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Golfinho sem barbatana caudal sobrevive durante mais de dois anos no Mediterrâneo

Um roaz (Tursiops truncatus) macho, com aproximadamente seis anos de idade, viveu durante mais de dois deles sem a barbatana caudal e com a barbatana peitoral direita parcialmente amputada.

Filipe Pimentel Rações

Um roaz (Tursiops truncatus), macho, com aproximadamente seis anos de idade, viveu durante mais de dois deles sem a barbatana caudal e com a barbatana peitoral direita parcialmente amputada.

O animal em questão foi avistado pela primeira vez a 12 de outubro de 2021 no Mediterrâneo ocidental, a cerca de nove quilómetros ao largo da costa de Valência, em Espanha. Um dos membros do grupo de roazes que se aproximou da embarcação recreativa de onde se captaram fotografias e vídeos dos cetáceos apresentava sinais de escoliose grave, com uma grande deformação da coluna.

Outro membro do grupo não tinha barbatana caudal e a barbatana peitoral direita parecia que não estava inteira. Esse é o protagonista de um estudo publicado este ano na revista ‘Aquatic Mammals’, resultado de uma investigação liderada pelo Instituto Cavanilles de Biodiversidade e Biologia Evolutiva (Espanha).

O golfinho sem cauda foi observado novamente a 12 de agosto de 2023 e, menos de um ano depois, a 26 de abril de 2024, deu à costa, sem vida, na praia de Nules, em Valência.

“É um mistério como é que este golfinho sobreviveu durante tanto tempo”, diz Francisco Javier Aznar, principal coautor do estudo. O feito é realmente surpreendente, uma vez que a falta das barbatanas caudal e peitoral direita deveriam ter limitado grandemente a sua capacidade para nadar e caçar.

Contudo, a necrópsia feita ao cadáver do golfinho revelou que a sua última refeição tinha sido peixes e cefalópodes de espécies de valor comercial. Por isso, Aznar argumenta que é possível que depois da mutilação o golfinho tenha começado a preferir alimentar-se de peixes capturados por pesca humana ou de restos descartados.

“Contudo, não pomos de parte que possa ter sido assistido por conspecíficos, especialmente a sua mãe, se ainda tinha uma ligação próxima com ela”, aponta o investigador.

Sem a barbatana caudal para o ajudar a nadar, o golfinho tentou adaptar-se: em vez de movimentar a cauda para cima e para baixo, como os outros cetáceos, passou a movê-la de um lado para o outro, como um crocodilo a impulsionar-se pela água.

Suspeita-se que as mutilações tenham sido causadas pelo enredamento do animal numa rede de pesca. Apesar de todas as provações, o roaz, na altura da necrópsia, apresentava-se em boa condição física e estava até acima do peso esperado para um animal do seu tamanho.

No entanto, o final da história deste animal foi, como tantos outros, trágico. Ainda que tenha anteriormente tenha conseguido escapar a um encontro com uma rede de pesca que poderia ter sido fatal e adaptar-se às suas limitações motoras, o animal acabou por morreu afogado precisamente por ter ficado preso noutra rede de pesca.

Os autores deste trabalho dizem que este caso é apenas um de muitos que mostra o impacto da pesca em espécies marinhas como os golfinhos, que são muitas vezes avistados a interagir com as atividades piscatórias ao largo de Valência, “fazendo com que estejam particularmente vulneráveis à captura acidental”.

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