Abetarda: A rainha das estepes que está em risco de ser deposta



Em tempos abundante um pouco por todo o Alentejo, sendo símbolo da rica fauna regional, a abetarda hoje é uma espécie altamente ameaçada por um “turbilhão de fatores” que a empurram cada vez mais para o limiar da extinção. Se nada mudar, é possível que essa imponente ave estepária desapareça em 20 anos ou menos.

 

Pouco passa das nove da manhã. Estamos a 24 de abril, mas as terras em Castro Verde estão húmidas das chuvas sazonalmente invulgares dos dias anteriores. Eu e Rita Alcazar, bióloga e coordenadora da ação da Liga para a Protecção da Natureza (LPN) nessa região alentejana, estamos de pé na parte de trás da carrinha de caixa aberta, a olhar através de uma lente telescópica.

A toda a nossa volta, a peneplanície (uma formação topológica que parece uma planície mas tem pequenas elevações, muitas vezes impercetíveis, sobretudo à distância) está coberta por “tapetes” esverdeados de searas misturadas com pastagens, pontilhados por manchas coloridas de flores amarelas e róseas, um tipo de habitat semiárido conhecido como pseudoestepe, uma vez que se assemelham às verdadeiras estepes, mas foram moldadas pelas práticas agrícolas e pecuárias humanas ao longo de vários séculos. Em Portugal, esses habitats humanizados correspondem a sistemas agrícolas extensivos com rotação entre culturas cerealíferas de sequeiro e áreas de pousio e de pastagens.

Estamos em busca de um animal singular na fauna portuguesa, tanto em termos de aspeto como de comportamento. Ao fim de alguns minutos a perscrutar a paisagem circundante, Rita Alcazar faz-me sinal para me aproximar e olhar através do telescópio. Sorrio. A quase meio quilómetro de distância, um grupo de cinco machos de abetarda (Otis tarda) é visível contra a vegetação com cerca de um ou dois palmos de altura.

Grupo de cinco abetardas macho em peneplanície de Castro Verde. Em plano mais afastado, um macho em dança nupcial. Foto: Filipe Pimentel Rações

Tal como em muitas outras espécies de aves, nas abetardas há um marcado dimorfismo sexual, ou seja, machos e fêmeas, quando adultos, têm traços físicos externos (caracteres sexuais secundários) que distinguem bem um sexo do outro.

Ambos, quando no solo e com as asas recolhidas, têm uma plumagem de tonalidades pardacentas que misturam o branco com vários gradientes de castanho. Contudo, além de terem quase o dobro do peso das fêmeas, os machos têm pescoços mais longos e de cor de ocre e contrastes mais marcados, ao passo que as fêmeas têm uma plumagem mais discreta, que lhes confere um grau acrescido de camuflagem e de proteção, sobretudo quando estão a incubar os ovos por entre a vegetação, de tal forma que, como diz Rita Alcazar, “as fêmeas só as vemos mesmo quase em cima delas”.

As abetardas têm dimensões semelhantes às de um peru, embora possam ser maiores (especialmente os machos) e tenham patas mais altas, pois esta é uma ave cuja locomoção é feita sobretudo no solo, “pata ante pata”. A conjugação dos corpos roliços e robustos com umas pernas longas e uma passada plácida e quase régia, dá-lhes um ar de monarca europeu do século XVI passeando-se pela corte do palácio, com um peito protuberante e pernas cobertas por meias justas. Curiosamente, a abetarda é por vezes chamada de “a rainha das estepes”.

Além do tamanho e da plumagem, os machos têm uma outra característica distintiva. Na parte inferior do bico, têm “bigodes”, que nada mais são do que penas modificadas, que têm apenas o tronco principal, ou ráquis, e não têm os filamentos oblíquos, conhecidos como barbas, que lhes dariam o aspeto tradicional da pena com a qual estamos mais familiarizados.

Durante os rituais de acasalamento, as chamadas paradas nupciais, esses bigodes, que costumam estar projetados para trás, são elevados acima do bico da ave, quase na vertical, e as suas caudas são erguidas numa espécie de leque emplumado, ajudando a tornar o macho ainda mais impressionante.

Não é habitual no final de abril ainda se poder avistar paradas nupciais, mas as chuvas atípicas que marcaram o arranque da época primaveril, reflexo das convulsões climáticas com que o planeta Terra se digladia, parecem ter atrasado os calendários biológicos das aves.

