- A degradação do solo afeta diretamente a resiliência dos sistemas agrícolas, especialmente em eventos climáticos extremos.
- A agricultura regenerativa propõe uma mudança de paradigma focada na recuperação da biologia do solo e na ciclagem de nutrientes.
- Os sistemas regenerativos reduzem a dependência de insumos externos, promovendo a eficiência energética e a saúde do solo.
- É necessário um foco na medição de indicadores biológicos para avaliar a saúde do solo e a eficácia das práticas agrícolas.
- Os consumidores devem valorizar a qualidade dos alimentos e a educação sobre a relação com a natureza é essencial.
Em entrevista à Green Savers, Ray Archuleta – uma das principais referências internacionais em saúde do solo e agricultura regenerativa, que esteve recentemente em Portugal, no âmbito do Fórum Regenerar 2026, promovido pela Fundação Mendes Gonçalves – aborda a forma como a agricultura moderna continua a subestimar o papel do solo enquanto sistema vivo, apesar de ser dele que depende a resiliência dos ecossistemas e da produção alimentar.
Ao longo da conversa, o especialista defende que a degradação dos solos está diretamente ligada à perda de estabilidade dos sistemas agrícolas, sobretudo num contexto de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. Para Ray Archuleta, a regeneração não é apenas um conjunto de práticas, mas uma mudança de paradigma assente na recuperação da biologia do solo, na ciclagem natural dos nutrientes e na redução da dependência de fatores de produção externos.
Nesse sentido, sublinha que a saúde do solo deve ser entendida como um indicador central da saúde dos sistemas alimentares, exigindo novas formas de medir, gerir e valorizar a agricultura. Sem essa mudança de foco, alerta, continuará a ser difícil construir sistemas verdadeiramente resilientes, capazes de responder aos desafios climáticos e à pressão sobre os recursos naturais.
O solo tem vindo a ganhar destaque no discurso climático, mas continua muitas vezes tratado como um recurso invisível. Porque é que, na prática, continua a ser subvalorizado face a outros temas ambientais?
O solo é subvalorizado porque fomos ensinados a vê-lo como um meio que apenas serve para sustentar as plantas, e não como um sistema vivo que impulsiona os ciclos da água, dos nutrientes e da energia.
Como a biologia não é visível, as pessoas tendem a olhar primeiro para a química. Mas o solo é o motor do ecossistema: quando falha, tudo o que está acima da superfície também falha.
A questão mais profunda é cultural. Separámos os indicadores, como os nutrientes, das funções, como a ciclagem e a infiltração. E isso limita a forma como tomamos decisões.
Em que medida é que a degradação dos solos está diretamente ligada à perda de resiliência dos sistemas alimentares, sobretudo em cenários de eventos climáticos extremos?
São inseparáveis. A degradação do solo destrói a agregação e, quando os agregados falham, a infiltração também falha. Quando a infiltração falha, falha o ciclo da água. Isto traduz-se em seca e inundação em simultâneo. Um solo funcional consegue amortecer os extremos, porque a biologia constrói estrutura e promove a ciclagem de nutrientes. E é essa estrutura que regula a água.
Sem estrutura e sem ciclagem de nutrientes e de água, não há resiliência.
Fala-se cada vez mais de agricultura regenerativa, mas o conceito nem sempre é claro. Onde é que termina a agricultura sustentável e começa, de facto, a regenerativa?
A agricultura sustentável tenta manter um sistema degradado. A agricultura regenerativa restaura a função. A diferença está em saber se estamos a construir a biologia do solo, que impulsiona a ciclagem de nutrientes e da água, ou se estamos simplesmente a substituí-la por fatores de produção externos.
Os sistemas regenerativos reduzem a dependência de energia externa, sobretudo dos fertilizantes azotados, que estão entre os fatores de produção mais intensivos em energia que utilizamos.
O modelo agrícola dominante nas últimas décadas contribuiu para a perda de matéria orgânica e biodiversidade no solo. Que erros estruturais foram cometidos e continuam por corrigir?
Simplificámos os ecossistemas: monocultura, perturbação do solo e fatores de produção sintéticos substituíram a biologia. O erro foi pensar que os nutrientes vêm de sacos, e não da biologia. O que continua por resolver é que ainda gerimos a agricultura com foco na produtividade, e não na função.
Enquanto não medirmos e gerirmos indicadores biológicos ligados a processos, nada muda. Não ensinámos que o solo está vivo. Tal como nós. Os seres humanos são compostos em cerca de 90% por bactérias. Apenas 10% somos nós. Somos solo com pernas. Quando compreendemos que o solo está vivo, tudo muda na exploração agrícola.
Até que ponto a dependência de fertilizantes sintéticos e mobilização intensiva do solo compromete a sua capacidade de funcionar como sumidouro de carbono?
Comprometem-na totalmente. A mobilização do solo oxida o carbono e o azoto sintético contorna a biologia. Quando as plantas deixam de precisar da biologia, deixam também de a alimentar. Sem fluxo de carbono para o solo, não há agregação nem sequestro de carbono. O armazenamento de carbono não é uma prática, é o resultado de uma função biológica. Este tipo de práticas é intrusivo e disruptivo.
Há quem defenda que não será possível alimentar uma população crescente sem agricultura intensiva. A agricultura regenerativa consegue responder a esse desafio à escala global?
