Um novo estudo científico conclui que a manutenção e a criação de áreas marinhas protegidas no Oceano Antártico poderão quase duplicar a salvaguarda de zonas críticas de diversidade genética — passando dos atuais 28% para cerca de 54%. Segundo os investigadores, esta medida é essencial para reduzir o risco elevado de colapso dos ecossistemas marinhos naquela região.
A investigação foi liderada por uma equipa do programa Securing Antarctica’s Environmental Future (SAEF), com a participação da James Cook University.
A investigadora Sally Lau, do programa SAEF na James Cook University, sublinha que o Oceano Antártico é uma das regiões do planeta que está a sofrer transformações mais rápidas, com os ecossistemas do fundo marinho cada vez mais pressionados pelas alterações climáticas e por outros fatores ambientais.
“As áreas marinhas protegidas são uma das ferramentas mais eficazes de que dispomos para preservar estes ecossistemas. Esta investigação permite-nos apresentar recomendações baseadas em conhecimento genético, ajudando a definir prioridades onde a proteção terá maior impacto”, afirma.
Pela primeira vez, os cientistas compilaram e analisaram dados genéticos de várias espécies que habitam o fundo do Oceano Antártico para identificar pontos críticos de diversidade genética que devem ser prioritários para conservação.
A equipa recorreu a informação genética de um vasto conjunto de espécies bentónicas, incluindo polvos, aranhas-do-mar e ouriços-do-mar, mapeando áreas com elevada diversidade genética, conectividade e diferenciação ao longo do Oceano Antártico.
De acordo com Sally Lau, os ecossistemas com maior diversidade genética apresentam maior resiliência e melhor capacidade de adaptação às mudanças climáticas e ambientais.
Os investigadores avaliaram ainda a forma como as áreas marinhas protegidas já existentes — e as atualmente propostas — abrangem esses pontos críticos. Concluíram que apenas cerca de 28% das zonas identificadas como hotspots genéticos se encontram atualmente sob proteção. Caso as áreas existentes sejam mantidas e as propostas venham a ser implementadas, a cobertura poderá atingir aproximadamente 54%.
“Sem este tipo de medidas, o Oceano Antártico enfrentará um risco elevado de falência ecológica. É fundamental agir para garantir a resiliência dos ecossistemas”, alerta a investigadora.
Também envolvida no estudo, Nerida Wilson, da University of Western Australia e do Western Australian Museum, destacou que o trabalho só foi possível graças a décadas de investimento internacional em investigação colaborativa na Antártida.
Grande parte dos dados genéticos utilizados resultou de iniciativas científicas internacionais de grande escala, evidenciando a importância de um esforço contínuo de cooperação global. A investigadora sublinhou ainda a necessidade de assegurar a conservação de amostras antárticas em infraestruturas museológicas adequadas, garantindo a sua preservação a longo prazo.
“Estas amostras são insubstituíveis e continuarão a fornecer informação crucial sobre as mudanças passadas e futuras”, conclui.









