IA: Inteligência Artificial ou Impacto Ambiental?

A Inteligência Artificial está cada vez mais presente na vida de todos nós, é frequente ouvir alguém dizer que lhes facilita o estudo, o trabalho ou mesmo a realização de uma lista de compras semanal.

Green Savers Redação

Por Mariana Freire Garanhão, Quercus

A Inteligência Artificial está cada vez mais presente na vida de todos nós, é frequente ouvir alguém dizer que lhes facilita o estudo, o trabalho ou mesmo a realização de uma lista de compras semanal. A realidade é que muitos de nós já nos adaptámos a esta nova tecnologia que promete mudar a forma como funcionamos enquanto sociedade. O que fica fora das grandes manchetes dos jornais, dos cursos de formação, dos debates académicos e políticos é o impacto que esta recente tecnologia tem no ambiente, principalmente nos gastos de energia e água.

Portugal está determinado em liderar a corrida ao desenvolvimento do IA, começando a construir, já este ano, a “primeira fábrica de IA da Europa”. O Município de Sines, que irá receber este projeto, já é conhecido em território nacional como a base de diversas indústrias nacionais e internacionais. Com este panorama, podemos, inicialmente, pensar que territórios como este já estão prontos para resistir às grandes pressões que projetos como este colocam. No entanto, é por já ser industrializado, que se depara com diversas questões ambientais (escassez de recursos hídricos, aquecimento das temperaturas, subida do nível do mar) e sociais ( com várias contestações dos moradores ao avanço da indústria em detrimento da sua qualidade de vida, segurança ambiental e segurança no âmbito da proteção civil).

Sem dúvida que a perspetiva de novos empregos especializados na área e o crescente investimento das empresas tecnológicas no território português, podem ser encarados como uma razão para celebrar. No entanto, como a história nos mostrou, as revoluções tecnológicas tendem a ter elevados custos para o meio ambiente, especialmente quando não são feitas com planeamento e prudência.

Longe de ser a indústria mais sustentável, as grandes instalações de processadores de IA, têm dado que falar nos lugares onde são implementadas. No último ano esta história repetiu-se vezes sem conta, inicialmente, vem o entusiasmo com enorme investimento que é feito, depois segue a desilusão quando se apercebem do peso que estas instalações têm tanto a nível energético como a nível de utilização de recursos hídricos.

Em Maio de 2024, no “9º Multi-stakeholder Forum on Science, Technology and Innovation for the Sustainable Development Goals” da ONU, investigadores da Universidade de Amesterdão, expuseram o perigo da Inteligência Artificial para os nossos recursos hídricos globais. Ao contrário das iniciais alegações por parte dos empresários desta indústria, as recentes pesquisas, têm demonstrado que o consumo de água potável do IA é bem mais preocupante do que a dos seus antecessores, como os motores de pesquisa, uma comparação bastante elucidativa utilizada foi:

“ (…) enquanto uma pesquisa no Google utiliza meio mililitro de água em energia, o ChatGPT consome 500 mililitros de água por cada 5 a 50 prompts.”

Esta indústria utiliza água limpa em todas as fases do processo: na produção de peças, na geração da energia e no arrefecimento dos equipamentos das bases de treino e armazenamento de dados. Os líderes desta indústria já começam a procurar alternativas para o arrefecimento dos centros ( como os sistemas adiabáticos, com arrefecimento recorrendo ao ar ) reconhecendo a enorme pegada que o sistema hídrico de arrefecimento tem. No entanto, o projeto em território português ignora toda esta experiência e preocupação, numa região em que a água já é escassa e onde negócios agrícolas fecham todos os anos por causa da seca, a aposta não devia ser instalar um Centro de Dados de IA que depende de métodos que a indústria já se encontra a substituir. Não haveriam outras regiões do território menos saturadas, com maior disponibilidade de recursos hídricos e energéticos, que poderiam beneficiar do dinamismo e divulgação de um projeto como este?

Surge então, em resposta à crescente pressão sobre os recursos hídricos, a Águas de Portugal com a “milagrosa” dessalinizadora. No entanto, é importante refletir: os custos de investimento são de quem, dos contribuintes ou das novas indústrias, que irão lucrar com a cultura de sobre-exploração?

Infelizmente, a resposta é a primeira, para além de pagar, os cidadãos vão ser confrontados com os perigos ambientais que este projeto representa, por exemplo, a água dos aquíferos, que garante hoje água para consumo humano às populações de Sines, Santiago do Cacém e Grândola, poderá estar ameaçada pela contaminação com águas salgadas.  Existiram compensações ambientais e sociais garantidas por estas indústrias às comunidades? No meio de tudo isto, onde está a APA? A garantir o cumprimento da defesa do ambiente ou a permitir o impensável do ponto de vista ambiental?

Crescemos a ver filmes de ficção científica que se focaram em descrever o perigo do surgimento de uma IA maligna que leva à aniquilação da humanidade.  O que estes falharam foi em retratar os perigos mais realistas que esta revolução tecnológica traz para as nossas sociedades. Neste momento, o nosso planeta não consegue pagar o preço de mais uma viragem tecnológica desenfreada, sem estratégia definida de proteção ambiental, é preciso encarar os riscos e criar soluções para realmente conseguir desfrutar do potencial da IA na resolução dos problemas políticos, sociais e ambientais do mundo.

 

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