Caranguejos começaram a “andar de lado” há 200 milhões de anos

“Embora possa parecer óbvio que os caranguejos andam de lado, este modo de locomoção é, na verdade, extremamente raro no reino animal”, diz Yuuki Kawabata, principal coautor do estudo.

Filipe Pimentel Rações

Apesar de hoje ser um dos seus traços mais característicos, os caranguejos nem sempre se deslocaram de lado. Esse tipo de locomoção terá surgido há cerca de 200 milhões de anos e apenas uma única vez, pelo que, quando apareceu, resistiu à passagem do tempo.

A descoberta foi feita por um grupo de cientistas liderado pela Universidade de Nagasaki, no Japão, que estudou o movimento de 50 espécies de caranguejos colhidos por todo o país, desde poças entremarés ao oceano, passando por mercados locais. Num artigo publicado na revista ‘eLife’, argumentam que a linhagem que herdou essa forma de andar tornou-se o grupo de caranguejos com o maior número de espécies de todo o mundo, sugerindo que esse traço foi um grande impulsionador da sua diversificação e do seu sucesso evolutivo.

“Embora possa parecer óbvio que os caranguejos andam de lado, este modo de locomoção é, na verdade, extremamente raro no reino animal”, diz Yuuki Kawabata, principal coautor do estudo.

O “andar de lado” é típico dos caranguejos da infraordem Brachyura, também chamados de “verdadeiros caranguejos”. Nos dias de hoje, o grupo dos Eubrachyura, que é parte dos Brachyura, tem quase 7.500 espécies, ao passo que os grupos que andam para a frente ou para trás têm 156 no seu conjunto.

Do grupo dos caranguejos que andam para trás fazem parte os Porcelanídeos e do dos que andam predominantemente para a frente os caranguejos-reais, como os do género Paralithodes, os caranguejos-dos-coqueiros (Birgus latro), considerado o maior artrópode terrestre do mundo, e os caranguejos-eremitas, da infraordem Anomura.

O caranguejo-eremita anda para a frente, muito por causa da “casa” que transporta às costas e que dificultaria a locomoção para o lado ou para trás. Foto: Anna Mcphee / Unsplash.

“Então, quanto e como é que este comportamento invulgar evoluiu?”, perguntaram-se os investigadores, e lançaram-se em busca da resposta.

Das 50 espécies abrangidas por este estudo, 35 foram classificadas como caranguejos que se movendo de lado, enquanto as restantes 15 foram classificadas como andando em frente. De seguida, esses dados de locomoção foram combinados com uma árvore genealógica dos caranguejos com base no ADN de centenas de espécies, que foi criada por outros investigadores.

Olhando para essa árvore, que conta a história evolutiva dos caranguejos, os autores deste estudo conseguiram perceber onde e quando a locomoção de lado surgiu neste grupo de crustáceos decápodes. Assim, perceberam que todas as espécies que atualmente andam de lado descendem de um único grupo de antepassados que andou pela Terra, inicialmente para a frente e depois de lado, há aproximadamente 200 milhões de anos.

O surgimento da locomoção de lado nos caranguejos coincidiu com a extinção em massa que marca a passagem do Triássico para o Jurássico. Os investigadores acreditam que andar de lado dava aos caranguejos uma vantagem no que toca à fuga de predadores, ao moverem-se rápido para um lado ou para o outro e ao tornar imprevisível a direção da fuga. Além disso, coincidiu também com uma série de mudanças nos ambientes marinhos que podem ter criado condições favoráveis à diversificação das espécies de caranguejos que davam os primeiros passos numa nova era de locomoção que perduraria muitos milhões de anos até aos dias de hoje.

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