A forma como os animais veem o mundo à sua volta tem sido uma das áreas de grande interesse científico da humanidade. Os insetos têm um lugar especial, uma vez que os seus aparelhos visuais podem ser radicalmente diferentes do da nossa espécie.
No que toca às abelhas, muito do que se sabe sobre a sua visão advém de estudos sobre as abelhas-do-mel (Apis mellifera), apenas uma das cerca de 20 mil espécies conhecidas. Por isso, uma equipa de investigadores liderada pela Universidade de Lund (Suécia) quis ampliar o conhecimento sobre a visão das abelhas, estendendo o estudo a mais espécies com o objetivo de obter uma imagem mais clara que reflita a diversidade de formas como esses insetos veem o mundo.
A equipa analisou as capacidades visuais de abelhões-terrestres (Bombus terrestris) e de três espécies de abelhas solitárias: Anthophora quadrimaculata, Amegilla murrayensis e Anthidium manicatum. Ao registarem os sinais elétricos de células individuais sensíveis à luz nos olhos das abelhas, os cientistas conseguiram estimar qual o tamanho mínimo de um objetivo que esses insetos conseguem detetar e qual a precisão da sua resolução visual.
Num artigo publicado na revista ‘PNAS’, os investigadores revelam que todas as quatro espécies abrangidas por este trabalho apresentam uma resolução visual superior nas células examinadas do que as obreiras de abelhas-do-mel. Ou seja, conseguem ver imagens mais nítidas e pormenorizadas do que a espécie de abelha mais estudada do mundo.
A equipa destaca uma espécie em particular, a Amegilla murrayensis, uma abelha que se distingue por ter bandas azuladas no seu abdómen. Elisa Rigosi, primeira autora do estudo, diz que essa espécie, durante as experiências em laboratório, apresentou uma resolução visual idêntica à dos machos das abelhas-do-mel (os zangões), “apesar de ser muito mais pequena”.
Os zangões têm uma visão excecional, aponta a equipa, pois, tendo como função a reprodução, precisam de ver muito bem para encontrarem as abelhas-rainhas no meio de exames numerosos.
Assim, os cientistas referem que ter olhos maiores não é necessariamente o mesmo que ter uma visão mais precisa, como demonstrado pela pequena Amegilla murrayensis. Os resultados sugerem, aponta a equipa, que as abelhas desenvolveram, ao longo dos respetivos percursos evolutivos, diferentes soluções para conseguirem capacidades visuais de alta qualidade.
“Não existe uma fórmula única para uma boa visão nas abelhas”, esclarece David O’Carroll, principal coautor deste artigo. “Diferentes espécies desenvolveram combinações diferentes de características que proporcionam um elevado desempenho visual”, acrescenta.
Os investigadores consideram que este estudo vem aprofundar o conhecimento sobre a evolução da visão nas abelhas e também noutros polinizadores, e mostrar o que se pode estar a perder ao focar apenas em poucas espécies.
“A visão das abelhas é muito mais diversificada do que antes se pensava”, sentencia Rigosi.









