A vida desta ave, que também ocorre em Portugal, é ditada pela Lua

De acordo com cientistas de Espanha e da Suécia, quando a Lua está cheia, os noitibós-de-nuca-vermelha podem caçar insetos durante a maior parte da noite. Quando a luz lunar é escassa, têm, ao invés, de se limitar a caçadas oportunistas nos momentos que precedem o pôr ou o nascer do Sol.

Filipe Pimentel Rações

A luz da Lua determina onde os noitibós-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficollis) se alimentam, para onde migram e onde cuidam das suas crias.

A vida dessas aves migradoras, que se reproduzem no sul da Europa, incluindo em Portugal (especialmente no interior do Alentejo e Algarve, segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas), e que passam o inverno na África Ocidental, é regida pelo satélite natural da Terra, revela uma investigação publicada este mês na revista ‘Science Advances’.

De acordo com a equipa envolvida neste trabalho, liderada por cientistas da Estação Biológica de Doñana (Espanha) e da Universidade de Lund (Suécia), quando a Lua está cheia, os noitibós-de-nuca-vermelha podem caçar insetos durante a maior parte da noite. Quando a luz lunar é escassa, têm, ao invés, de se limitar a caçadas oportunistas nos momentos que precedem o pôr ou o nascer do Sol.

A vida dos noitibós-de-nuca-vermelha é ditada pela luz da Lua. Foto: Carlos Carmacho, da Estação Biológica de Doñana e primeiro autor do estudo.

“Ao contrário dos morcegos, os noitibós não têm capacidade para navegarem eficazmente na escuridão total”, explica Anders Hedenström, principal coautor do estudo, que teve por base um trabalho de campo de mais de 10 anos no Parque Nacional de Doñana. Para isso, os investigadores colocaram em algumas aves dispositivos que permitiram recolher medições fundamentais para desvendar a vida destes animais, como os voos, a temperatura corporal e o seu comportamento, de forma contínua.

Quando a Lua não está suficientemente brilhante, os noitibós reduzem a sua atividade, para conservarem energia, uma vez que as oportunidades para caçarem insetos são muito menores por causa da falta de visibilidade. Para tal, reduzem voluntariamente a temperatura do seu corpo, como se entrassem num estado temporário de hibernação.

Gabriel Norevik, outro coautor, diz que uma das coisas que mais surpreendeu a equipa foi o facto de se ter conseguido perceber claramente como as noites mais escuras ativam essa “estratégia de conservação de energia”, o que acontece todos os meses, seguindo o ciclo lunar.

Por outro lado, quando a Lua resplandece, os noitibós lançam-se aos céus noturnos para aumentarem as suas reservas de energia o máximo que conseguirem. A migração primaveril a partir de África, em direção do sul europeu, só começa, dizem os cientistas, quando as aves têm reservas energéticas suficientes para poderem fazer tamanha viagem, o que, explicam, normalmente acontece cerca de duas semanas após uma Lua cheia.

A equipa revela ainda que os ovos são postos pelos noitibós-de-nuca-vermelha de maneira que eclodam quando a Lua estiver numa fase suficientemente brilhante, para que possam assegurar uma alimentação regular nessas primeiras semanas de vida, que são críticas para a sobrevivência futura.

Sabendo o papel fundamental que a luz lunar desempenha nas vidas dessas aves, os cientistas querem agora perceber de que forma é que a poluição luminosa as afeta e que consequências pode isso ter para o futuro das populações e da espécie.

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