“Uma visão distorcida”: Cientistas dizem que filmes não mostram a realidade de uma verdadeira erupção vulcânica

Analisando 20 filmes, desde o “Volcano” de 1942 ao “Pompeia” de 2014, passando pelo “Cume de Dante” de 1997, o “Mundo Jurássico: Reino Caído” de 2018 e o “Skyfire” de 2019, os vulcanólogos dizem que tendem a representar erradamente os ciclos de comportamento vulcânico. E muitos deles, sublinham, incluem fluxos de lava “visualmente espetaculares”, mas “fisicamente irrealistas”.

Redação

O mundo cinema está repleto de filmes de desastres naturais que fascinam milhões. Entre eles, vários retratam cenários catastróficos causados por erupções de vulcões, normalmente com algum herói a assumir o papel de salvador das comunidades em perigo.

Apesar do apelo que sobre muitos possam lançar, os filmes de erupções vulcânicas têm contribuído para a propagação de “uma visão distorcida” sobre os vulcões, criando perceções públicas que estão longe da realidade.

É isso que de cientistas do Reino Unido e do Japão declaram num artigo publicado na revista ‘Bulletin of Volcanology’. E explicam porquê.

Analisando 20 filmes, desde o “Volcano” de 1942 ao “Pompeia” de 2014, passando pelo “Cume de Dante” de 1997, o “Mundo Jurássico: Reino Caído” de 2018 e o “Skyfire” de 2019, os vulcanólogos dizem que tendem a representar erradamente os ciclos de comportamento vulcânico. E muitos deles, sublinham, incluem fluxos de lava “visualmente espetaculares”, mas “fisicamente irrealistas”.

A equipa considera que representações mais fidedignas poderiam ajudar os vulcanólogos a transmitir a incerteza e as tensões elevadas que acompanham o aumento da atividade vulcânica.

“Os filmes baseiam-se na tensão dramática, mas os vulcões são frequentemente a pouco mais do que espetaculares efeitos especiais de lava e destruição, com as comunidades nas proximidades a serem retrataras como vítimas impotentes”, diz Jenni Barclay, investigadora da Universidade de Bristol e primeira autora do estudo.

“Poderia fazer-se muito mais para contar as notáveis histórias humanas e científicas que surgem durante as erupções, captando tando a realidade lenta e exigente da atividade vulcânica como o seu poder impressionante”, acrescenta.

Os cientistas apontam que muitos filmes representam com precisão o período de agitação vulcânica que precede uma erupção, como tremores de terra, emissões de gás, incerteza científica e dificuldades em tomar decisões. No entanto, lamentam que tudo isso seja “drasticamente encurtado”, fazendo com que as erupções escalem de sinais de alerta até explosões catastróficas no espaço de horas ou dias.

As erupções reais, explicam, frequentemente desenrolam-se ao longo de semanas ou meses.

Outra crítica que lançam aos filmes hollywoodescos sobre vulcões é a presença assídua de lava que escorre rapidamente. “A lava vermelha brilhante que corre a toda a velocidade, visualmente impressionante, não corresponde à realidade dos tons cinzentos baços associados à atividade eruptiva típica dos estratovulcões” explicam, aqueles que mais frequentemente aparecem nos filmes por causa da sua “reconhecível forma cónica”.

Estes vulcanólogos criticam também o facto de muitas vezes os cientistas que protagonizam os filmes sobre vulcões serem retratados como “super-heróis” dotados de ferramentas e capacidades para fazer previsões precisas. “A verdadeira vulcanologia”, esclarecem, “é muito mais incerta”.

Ainda, lamentam que os filmes tendam a deixar as comunidades em segundo ou terceiro plano, reduzindo-as a massas histéricas ou a vítimas passivas. Os investigadores entendem que isso ignora a importância que os residentes, as equipas de emergência e autoridades locais têm em verdadeiras crises vulcânicas.

Apesar de tudo isso, os autores deste estudo acreditam que, ainda assim, é possível fazer filmes apelativos sobre vulcões sem sacrificar a precisão científica. E, a título de exemplo, apontam os documentários como “exemplos que, com sucesso, conseguem captar o suspense resultante da agitação prolongada, da incerteza e do processo de tomada de decisões humano”.

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