As abetardas, tal como os sisões e os tartaranhões-caçadores, são o que os biólogos chamam de aves estepárias, espécies que habitam em grandes áreas de campo aberto e de suaves relevos – imagine o leitor as peneplanícies alentejanas de que há pouco falámos – caracterizadas por mosaicos de searas, pastagens, restolho e áreas de pousio. A vegetação herbácea pouco alta permite às abetardas deslocarem-se sem grandes dificuldades pelo território e, ao mesmo tempo, fornece proteção e esconderijo aos seus ovos, pois esta espécie nidifica diretamente no solo, em pequenas depressões criadas pelas progenitoras.

As abetardas são também conhecidas como as “rainhas das estepes”. Foto: Nuno Lecoq.

É uma ave que aprendeu a viver lado a lado com os humanos, adaptando-se à expansão da presença da nossa espécie nos seus habitats ancestrais e a tirar partido das culturas agrícolas extensivas e das práticas tradicionais a elas associadas, tais como o pousio. Devido à fraca produtividade dos solos alentejanos, existem poucas machas florestais, com predominância de uma cobertura arbórea espaçada e desafogada, uma característica bastante apreciada pelas abetardas, especialmente durante o período de acasalamento, em que os machos precisam de espaços amplos e de grande visibilidade para conquistarem parceiras.

Contudo, o que em tempos era de uma forma, hoje não o será, pelo que as abetardas enfrentam atualmente uma miríade de ameaças que estão a empurrar a espécie para o limiar da extinção em Portugal.

Danças de amor e sobrevivência

Quatro dos machos de abetarda debicam tranquilamente o solo, muito provavelmente em busca de sementes, grãos, plantas, frutos ou pequenos insetos, que constituem parte significativa das suas dietas. O quinto elemento, por outro lado, está ocupado com uma performance de arregalar a vista.

Afastado umas dezenas de metros dos restantes, este macho parece um balão insuflado coberto de plumas de um branco imaculado que esvoaçam na leve brisa matinal, ainda fresca. Está a tentar captar a atenção de uma fêmea, que se tinha mantido praticamente invisível aos meus olhos, até se começar a dirigir, lentamente, em direção ao artista, aparentemente atraída pelos dotes performáticos do macho.

Nem todos os machos dançam ao mesmo tempo. Apenas um, dos cinco que conseguia ver através da lente telescópica, se agitava de um lado para o outro, de penas ondulantes. Embora normalmente os mais velhos tenham direito a exibir-se mais do que os outros, não é incomum os machos lutarem entre si para decidirem quem está no topo da hierarquia masculina. Quando não estão em plena dança, “a dar tudo”, que só acontece quando sabem que há uma fêmea por perto, explica-me Rita Alcazar, os machos ou estão ocupados com outros afazeres, como a procurar alimento e a cuidar das suas penas, ou fazem o que ela chama de “coreografias de ensaio”, performances mais discretas em jeito de preparação para a grande atuação, quando for a sua vez de ocupar o palco.

Abetarda macho em “traje nupcial”. Foto: Iván Vasquéz.

Toda esta vibrante dinâmica começa entre o final do inverno e o início da primavera, altura em que machos e fêmeas começam a juntar-se em locais específicos, normalmente áreas com vegetação rasteira, sem árvores ou arbustos e, por isso, com grande visibilidade. (De que serviriam as suas danças nupciais se não pudessem ser bem vistas pelas potenciais parceiras?) As paradas nupciais não acontecem sempre nos mesmos locais de ano para ano, dependendo do que está plantado, mas tendem, ainda assim, a ocorrer nas mesmas áreas.

Durante o resto do ano, os dois sexos não se cruzam, formando grupos separados: “machos para um lado, fêmeas e crias para o outro”, diz-me Rita Alcazar. Depois da cópula, o macho sai de cena, cabendo exclusivamente à progenitora a responsabilidade da incubação e do cuidado das crias.

