As redes criminosas organizadas estão cada vez mais a visar leões em África para venderem os seus ossos, garras, peles e dentes no mercado negro. Os cientistas dizem que a intensificação da caça furtiva pode ser uma “ameaça existencial” à espécie se nada for feito para combatê-la.
Num artigo publicado recentemente na revista ‘Conservation Letters’, uma equipa internacional de investigadores revela que o tráfico crescente de partes de leões africanos é alimentado pela procura em mercados em África e na Ásia.
Em tempos, contavam-se centenas de milhares de leões em África, mas atualmente ocupam apenas cerca de 6% da sua área de distribuição histórica, estimando-se que existam aproximadamente 23 mil indivíduos em regime selvagem.
Ainda que a perda de habitat e de presas e os conflitos com os humanos sejam há muito fatores responsáveis pelo declínio da espécie, os cientistas avisam que a caça furtiva direcionada com vista à obtenção de partes do corpo, “uma ameaças mais recente e mal compreendida”, está a agravar essas pressões que já existiam.

“Estamos a assistir tanto ao abate organizado e cada vez mais generalizado e deliberado de leões para fins comerciais, como à recolha oportunista de partes do corpo de leões que morreram por outras causas”, detalha, em comunicado, Peter Lindsey, da Wildlife Conservation Network, da Universidade de Pretória (África do Sul) e primeiro autor do estudo.
“Os caçadores furtivos estão cada vez mais a usar iscas envenenadas e laços que podem exterminar grupos inteiros de uma só vez, empurrando população já vulneráveis para mais perto do colapso”, avisa o investigador. E acrescenta que, além desses impactos, o uso de venenos ameaça um número ainda maior de outras espécies de carnívoros e de necrófagos, como abutres.
Neste trabalho, os cientistas revelam que apreensões recentes de partes de leões incluem 17 crânios na Zâmbia, mais de 300 quilogramas de várias partes corporais intercetadas em Moçambique e também outros registos no Botsuana, no Zimbabué, no Uganda e na África do Sul.
“No Uganda, e por toda a África Oriental, os leões são fundamentais tanto para os ecossistemas como para a subsistência das comunidades, mas estão agora a ser envolvidos em redes sofisticadas de comércio ilegal”, refere Simon Nampindo, da organização Wildlife Conservation Society e coautor do artigo.
“Se não reforçarmos a proteção no terreno e trabalharmos em verdadeira parceria com as comunidades, esta crise continuará a acelerar para lá da nossa capacidade para contê-la”, avisa.
Os cientistas explicam que as partes de leões são procuradas para fins culturais, espirituais e comerciais, sendo usadas em sistemas de crenças tradicionais presentes em pelo menos 37 países africanos, e também traficadas para o sudeste asiático, onde frequentemente servem de substitutos a partes de tigres usadas em produtos medicinais.
O tráfico de partes de leões está cada vez mais associado ao tráfico de marfim, de cornos de rinocerontes e de escamas de pangolins, mostra a investigação.
Para evitar mais perdas, os autores do estudo recomendam o reforço da proteção e monitorização dos leões no terreno e o envolvimento das comunidades locais como parceiros nos esforços de conservação. Além disso, consideram importante a melhoria do conhecimento sobre as redes de tráfico e o desmantelamento das rotas, o reforço das leis e do sistema judicial e a redução da procura do lado dos consumidores, através do que os investigadores descrevem como “campanhas de mudança de comportamento” que tenham por base a cultura dos grupos ou segmentos sociais que alimentam esse mercado negro.









