O formato do focinho dos cães pode afetar a função cerebral e a forma como dormem

Uma equipa de investigadores da Hungria revela que os focinhos achatados, embora esteticamente apelativos para algumas pessoas, têm consequências negativas para o animal, designadamente em termos da morfologia do cérebro, de dificuldades respiratórias e de problemas de sono.

Filipe Pimentel Rações

Os cães com focinho mais achatado parecem ser, nos dias que correm, os preferidos por aqueles que seguem as tendências, mesmo no que diz respeito a animais de companhia.

O buldogue-francês, por exemplo, é uma raça que se vê um pouco por todo o lado, e o fenómeno dos cães com focinhos mais curtos, ou braquicéfalos, também já ‘contagiou’ Portugal.

Num artigo publicado na revista ‘Brain Structure & Function’, uma equipa de investigadores da Hungria revela que os focinhos achatados, embora esteticamente apelativos para algumas pessoas, têm consequências negativas para o animal, designadamente em termos da morfologia do cérebro, de dificuldades respiratórias e de problemas de sono.

De acordo com os investigadores, cães com caras achatadas tendem a viver, em média, menos três a quatro anos do que outros tipos de cães e “frequentemente não chegam à idade adulta”, dizem em comunicado.

Mas a equipa quis mergulhar mais a fundo na questão do sono. Para isso, analisou a forma como 92 cães dormem, recorrendo para tal à encefalografia.

“Queríamos investigar se os cães com caras achatadas dormem de forma diferente de outros cães, pois sabe-se que sofrem de privação de oxigénio devido a problemas respiratórios e, por isso, têm, uma menor qualidade de sono”, explica Zsófia Bognár, da Universidade Eötvös Loránd e uma das autoras do artigo.

Naquilo a que chamam de “laboratório do sono”, descobriram que os cães de focinho achatado tendem a dormir mais horas durante do dia do que os outros, sugerindo que essa é uma forma de compensar o sono atribulado durante a noite.

Ao estudarem fase REM do sono dos cães, em que a atividade cerebral é quase tanta como quando estamos acordados, mas o nosso corpo não se mexe (atonia muscular), percebeu-se que os cães de focinhos achatados, durante o sono, apresentavam um padrão de ondas cerebrais que sugere uma menor capacidade de aprendizagem, comparativamente a outros cães.

“Parece que os cães com focinhos achatados retiveram os padrões de sonos de quando eram cachorros, semelhante a recém-nascidos que passam mais tempo em sono REM”, aponta Enikő Kubinyi, outra das autoras do artigo.

A etóloga húngara considera que a seleção artificial de cães braquicéfalos, com “cabeças e olhos grandes, testas altas e narizes pequenos”, acontece porque os “nós, humanos, achamos esses traços irresistivelmente atrativos”. E esses traços fazem com que os cães, mesmo em adultos, continuem a ter um ar de cachorro.

Por isso, Kubinyi diz que “é possível que a seleção de cães para terem uma aparência mais de cachorro tenha também infantilizado a sua função cerebral”. Ainda assim, a investigadora assume que isso é, para já, especulação, e o que se sabe ao certo é que o formato da cabeça dos cães braquicéfalos “leva a alterações potencialmente prejudiciais na função cerebral”.

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