As brisas que sopram do Mar Mediterrâneo ocidental para terra estão a perder força, reduzindo também a sua função de arrefecimento de cidades como Barcelona, Valência e Ibiza.
De acordo com uma investigação liderada pelo Centro de Investigações sobre Desertificação (CIDE), que analisou 41 anos de dados de 39 estações meteorológicas em Espanha, França, Itália e Norte de África, a velocidade da brisa marítima tem vindo a diminuir constantemente desde a década de 1980.
Num artigo publicado na revista ‘Scientific Reports’, os investigadores dizem que essa desaceleração é ainda mais significativa durante ondas de calor no verão, aumentando ainda mais os impactos desse fenómeno extremo.
Explicam os cientistas que as brisas marítimas são impulsionadas por diferenças de temperatura em terra e no mar. Durante o dia, a primeira aquece mais rapidamente do que o segundo. O ar quente sobe e “puxa” o ar frio do mar, refrescando as zonas costeiras.
No entanto, essa dinâmica está a desaparecer. O Mediterrâneo, estima-se, está a aquecer entre 20% e 40% mais rapidamente do que a média global, o que poderia levar-nos a pensar que aumentaria a velocidade das brisas, considerando o aumento do contraste de temperatura.
“No entanto, observamos que as brisas marítimas estão a tornar-se mais fracas, embora mais frequentes em épocas do ano em que são menos comuns, como o inverno”, explica Shalenys Bedoya-Valestt, primeira autora do estudo.
Com base nos dados analisados, os investigadores calculam que a velocidade média das brisas marítimas no Mediterrâneo ocidental é hoje 11% inferior à da década de 1980. Se se olhar apenas para os meses de verão, a redução quase sobe para os 13%.
As Ilhas Baleares e a costa mediterrânea de Espanha são as regiões onde a redução da velocidade das brisas é mais acentuada, de 17,6% e 17%, respetivamente.
A perda de força das brisas que sopram do Mediterrâneo fazem agravar os efeitos das ondas de calor em terra. Segundo a investigação, esses fenómenos climáticos extremos reduzem a velocidade das brisas em até 10% em ilhas como a Córsega, a Sardenha e a Sicília.
Nas Baleares, as ondas de calor desaceleram as brisas em 8%, enquanto na costa mediterrânica de Espanha a redução da velocidade é de 4,8%.
Os cientistas dizem que estamos perante um paradoxo: o aquecimento acima da média do Mediterrâneo causa mais ondas de calor que, por sua vez, enfraquecem ainda mais as brisas costeiras que ajudariam a aliviá-las.
“A nossa hipótese é que o aquecimento global está a mudar a forma como as massas de ar se movem, fazendo com que o ar quente de origem continental tropical fique ‘preso’ sobre o Mediterrâneo, levando a ondas de calor mais frequentes e intensas”, explica Shalenys Bedoya-Valestt.
“Esse ar quente e seco funciona como uma ‘tampa’ sobre a região: estabiliza a atmosfera e diminui a velocidade dos movimentos do ar que impulsionam a brisa, enfraquecendo-a”, acrescenta.
Assim, brisas mais fracas agravam o aquecimento na região do Mediterrâneo e também os fenómenos de ondas de calor, com impactos também na saúde humana, uma vez que a poluição pode ficar “retida” e não dissipar-se, além dos impactos diretos do calor extremo.