Os machos têm no seu longo pescoço umas “bolsas” de pele de uma cor castanha-avermelhada que, quando em exibição nupcial, incham para parecerem ainda maiores e mais formidáveis. Com sons guturais que fazem lembrar “uma pessoa na casa-de-banho”, como descreve Rita Alcazar, e com as penas reviradas, graças a articulações que permitem à ave expor a parte branca da superfície inferior das suas asas, os machos de abetardas “dançam” para as fêmeas, dando passos de um lado para o outro e de trás para a frente, rodando sobre si próprios e agitando exuberantemente a sua plumagem. Elas vão passando, com ar de desinteresse ao nosso olhar humano (como quando vamos “ver montras” num centro comercial para passar o tempo), até, por fim, escolherem aquele que mais as agrada. Contudo, o que é que as fêmeas mais apreciam num macho é ainda um mistério para os cientistas – “é difícil de descortinar o que lhes vai na cabeça”, admite Rita Alcazar – embora se possa especular que tendem a preferir os mais velhos, pois, tendo sobrevivido durante mais tempo, devem, à partida, ter os melhores genes, aqueles que darão às crias as melhores hipóteses de sobrevivência.

E essa escolha pode mesmo determinar o futuro da espécie, uma vez que está em declínio acentuado e continuado ao longo da última década, embora, outrora, tenha sido relativamente comum em todo o Alentejo, com memórias ainda vivas de gentes dessa região. O meu avô, nascido em Serpa, ainda se lembra de ter vizinhos que caçavam abetardas e de ter experimentado a sua carne, e que era uma importante fonte de alimento, por ser um animal grande que servia de sustento a muitas famílias.

No final dos anos de 1960, a caça à abetarda foi interditada, mas a ave continua a ser um símbolo da região, especialmente no município de Castro Verde, como é notório, por exemplo, no logótipo do Motoclube de Castro Verde, nas insígnias do grupo Amigos Motards, do Clube de Caçadores e da Freguesia de Entradas, e no brasão da Freguesia de São Marcos de Atabueira. A abetarda está também presente, em forma de uma pequena estatueta, no jardim em frente à Câmara Municipal de Castro Verde, encimando o brasão da vila em azulejo, e dois exemplares embalsamados, um macho e uma fêmea, têm lugar de destaque no átrio dos paços do concelho castro-verdense, mesmo à entrada, pelo que toda e qualquer pessoa que cruze as portas principais do edifício terá, inevitavelmente, de dar de caras com as majestosas aves.

Casal de abetardas taxidermizadas que estão em exibição no átrio do edifício da Câmara Municipal de Castro Verde. Crédito: Filipe Pimentel Rações.

Poucos dias antes da minha visita, Rita Alcazar tinha coordenado mais um censo da população de abetardas em Castro Verde, onde, desde o início deste século, reside mais de 80% da população nacional da espécie.

Embora os principais núcleos reprodutores há várias décadas estejam circunscritos sobretudo ao Alentejo, e em áreas cada vez menores que ainda vão conseguindo reter habitats pseudoestepários minimamente adequados, as abetardas viveram noutras zonas do país. Num artigo publicado em 2005 na revista científica Biological Conservation, os investigadores Márcia Pinto, Pedro Rocha e Francisco Moreira diziam que entre 1980 e 2002 foram registadas oito extinções locais de abetardas em Castelo Branco, Safara, Sousel, Borba, Póvoa e Meadas, Monsaraz, Ferreira e Estremoz.

Há 23 anos, Castro Verde já era o local com a maior concentração de abetardas do país, o principal baluarte da espécie em Portugal, mas grupos significativos podiam ainda ser encontrados em Vila Fernando, no município de Elvas, em Campo Maior, no município de Portalegre, e em Évora.

No entanto, a história da abetarda, e do seu declínio, não é linear. Em 1997, Castro Verde não tinha mais de 500, mas em 2002 já se contavam perto de 900 e em 2012 a população local rondava as 1.400 aves, “o pico máximo” da espécie na região, aponta Rita Alcazar. Esse crescimento ter-se-á devido, pelo menos em parte, à grande presença de áreas agrícolas de cereais e de pousio e à predominância de culturas de sequeiro, comparativamente com outras regiões alentejanas, levando a uma presumível maior concentração de abetardas nesse local, porventura com a chegada de aves vindas de outras paragens onde as condições do habitat se deterioraram devido a mudanças nas práticas agrícolas, com maior incidência de culturas permanentes e de regadio.

