemplo a máfia é uma organização muitíssimo bem gerida, que se baseia numa premissa que é ou se cumpre ou se morre. Sendo por isso internamente extraordinariamente coerente. Porque pode ser coerência sermos maus todos os dias, nunca cumprimos coisa nenhuma.

A palavra-chave para para concretizar a responsabilidade social das empresas é confiança, mais do que coerência

Portanto, a coerência só por si não significa nada. O que eu penso que a Vanessa Sequeira quis dizer é que as organizações têm de ser coerentes com o que propõem, ao nível do que fazem. Se se propagandeia, se se promete ao mercado um bom produto, deve-se fornecer um bom produto. E atualmente o critério de bom produto tem mais um eixo, há mais uma coisa nos critérios de bom produto. É ser sustentável. É representar uma responsabilidade para com o mercado. Por exemplo fazer um produto que é muito bom no paladar, mas que é péssimo do ponto de vista nutricional e só tem é uma quantidade imensa de calorias, só vai fazer mal às pessoas que o consomem. Esse produto não é coerente com a promessa. Isto porque a promessa é a de que se cuida das pessoas e da saúde das mesmas. Mas afinal de contas o produto que se está a oferecer não cuida da saúde delas.

Portanto, concordo com a Country Manager do Merco em Portugal, coerência. Coerência no sentido do que se promete deve ser aquilo que se entrega. E assim gera-se confiança. Eu acho que a palavra-chave é confiança, mais do que coerência.

*Entrevista publicada originalmente na edição de setembro de 2025

 

 

 

 

 

 

 

 






Notícias relacionadas



Comentários
Loading...