Confundir eletricidade com energia atrasa a transição

Eletricidade e energia são conceitos distintos e é precisamente nessa confusão que se esconde o trabalho que ainda falta fazer. A eletricidade representa hoje pouco menos de um quarto do consumo final de energia em Portugal. Os restantes três quartos são, essencialmente, combustíveis fósseis a queimar em automóveis, camiões, caldeiras industriais, sistemas de aquecimento e processos produtivos.

Redação

Por Pedro Miranda, CEO e cofundador da Youdera

Os números das primeiras semanas do ano voltaram a posicionar Portugal como caso de sucesso da transição energética. Segundo a Redes Energéticas Nacionais (REN), o consumo elétrico no primeiro trimestre atingiu 14,6 TWh – ultrapassando o valor recorde da época – com cerca de 80% de origem renovável, sobretudo hídrica e eólica. Em 2024, as centrais fósseis nacionais cobriram apenas 10% do consumo elétrico, um mínimo histórico.

O risco é confundir duas coisas que não são a mesma. Eletricidade e energia são conceitos distintos e é precisamente nessa confusão que se esconde o trabalho que ainda falta fazer. A eletricidade representa hoje pouco menos de um quarto do consumo final de energia em Portugal. Os restantes três quartos são, essencialmente, combustíveis fósseis a queimar em automóveis, camiões, caldeiras industriais, sistemas de aquecimento e processos produtivos.

Segundo a Enerdata, transporte e edifícios representam, em conjunto, cerca de 70% da procura final de energia no país e continuam, em larga medida, dependentes de gasóleo, gasolina e gás natural. Ora, se Portugal não produz petróleo nem gás, tem de importar – em 2024, foi importada 64,5% de toda a energia consumida – de acordo com a Pordata – um valor que se situa bastante acima da média da UE (57%).

Esta é, portanto, a fotografia honesta da transição energética portuguesa: estamos perto da liderança europeia na produção de eletricidade limpa e continuamos dependentes do exterior em tudo o que ainda não é elétrico, sobretudo combustíveis líquidos e gás. Os dois indicadores coexistem porque medem áreas diferentes, pelo que tratá-los como sinónimos nos faz perder o foco no que realmente importa.

O caminho para corrigir esta assimetria é a eletrificação. Cada quilowatt-hora fóssil que se substitui por eletricidade limpa produzida localmente reduz a fatura, as emissões e a dependência geopolítica de Portugal. Outros países europeus já estão a fazer escolhas claras neste sentido. França anunciou que vai proibir a instalação de caldeiras a gás em todos os edifícios novos, com o objetivo de reduzir a dependência do gás importado. Na Áustria, os camiões elétricos pagam apenas cerca de 25% da taxa de portagem aplicada aos equivalentes a gasóleo, uma redução de quase 80% que altera radicalmente a equação económica da logística pesada. Não são gestos simbólicos, são sinais de preço e regulatórios que tornam a opção elétrica óbvia.

Em Portugal, persistem desafios estruturais. O licenciamento continua moroso e os processos de ligação à rede arrastam-se. No parque industrial, muitos edifícios continuam sem condições para avançar: telhados por reabilitar e coberturas com amianto que têm de ser removidas antes de qualquer instalação. Paradoxalmente, o excesso de intervenção pública é parte do problema. A proliferação de subsídios e linhas de apoio – Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) à cabeça – cria entropia: muitos decisores adiam investimentos à espera de um apoio que tarda em chegar, ou que vem com contrapartidas pesadas.

Neste processo, há empresas que ficam para trás. O papel do Estado não deveria ser distribuir subsídios indiscriminadamente, mas sim definir regras claras, estáveis e previsíveis. O que falta hoje não é capital ou tecnologia, mas sim largura de banda interna para decidir e executar. A latitude, os recursos endógenos e o nível de renovabilidade já alcançado no sistema elétrico tornam Portugal um dos países europeus mais bem posicionados para se tornar um eletro-estado, capaz de funcionar quase na sua plenitude a eletricidade produzida internamente. É provável que este seja um percurso de 15 ou 20 anos, mas a ambição é realista e decisiva.

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