No mais recente censo, Rita Alcazar conta-me que foram contadas não mais do que 500 abetardas em Castro Verde, “um decréscimo muito, muito acentuado”, diz com desalento, significando uma redução de mais de metade em pouco mais de 10 anos. Sendo que Castro Verde tem a maioria da população nacional de abetardas, uma perda desta dimensão pode vir a ditar a sobrevivência da espécie no país.

Se noutros tempos, e não há muitas décadas, era relativamente fácil, com paciência, astúcia e prudência, observar abetardas em Castro Verde, hoje é muito mais difícil e “já não é garantido”, pelo que o facto de ter conseguido vê-las numa primeira tentativa foi um golpe de sorte (ou talvez não tanto pois estava acompanhado por Rita Alcazar, que há mais de 20 anos estuda a avifauna castro-verdense e sabe quando e onde elas estão mais ativas). Como se não bastasse, ter sido capaz de observar paradas nupciais em pleno fulgor foi nada menos do que um autêntico privilégio, ciente do doloroso facto de que as abetardas em contexto selvagem, ocupadas com as suas vidas, embrenhadas nas suas danças amorosas e empenhadas na sobrevivência das suas crias, é uma visão cada vez mais rara.

Antes de sair do ovo

Mesmo antes de eclodirem, as abetardas já enfrentam ameaças à sua sobrevivência. Uma das grandes dificuldades da conservação desta e de outras espécies estepárias, como o sisão e o tartaranhão-caçador, é garantir que os seus ninhos, feitos no solo, não são perturbados nem destruídos.

As fêmeas preferem fazer os ninhos em pastagens naturais, mas em anos mais secos podem também fazê-los em campos cultivados com cereais e forragens. O pico de nascimentos de crias de abetarda tende a acontecer entre final de abril e início de maio, propiciando uma coincidência desastrosa entre a colheita dos fenos e a época da nidificação das aves.

Existem medidas agroambientais, como as que derivam da Política Agrícola Comum europeia, que têm como objetivo incentivar os agricultores a adiarem as colheitas, através de contrapartidas financeiras, e a manterem a rotatividade das culturas, reduzindo a atividade agrícola durante o período crítico que é a época da reprodução.

Contudo, as medidas são voluntárias e, mesmo para aqueles que as elas adiram, nada garante que, num determinado ano, participem nela. É por isso que Rita Alcazar destaca a importância dos 1.700 hectares de terreno adquiridos pela LPN durante os anos noventa em Castro Verde (ainda antes da constituição da Zona de Proteção Especial em 1999) para estimular a coexistência entre a agricultura e a conservação da biodiversidade, em particular da avifauna.

Habitat de pseudoestepe nas peneplanícies de Castro Verde: A casa das abetardas. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Nesse tempo, já se sabia que Castro Verde era uma importante área para as aves estepárias. Contudo, desenhavam-se planos para converter as terras abandonadas e pouco produtivas em florestas de eucaliptos para produção de celulose “como sendo uma melhor fonte de rendimento face à baixa produtividade agrícola que estes solos aqui tinham”, recorda Rita Alcazar, e a LPN queria impedir que se perdessem esses habitats vitais para as aves.

Ao longo de 30 anos, a colaboração entre a LPN, a Câmara Municipal de Castro Verde e a Associação de Agricultores do Campo Branco (a designação de “Campo Branco” refere-se às extensas paisagens de cereais de sequeiro que incluem as planícies de Castro Verde) tem permitido, de alguma forma, manter a paisagem cerealífera, ou de pseudoestepe, de que o futuro das abetardas depende.

Embora seja uma parte fundamental da equação da sobrevivência das abetardas, as práticas agrícolas não são o único fator de peso. Também as alterações climáticas deixam as suas marcas. Em anos extraordinariamente secos (e as previsões apontam para um Alentejo com cada vez menos água), a vegetação de que as abetardas dependem para se alimentar e para esconder os seus ovos não dura ou nem chega a crescer à altura de que elas precisam, deixando os ovos vulneráveis à predação.

Ademais, com o calor a chegar mais cedo com cada ano que passa, há a tendência para antecipar as colheitas, aumentando os riscos para os ninhos. Empoleirados na caixa aberta da carrinha pick-up, aqui e ali víamos fardos de feno, com grandes formas cilíndricas ou em paralelepípedos, cortados poucos dias antes da minha visita e em plena época de reprodução das abetardas.

