O calor extremo está a emergir como um risco económico estrutural, com a Europa altamente exposta. Esta é uma das principais conclusões do mais recente estudo da Allianz Trade que analisa os impactos das ondas de calor extremo na economia.
De acordo com a seguradora internacional, está em jogo uma “verdadeira vulnerabilidade estrutural”: populações envelhecidas, denso património urbano concebido para manter o calor e infraestruturas de arrefecimento severamente subdesenvolvidas, com uma penetração média de ar condicionado de 19% em toda a Europa contra cerca de 90% nos Estados Unidos da América.
A análise avança também que a transmissão económica do stress térmico é não linear, com um limiar crítico em torno dos 30°C, a partir do qual as perdas de produtividade se intensificam acentuadamente. Abaixo desse nível, o calor reduz os custos de aquecimento e está associado a ganhos modestos de produtividade. Contudo, acima desse nível, a relação inverte-se e ambos os canais pioram a cada grau adicional.
Detalha a seguradora que a produção por hora diminui aproximadamente 1,12 euros por cada grau que sobe na faixa dos 30-35°C, com os custos a curto prazo a serem suportados pelas empresas à custa da sua rentabilidade “antes de se transmitir gradualmente ao rendimento e consumo familiar”. Além disso, um outro efeito é sentido na dimensão da energia, cujo consumo aumenta cerca de 1,2% por cada grau a mais, aumentando os custos para as empresas em temperaturas em que a produtividade laboral está a diminuir.
O relatório mostra ainda que as consequências financeiras do calor extremo recaem sobretudo sobre as economias menos capazes de as absorver. A perda de produção económica devido ao calor reduz as receitas fiscais: os prejuízos anuais estimados atingiriam 1,8% em França, 1,3% em Itália e Espanha e 0,7% na Alemanha. Diz a seguradora que isso em parte acontece porque os sistemas fiscais progressivos fazem com que as receitas tendam a cair mais rapidamente do que a própria produção, amplificando o efeito de arrastamento financeiro para além da perda global do PIB.
Além disso, transferências indexadas à inflação, custos de saúde e reparação de infraestruturas de emergência aumentam a despesa pública. Os saldos orçamentais deterioram-se, em média, em cerca de 0,5% do PIB anualmente. Itália e Espanha correm o risco de ultrapassar o teto do défice de Maastricht (novamente) assim que as pressões relacionadas com o calor forem incorporadas. França, já com um défice projetado de −4,9% do PIB, enfrenta uma pressão adicional relacionada com o calor de 2,2%.
O que o calor destrói e o que o seguro cobre
As perdas seguradas continuam a ser uma pequena fração dos danos totais causados por temperaturas extremas, diz a Allianz Trade, o que reflete uma “incompatibilidade estrutural” entre o que o calor destrói e o que o seguro convencional foi concebido para cobrir.
Em 2022, as perdas totais na Europa relacionadas com extremos climáticos atingiram os 46 mil milhões de euros, enquanto a parte segurada aumentou apenas marginalmente.
Mostra o estudo que a maior parte dos danos causados pelo calor acumula-se devido a mortalidade excessiva, perda de horas de trabalho, pressão do sistema de saúde e stress infraestrutural, impactos que os contratos de indemnização, dizem os relatores, não foram concebidos para gerir.
“Isto torna o calor extremo mais difícil de segurar do que outros riscos climáticos”, assume a Allianz Trade, “porque as perdas são generalizadas e frequentemente indiretas, como menor produtividade ou impactos na saúde, tornando-as difíceis de medir”.
Por isso, a entidade afirma que reduzir a lacuna de proteção é “tanto um desafio de design de produto como de capacidade”, mas o conjunto de ferramentas de seguros já está a evoluir em resposta.
Menor consumo, mas ainda menor investimento
Diz a Allianz Trade que decompor o impacto do PIB nos seus componentes do lado da procura revela que o custo macroeconómico do stress térmico manifesta-se de duas formas: consumo familiar mais fraco e menor investimento, o que leva a um declínio a longo prazo na formação de capital fixo.
Em países onde o aquecimento moderado produz benefícios económicos líquidos, como Irlanda, Finlândia, Suécia, Suíça e Dinamarca, tanto o consumo privado como a formação de capital fixo aumentam, com os ganhos de investimento geralmente a superarem os ganhos de consumo. Contudo, em economias mais expostas ao calor, como a portuguesa, esse padrão inverte-se.
De acordo com a análise, em praticamente todos os países onde o cenário de stress térmico produz perdas económicas, a diminuição da formação de capital fixo supera a diminuição do consumo privado, muitas vezes por uma larga margem.
Em Portugal, regista-se uma queda nos consumos de 1,9%, mas uma queda nos investimentos de 6%. Explicam os autores da análise que essa relação, também vista noutros países europeus como Itália e França, mostra o que descrevem como um “poderoso mecanismo de amplificação”. Isto é, à medida que as altas temperaturas reduzem a produção potencial e comprimem as margens, o retorno esperado sobre novo capital diminui, desencorajando o investimento.









