Os últimos Neandertais que viveram na Europa, antes do seu desaparecimento há cerca de 40 mil anos, descendiam de uma única linhagem genética.
A descoberta é revelada num estudo publicado recentemente na revista ‘PNAS’, que contou com a colaboração de Alvise Barbieri, Ricardo Miguel Godinho e Flora Schilt, investigadores do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB) da Universidade do Algarve.
De acordo com esse centro científico, o estudo combina novos dados de ADN com evidência arqueológica. Com base na análise de material genético transmitido pela linha materna (ADN mitocondrial), a partir de dentes e ossos de Neandertais, os investigadores conseguiram sequenciar ADN de dez indivíduos, até então não estudados, provenientes de seis sítios arqueológicos distribuídos pela Bélgica, França, Sérvia e Alemanha.
“Entre outros resultados empolgantes, este trabalho permitiu-nos recuperar ADN mitocondrial de um indivíduo excecionalmente jovem (provavelmente um feto), um dos Neandertais mais jovens alguma vez identificados”, afirma Alvise Barbieri, que lidera a investigação no abrigo rochoso de Sesselfelsgrotte, na Alemanha, com o financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da National Geographic Society.

Investigações anteriores tinham já sugerido que as populações de Neandertais mais antigas e amplamente distribuídas na Europa tinham, em grande parte, desaparecido. Contudo, os novos resultados indicam algo inesperado.
Um pequeno grupo sobreviveu ao abrigar-se numa área de refúgio climático no que é hoje o sudoeste de França, há cerca de 75 mil anos, estimando-se que, 10 mil anos depois, os seus descendentes se tenham expandido por toda a Europa. Como resultado, a maioria dos Neandertais tardios partilha uma linhagem genética comum.
No entanto, esta população sofreu, com o passar do tempo, um declínio acentuado. O novo estudo mostra uma diminuição rápida do número de indivíduos entre há 45 mil e 42 mil anos, pouco antes da extinção dos Neandertais.
Os resultados sugerem que as condições severas da Idade do Gelo, há cerca de 75 mil anos, terão reduzido drasticamente as populações de Neandertais na Europa. Ao mesmo tempo, os sítios arqueológicos tornaram-se menos numerosos e cada vez mais concentrados no sudoeste da Europa.
“Os nossos dados mostram que os Neandertais recuaram para o que é hoje o sudoeste de França”, explica Cosimo Posth. “A partir daí, surgiu uma nova população há cerca de 65 mil anos, que mais tarde se expandiu por toda a Europa”, acrescenta.
Esta expansão explica por que razão a maioria dos Neandertais tardios, desde a Península Ibérica até ao Cáucaso, pertence à mesma linhagem mitocondrial, apontando para uma grande substituição genética.
Recorrendo a modelação estatística, os investigadores testaram também se as alterações na diversidade genética poderiam ser explicadas por uma população de dimensão estável, mas os resultados mostraram o contrário. Isto é, percebeu-se que houve um declínio populacional acentuado e rápido nos últimos milénios antes da extinção.
“Do ponto de vista genético, os Neandertais tardios constituíam um grupo altamente homogéneo”, sendo que “a baixa diversidade genética, combinada com o crescente isolamento, pode ter contribuído para o seu desaparecimento”, sentencia Posth.