Nos cerca de 80 mil hectares da Zona de Proteção Especial (ZPE) de Castro Verde, perto de 35 mil agricultores aderiram à medida agroambiental que protege os ninhos das abetardas (e não só), no que Rita Alcazar descreve como um “momento alto de adesão”. Ainda assim, reconhece que dentro da ZPE há muitos outros terrenos privados “onde ainda se mantêm algumas práticas que não são das melhores”.

Oriunda de Lisboa, mas há duas décadas a viver em Castro Verde (no seu discurso detetam-se muitas notas daquilo a que chamamos “o sotaque alentejano”), a bióloga reconhece o empenho da generalidade dos agricultores, e da restante população, em ser parte ativa dos esforços de proteção e conservação das abetardas, ave-ícone da região, e de outras espécies estepárias.

“Como em tudo na vida, há pessoas que colaboram mais e outras que não colaboram, mas, no geral, as pessoas empenham-se e tentam ajudar naquilo que está ao alcance delas.”

Em 2013, os cientistas Francisco Moreira e Pedro Rocha, desta vez em coautoria com Manuel Morales, publicaram um artigo na Bird Conservation International no qual destacavam a maior taxa de sobrevivência dos ninhos e de nascimentos de crias em Castro Verde, comparando com outros locais onde as abetardas, à altura, nidificavam, como Villafáfila, em Espanha, e a região de Saratov, na Rússia.

Os autores diziam que esse sucesso de nidificação poderia, em parte, resultar “das medidas de gestão do habitat aplicadas na ZPE de Castro Verde durante os últimos 15 anos”, fruto de projetos de conservação e de políticas agroambientais “para promover uma gestão agrícola compatível com a conservação das aves”.

Quando as crias deixam os ninhos

À semelhança das perdizes, as abetardas são o que os biólogos chamam de “nidífugas”: mal saem dos seus ovos, após 20 ou 30 dias de incubação, as crias estão logo aptas a caminhar e a deixar os ninhos no solo. Não são ainda independentes, sendo alimentadas pelas progenitoras durante os primeiros dois ou três meses de vida, até aprenderem a voar, mas, ao contrário das crias de aves como as águias e os abutres, as pequenas abetardas não ficam no ninho à espera que a progenitora lhes venha trazer comida.

Mal abrem os olhos para o mundo, as abetardas estão em movimento. O aumento da intensidade e da frequência de fenómenos climáticos extremos, como secas e ondas de calor, é um dos grandes perigos que as crias, e também os adultos, têm de enfrentar logo desde o primeiro dia de vida num planeta em transformação. A fragmentação do território com a colocação de vedações agrava ainda mais as ameaças em situações de seca, uma vez que as crias que não voam não têm como transpô-las, impedindo-as de, seguindo a progenitora, acederem a locais de alimentação e com água.

Fruto do trabalho próximo e de longa data com associações de agricultores da região, a LPN tem conseguido criar algumas “passagens” em vedações, para que as pequenas crias possam continuar caminho, dando-lhes uma maior probabilidade de sobrevivência.

As abetardas alimentam-se sobretudo de sementes, grãos, plantas, frutos e pequenos insetos. Foto: Nuno Lecoq.

E esses fenómenos climáticos não apenas afetam diretamente as crias como também intensificam outro tipo de pressão: a predação. Com a falta de alimento provocada pela secura das terras, outras espécies de animais, especialmente generalistas que se aproveitam das oportunidades de alimentação que tiverem, veem-se forçadas a procurar outras fontes de nutrientes.

Saca-rabos, raposas, corvos, aves de rapina e até cegonhas predam crias de abetarda, e de outras aves estepárias, quando outros alimentos escasseiam. Talvez seja estranho ler o nome das cegonhas nesta lista de predadores, mas há uma razão.

Ao contrário de aves predadoras como as águias, as cegonhas não têm modos de vida predatórios, não andam intencionalmente à procura de presas, mas se surgir a oportunidade para se alimentarem de um ovo ou de uma cria de abetarda (ou de perdiz), não a deixarão passar.

Castro Verde é uma das regiões com mais cegonhas em Portugal, e embora a elas possamos associar imagens inofensivas e benévolas de transportadoras aladas de bebés, facto é que também comem outros animais, se a oportunidade surgir.