Esse argumento ignora a eficiência. Os sistemas industriais utilizam enormes quantidades de energia para produzir nutrientes, sobretudo fertilizantes azotados. Os sistemas regenerativos usam a biologia para fazer circular os nutrientes. Quando os solos funcionam, a produtividade estabiliza com menos fatores de produção. A questão não é apenas a produtividade. É também a eficiência energética e a resiliência. Os sistemas regenerativos conseguem manter a produtividade com menos fatores de produção, sem degradar os nossos recursos nem a água. Imitar os processos da natureza exige menos energia e permite-nos obter alimentos mais densos em nutrientes, porque protegemos o habitat da biologia que extrai os nutrientes da geologia.
Que indicadores concretos devemos observar para avaliar a saúde de um solo e a eficácia das práticas regenerativas?
Os indicadores têm de estar ligados à função. A agregação está ligada à infiltração e ao ciclo da água. A respiração do solo está ligada à atividade biológica que impulsiona a libertação de nutrientes. O carbono orgânico representa armazenamento de energia para os microrganismos. A taxa de infiltração da água indica a resiliência do sistema. Os indicadores não estão separados dos processos. São a prova da sua existência. A ciclagem da água e dos nutrientes é crítica. Estes indicadores exigem que a biologia do solo esteja presente e ativa. Esse é um indicador fundamental.
A regeneração dos solos é frequentemente apresentada como uma solução baseada na natureza. Que limites científicos ou práticos ainda existem neste campo?
A limitação não está na ciência, está na aplicação. Temos a ciência. O desafio está na gestão. A agricultura regenerativa exige pensamento, observação e gestão adaptativa. Isso representa uma mudança face à agricultura baseada em fatores de produção externos.
Que papel desempenha a microbiologia do solo (muitas vezes invisível) na regulação do clima e na produtividade agrícola?
A microbiologia impulsiona tudo. Controla o fluxo de carbono, a ciclagem de nutrientes, a agregação e a retenção de água. Os microrganismos transformam os exsudados das plantas em carbono estável e em nutrientes disponíveis. Sem eles, o sistema colapsa e passa a depender de fatores de produção externos.
Em regiões vulneráveis como o sul da Europa, onde a desertificação é uma ameaça crescente, que práticas deveriam ser prioritárias no curto prazo?
Manter o solo coberto, aumentar a diversidade de plantas e reduzir a perturbação do solo. As raízes vivas são críticas, porque alimentam a biologia e reconstroem a estrutura. A água entra no solo através dos agregados, não através de solo nu. É necessário ter animais em pastoreio para restaurar e manter ambientes frágeis e secos. Os animais de pastoreio são fundamentais. Não conseguimos curar o planeta sem vacas.
A transição para sistemas regenerativos exige tempo e investimento. Como podem os agricultores gerir esse período sem comprometer a viabilidade económica das explorações?
Devem começar em pequena escala, com parcelas de teste. Reduzir os fatores de produção que a biologia consegue substituir. Medir resultados. É aqui que muitos têm dificuldade: é preciso ser mais científico, não menos. A gestão substitui os fatores de produção.
Considera que os atuais apoios da política agrícola são suficientes para promover esta mudança, ou continuam a favorecer modelos convencionais?
A maioria das políticas continua a recompensar a produção, e não a função. Enquanto não forem incentivados indicadores de saúde do solo ligados aos processos dos ecossistemas, os sistemas convencionais continuarão a dominar. É preciso olhar para onde está o dinheiro. O atual modelo agrícola industrial favorece a produção intensiva. As cooperativas agrícolas têm grande influência na definição da política agrícola.
De que forma é que os mercados, nomeadamente a grande distribuição, influenciam positiva ou negativamente a adoção de práticas regenerativas?
Os mercados pressionam no sentido da uniformidade e da produção de curto prazo. Isso funciona contra a regeneração. Mas, se os mercados começarem a valorizar a resiliência e a qualidade, podem acelerar a adoção destas práticas.
Existe hoje risco de “greenwashing” associado ao conceito de agricultura regenerativa? Como distinguir práticas genuínas de abordagens meramente comerciais?
Sim. A regeneração não é um rótulo, é um resultado mensurável. Se a biologia do solo, a agregação e a ciclagem da água não estiverem a melhorar, então não é regenerativo. Medir diretamente a densidade nutricional dos alimentos pode ser fundamental para combater o greenwashing.
Até que ponto a regeneração dos solos pode contribuir não apenas para mitigar as alterações climáticas, mas também para adaptar os sistemas agrícolas aos seus impactos já inevitáveis?
É na adaptação que a regeneração mais se destaca. Solos saudáveis absorvem água, armazenam carbono e amortecem extremos. Isto é resiliência em tempo real. O problema climático está num pequeno ciclo da água disfuncional, e não no carbono — alimento das plantas — presente na atmosfera.
Que transformações seriam necessárias ao nível do consumo alimentar para que este modelo se torne verdadeiramente sustentável a longo prazo?
Os consumidores precisam de valorizar a qualidade, e não apenas o preço. A comida barata reflete muitas vezes sistemas degradados. A regeneração alinha a alimentação com a função ecológica e com a saúde humana. As pessoas podem cultivar as suas próprias hortas. Isso proporciona uma experiência com a natureza que desenvolve amor pelo sistema natural. A educação deve ser uma prioridade para todos. A comida não é apenas substância. É também cultura e relação. Sim, até espiritualidade.
Há outra forma de dizer isto: se tivermos familiares de quem não gostamos e os convidarmos para uma refeição, se a comida for excelente e inesquecível, talvez os consigamos perdoar. O problema está na forma como vemos as coisas. Como dizia Campbell: “Se queres fazer pequenas mudanças, muda a forma como fazes as coisas. Se queres fazer grandes mudanças na tua vida, muda a forma como vês as coisas.”









