Se existisse um serviço de streaming para macacos, é provável que a lista de visualizações contivesse muitos dos conteúdos que um humano também teria na sua conta.
Uma equipa de investigadores dos Países Baixos e dos Estados Unidos da América revela, num artigo publicado recentemente na revista ‘Animal Cognition’, que os macacos-caranguejeiros (Macaca fascicularis) e os humanos parecem ser atraídos pelos mesmos tipos de conteúdos de vídeos: imagens de conhecidos e de conflitos.
“Os humanos e os macacos são ambos animais sociais que têm uma necessidade fundamental de pertença”, afirma, em nota, Brad Bushman, professor na Universidade Estadual do Ohio e um dos principais autores do estudo.
“Não é surpreendente que ambos se interessem mais por conteúdos de vídeo que possam ajudá-los a navegar as relações nos seus grupos”, acrescenta.
A equipa mostrou vídeos de dois minutos a 28 macacos-caranguejeiros que vivem num centro de investigação nos Países Baixos. Os animais viram imagens de elementos do seu grupo ou de desconhecidos, num de quatro contextos: conflito, a cuidarem da pelagem uns dos outros (ou ‘grooming’), a correrem ou simplesmente sentados.
Com base no tempo que os macacos passaram a olhar para os vídeos, os cientistas concluíram que os conflitos são o que mais lhes capta a atenção. Macacos a correr são a segunda preferência, e o ‘grooming’ e ver macacos sentados sem fazer nada parece ser o menos entusiasmante.
Bushman diz que tanto macacos como humanos são atraídos pelos mesmos tipos de vídeo. “Há muitas investigações que mostram a popularidade de conteúdos violentos junto dos humanos”, aponta, acrescentando que “agora temos algumas evidências de que outros primatas poderão também ser atraídos por conflito e agressão em vídeos”.
“Do ponto de vista da evolução, faz sentido. Tanto os humanos como outros animais podem estar programados para prestar atenção à agressão, porque esse é uma resposta adaptativa que aumenta a sobrevivência.”
A investigação revela também que os macacos prestam mais atenção a vídeos que protagonizam indivíduos que conhecem do que estranhos, algo que Elisabeth Sterck, da Universidade de Utrecht e primeira autora do estudo, entende como sendo sinal de que “adquirir informação social sobre membros do grupo é mais importante do que obter informação sobre estranhos”.
Além de todas essas descobertas, percebeu-se que os macacos menos agressivos, e mais abaixo na hierarquia social do grupo, prestam mais atenção aos vídeos do que os indivíduos mais dominantes.
Sterck considera que os macacos mais agressivos e que mais dominam socialmente estão mais confiantes de que os conflitos não lhes tocam, por estarem mais acima na “cadeia de comando” e por terem dado já provas de que não são alguém com quem outros se devem meter.
“Os indivíduos de nível inferior podem tornar-se vítimas de agressão e pode ser por isso que prestam mais atenção ao que outros estão a fazer nos vídeos”, diz a especialista em comportamento animal.
“Os macacos são animais muito visuais. A sua visão é semelhante à dos humanos e têm um grande interesse em ver vídeos”, refere Sterck.
Bushman, por seu lado, entende que os resultados ajudam a aprofundar o conhecimento que temos sobre a nossa própria espécie, especialmente sobre o que mais nos capta a atenção.
“Mesmo esta breve exposição a conteúdos agressivos captou a atenção dos macacos no estudo. Quando vemos isso em alguns dos nossos parentes primatas mais próximos, é fácil ver por que razão os humanos estão tão interessados em conteúdos violentos”, sublinha.