O aterro sanitário de Beja é uma das razões pelas quais há em Castro Verde tantas cegonhas. Com uma maior disponibilidade de alimento, não precisam de se lançar em grandes, exaustivas e perigosas migrações para terras longínquas, “ficando por cá o ano inteiro”, diz a bióloga. “A verdade é que é uma espécie oportunista que se alimenta do que encontra”, explica, incluindo crias muito pequenas e ainda indefesas de abetardas, coelhos, perdizes e peneireiros, mas não as caça ativamente.

Dessa forma, com um quadro climático a agravar-se de ano para ano, a predação, especialmente de ovos e de crias, poderá aumentar e a população de abetardas tenderá a ficar cada vez mais envelhecida, com mais indivíduos mais velhos e menos indivíduos mais novos.

Esse fenómeno demográfico, fruto não só da predação, mas também da perda de ninhos e habitats por causa de práticas agrícolas menos favoráveis, tem resultado no menor recrutamento de jovens abetardas para a população local, explica Rita Alcazar, o que “tem também causado o menor número de abetardas que temos vindo a registar nos últimos cinco anos, mais ou menos”.

Pseudoestepes em risco

Após vários minutos a observar o grupo de abetardas, voltámos a entrar na carrinha, para tentar vê-las de outro ponto. Uns poucos metros mais à frente do local onde nos encontrávamos, deparamo-nos com um portão de ferro com as letras “LPN”, que marcava a entrada para uma das seis propriedades, todas dentro da ZPE de Castro Verde, que a organização não-governamental adquiriu para promover a conservação da fauna local, especialmente de espécies de aves estepárias, como a abetarda, o tartaranhão-caçador e o sisão. Todas elas fazem ninhos no solo, pelo que estão todas sujeitas às mesmas principais ameaças.

Assim, preservar as práticas agrícolas tradicionais que criaram e permitem manter as pseudoestepes é fundamental, mas é igualmente indispensável tentar travar o avanço de outros tipos de usos do solo que agravam ainda mais a situação já precária das aves estepárias.

No Alentejo, o abandono de culturas anuais e rotativas, alicerçadas em regimes de sequeiro, por culturas permanentes e intensivas, suportadas pelo regadio, tem vindo a reduzir as áreas com as condições adequadas à vida das abetardas e outras aves que partilham os seus habitats.

Nas áreas de cultura intensiva que se espalham pelas peneplanícies alentejanas, especialmente os olivais e os amendoais, as plantas formam mancham densas que não permitem que as abetardas se consigam deslocar devidamente. Além disso, as abetardas, por serem pesadas e grandes, precisam de espaços abertos para poderem ganhar balanço antes de levantarem voo e de zonas desimpedidas para poderem aterrar em segurança. Por isso, com a perda das estepes cerealíferas para culturas permanentes e intensivas, há também uma real perda de habitat para as aves estepárias, entre elas a abetarda.

Castro Verde visto a partir da Ermida de Nossa Senhora de Aracelis, na fonteira com Mértola. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Essa expansão da agricultura intensiva e permanente tem sido alimentada sobretudo pela água da barragem de Alqueva. No Anuário Agrícola de Alqueva de 2024, destaca-se, em linha com anos anteriores, o “aumento constante do peso das culturas permanentes, especialmente olival”, e a “consequente diminuição do peso das culturas anuais”.

Por outro lado, estima-se que as áreas de cultivo de cereais no Alentejo, uma importante componente dos habitats das abetardas, tenham perdido cerca de 13 mil hectares nos últimos 10 anos, com o Instituto Nacional de Estatística a calcular que a área semeada de cereais na região ronda agora os 67 mil hectares.

A perda progressiva das culturas de cereais deve-se, pelo menos em parte, “[à] baixa rentabilidade económica das culturas cerealíferas face a outras culturas de maior valor acrescentado, como o olival, o amendoal e as frutícolas intensivas, que se têm expandido rapidamente na área de influência de Alqueva”, lê-se no relatório.

Mas não é só a transformação das práticas agrícolas que causa perda de habitat. O movimento global da transição energética cria, por vezes, efeitos locais menos positivos, com grandes extensões de parques fotovoltaicos a cobrirem áreas que poderiam ter sido deixadas à conservação das aves estepárias, empurrando-as para zonas cada vez mais pequenas e agudizando as previsões sobre os seus futuros.

As abetardas podem lançar-se aos céus e procurar novos locais, com condições mais propícias à sua existência – e têm-no feito, concentrando-se, por exemplo, em Castro Verde – mas mesmo no ar continuam a existir perigos.

Um golpe de asa

Depois de abrir o portão de ferro que dá para uma das propriedades da LPN em Castro Verde, Rita Alcazar volta a sentar-se atrás do volante e leva-nos, aos solavancos, por um caminho tortuoso de terra. Paramos. De binóculos cravados nos olhos, avistamos, novamente, as abetardas. O macho dançante ainda em “traje” nupcial, ou “arrufado”, como dizem no Alentejo. De súbito, uma sombra corre sobre a vegetação e, segundos depois, uma abetarda pousa.

Apesar das suas dimensões corporais, as abetardas conseguem voar (podem medir até 2,60 metros da ponta de uma asa à ponta da outra). As populações de abetardas em Portugal são residentes, pelo que estão por cá o ano todo, ao contrário de núcleos na Europa oriental e na Ásia que fazem migrações sazonais. Mas, ainda assim, a abetardas “portuguesas” são capazes de percorrer vários quilómetros a diversos metros acima do solo (já foram registados movimentos de abetardas de Castro Verde até às lezírias do Rio Tejo). A abetarda é considerada a ave voadora mais pesada da Europa, e de Portugal, claro, e a segunda voadora mais pesada do mundo, perdendo o primeiro lugar apenas para a sua prima africana, a abetarda-gigante (Ardeotis kori).

As suas grandes asas são muito semelhantes às das cegonhas: maioritariamente brancas com uma banda preta na metade posterior. Embora não façam voos muitos longos, pensa-se que possam, ainda assim, percorrer várias dezenas de quilómetros de uma só vez, com paragens entre a origem e o destino para descansarem e recuperarem energias.

Abetarda a pousar, com as suas grandes asas estendidas, que podem medir até 2,60 metros de envergadura. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Além das ameaças que enfrentam no solo, as abetardas também estão em risco no ar. As colisões com linhas elétricas são a principal causa de morte não natural de abetardas, e também de sisões.

Num esforço conjunto, que já vem do projeto LIFE Estepárias de 2009, a EDP e a LPN têm colocado dispositivos de sinalização em várias linhas elétricas em Castro Verde. Ao percorrer as estradas com Rita Alcazar, vi dispositivos anti-colisão que dançavam empurrados pelo vento que se começava a levantar com o avançar do dia, zumbindo e chocalhando.

Com essa medida, os conservacionistas querem diminuir as colisões, e as mortes daí resultantes, de abetardas e outras aves, que, em voo, não são capazes de detetar esses obstáculos.

“As linhas elétricas são um problema enorme para as abetardas, porque elas têm uma péssima visão frontal e não as veem”, diz-me Rita Alcazar. Se o leitor se quiser colocar no lugar de uma abetarda, coloque uma mão em frente à cara, com o centro da palma colado ao nariz. É assim que a abetarda vê o mundo à sua volta. Além disso, a sua visão é melhor ao perto e não tão boa a distinguir formas, ou obstáculos, ao longe, pelo que quando dá conta do perigo pode ser tarde demais.

Mesmo que consigam contornar esses obstáculos, que vão aumentando, por exemplo, devido à expansão de empreendimentos de energias renováveis que requerem linhas de distribuição, as abetardas podem acabar por ter de aterrar em áreas não protegidas, aumentando a sua exposição a ameaças.

No “fio da navalha”

As abetardas estão classificadas, em Portugal, como “Em Perigo” de extinção, com uma tendência populacional em queda livre. Se as condições atuais persistirem – efeitos das alterações climáticas e perda de habitat fruto da expansão das culturas intensivas e permanentes – tudo leva a crer que a espécie poderá desaparecer em 20 anos, senão mesmo antes.

Ainda assim, baixar os braços não pode ser uma opção. Rita Alcazar diz que é “absolutamente essencial” continuar a manter e a proteger as áreas que ainda apresentam as condições adequadas às abetardas e onde elas ainda existem, uma luta pelos últimos redutos da espécie, através das proteções conferidas pelo estatuto das ZPE e de medidas agroambientais que promovam uma real coexistência entre agricultura e conservação da biodiversidade.

“Mesmo que não seja o habitat ideal”, afirma a bióloga. “Sem isso, perdemo-las completamente.”

E não põe de parte a possibilidade de se ter de recorrer a intervenções mais drásticas, a uma “ecologia de salvamento”, resgatando ovos e crias em anos especialmente duros, de grande seca e calor, levando-os para centros de recuperação e devolvendo-as à Natureza quando as condições melhorarem.

“Não é o desejável, mas vai ser necessário”, conta-me, e isso implica riscos, porque as abetardas são animais extremamente sensíveis, apesar do seu aspeto robusto. Um dos grandes desafios à sua conservação é o facto de ser difícil marcá-las com dispositivos que permitam identificá-las e seguir os seus movimentos. Rita Alcazar diz que, quando são manipuladas, as abetardas podem literalmente “morrer de medo”. O stress causado pela manipulação faz com que os seus organismos produzam grandes quantidades de ácido láctico que, em alguns casos, pode parar os seus corações, irreversivelmente.

Essa é uma das razões pelas quais as abetardas, ao contrário de outras aves e animais seguidos por biólogos, não têm nomes dados pelos humanos (não dá para saber exatamente quem é quem sem marcações) e os censos têm de ser feitos “a olho”, no terreno, com um tremendo esforço de coordenação entre a LPN e o Instituto para a Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Além disso, apesar de todos os cuidados e dedicação, os humanos são pobres substitutos de uma mãe abetarda. “Não somos tão bons progenitores como seriam as abetardas fêmeas”, admite Rita Alcazar, pelo que “o nosso sucesso nessas intervenções é sempre mais baixo”.

Seja como for, essas são intervenções “de último recurso”, em situações extremas em que se sabe que, sem resgate, aquele ovo ou aquela cria não sobreviverão.

Se nada mudar, as abetardas podem desaparecer de Portugal nos próximos 20 anos, ou até mais cedo. Foto: Iván Vásquez.

“Tenho um carinho especial pela abetarda”, confessa-me Rita Alcazar, porque, apesar de grande, “é bastante sensível”. Quando lhe pergunto o que reserva o futuro para a espécie, uma ruga surge entre as suas sobrancelhas, num sinal de incerteza e preocupação.

“Temos um turbilhão de fatores que, em conjunto, contribuem para o declínio das abetardas” e que “aumenta exponencialmente o risco de extinção a que esta espécie em particular está sujeita”, diz, acrescentando que a sua proteção “implica muito mais trabalhar a qualidade do seu habitat” e “uma articulação de medidas para que consigamos protegê-las.”

Numa altura em que a extinção das abetardas em Portugal “é um risco real”, a bióloga diz que é preciso fazer mais e fazer melhor, sabendo que as aves agrícolas, como um todo, estão em perigo no país. Um grupo de cientistas do centro de investigação CIBIO alertava, numa carta publicada em janeiro de 2024 na revista Science com o título “Portugal’s farmland birds crisis requires action”, que “apenas um esforço conjunto daqueles responsáveis pela agricultura e daqueles responsáveis pela conservação pode reverter o declínio vertiginoso das aves agrícolas em Portugal”, incluindo a abetarda.

Escrevendo as últimas linhas deste texto, sentado à secretária, martelando nas teclas do computador, recordo-me das abetardas que vi em Castro Verde, tranquilamente vivendo as suas vidas, dançando energicamente para atrair parceiras, debicando o solo, possivelmente ignorantes das dificuldades que lhes estão reservadas, muito por causa da forma como nós, humanos, temos tratado a Natureza que nos envolve e da qual também fazemos parte.

Quantas crias sobreviverão até à idade adulta, em que poderão também elas dançar e escolher os seus parceiros? Quantas abetardas existirão em Castro Verde daqui a 10 anos? Em tempos um símbolo da rica fauna alentejana, as abetardas são agora investidas de um novo papel: representantes de um grupo de aves em declínio. Cada ano que passa será um teste à capacidade de sobrevivência dessas espécies. Resta saber se estaremos à altura do desafio e se seremos capazes de evitar o desaparecimento de mais uma das grandes aves de Portugal.

*Reportagem publicada originalmente na revista de junho de 2025.






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