Investigadora portuguesa vai desvendar os impactos das alterações climáticas nos mundos entremarés

Quando vamos à praia, podemos passar por esses universos escondidos sem lhes prestarmos muita atenção, ou só reparar neles quando os nossos narizes se enchem daquele odor acre a algas e sal. Mas facto é que são habitats de grande importância ecológica, precisamente por fazerem a ponte entre a terra e o mar e por serem afetados pelo que se passa num lado e no outro.

Filipe Pimentel Rações

Na fronteira entre dois mundos muitos diferentes, com um pé num e o outro noutro. É assim que se poderia descrever as zonas entremarés, microcosmos da orla costeira que fazem a ligação entre o mar e a terra.

Apesar de existirem nessa área de transição, são, ainda assim, povoadas por organismos marinhos, de peixes a crustáceos, passando por moluscos, algas e plantas marinhas. São locais de variações radicais, em que as criaturas que aí residem, para sobreviverem, tiveram, no decurso de milhares de anos de evolução, senão mais, de adquirir características especiais.

Pense o leitor nas rochas e poças repletas de água salgada deixadas para trás pelo mar que recua em alturas de baixa-mar. Os seres que aí vivem têm de conseguir resistir a períodos de secura, à força da radiação solar que sobre eles incide com maior intensidade, a águas mais quentes, paradas e sem escapatória para o “grande azul” que se afastou.

Na fronteira entre dois mundos muitos diferentes, as zonas entremarés (também designadas de zona intertidal) são habitadas por organismos que se adaptaram a grandes variações ambientais e a extremos, pois têm de sobreviver quando o mar recua durante a maré vazia. Foto: Filipe Pimentel Rações.

Quando vamos à praia, podemos passar por esses universos escondidos sem lhes prestarmos muita atenção, ou só reparar neles quando os nossos narizes se enchem daquele odor acre a algas e sal. Mas facto é que são habitats de grande importância ecológica, precisamente por fazerem a ponte entre a terra e o mar e por serem afetados pelo que se passa num lado e no outro.

Contudo, ainda há muito que se desconhece sobre como os efeitos das alterações climáticas, especialmente o aumento da temperatura do ar e do mar, estão a afetar a forma como esses organismos vivem, interagem uns com os outros e com o ambiente que os rodeia.

É exatamente para preencher essa lacuna que Cátia Monteiro lançou mãos à obra e conseguiu uma bolsa no âmbito do programa de pós-doutoramento Junior Leader da Fundação “la Caixa”. A investigadora do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (BIOPOLIS-CIBIO), da Universidade do Porto, foi uma de 12 cientistas portugueses, de um universo total de 100 investigadores de várias nacionalidades, que receberam esse apoio para desenvolverem os seus projetos em universidades e centros de investigação de Espanha e Portugal.

Herbívoros, algas e temperatura

Como é que o aumento da temperatura acima e abaixo da superfície do mar, causado pelo aquecimento global, está a afetar a forma e a intensidade com que animais herbívoros da zona entremarés das praias rochosas, como lapas e ouriços-do-mar, se alimentam de macroalgas marinhas? Essa é uma das grandes questões às quais Cátia, e os colegas que a acompanham neste trabalho, quer responder com o trabalho que desenvolverá até dezembro de 2028. As lapas e os ouriços são “os suspeitos mais prováveis”, explica, pois “são abundantes e outros estudos demonstram o impacto da sua herbivoria”, mas “outros responsáveis poderão surgir na nossa análise”.

 

Cátia Monteiro, investigadora do BIOPOLIS-CIBIO, foi uma de 12 cientistas portugueses a receberem uma bolsa no âmbito do programa de pós-doutoramento Junior Leader da Fundação “la Caixa”.

A investigação vai levá-la para zonas entremarés na costa atlântica da Europa, especificamente em França, na Noruega e em Portugal, locais marcados por “clima diferentes” e que, muito por causa disso, apresentam “comunidades biológicas distintas”. É precisamente essa diversidade que permitirá “testar as nossas hipóteses em contextos ambientais diferentes e fazer previsões”.

Embora as praias exatas nas três regiões onde algumas experiências de campo decorrerão ainda estejam a ser definidas, por cá é provável que o foco recaia nas praias do Norte, como Mindelo (Vila do Conde), Angeiras (Matosinhos) e Praia Norte (Viana do Castelo). Independentemente disso, “a recolha de dados de distribuição das espécies será feita um pouco por toda a costa portuguesa e também a costa atlântica da Europa”, explica-nos a investigadora.

Depois de recolhidos e tratados os dados, o objetivo é comparar as três localizações, nomeadamente as espécies existentes em cada uma delas, bem como o quão abundantes são em cada uma dessas zonas entremarés e “a força da interação entre elas”, ou seja, a quantidade de algas que os herbívoros comem.

Por os locais de estudo estarem a diferentes latitudes, e por faltarem “dados de qualidade que nos permitam saber como as comunidades de uma certa localização mudaram ou como poderão mudar no futuro”, explica Cátia, o que se faz é usar essa gradação de latitude como uma espécie de “escada temporal”, como se andando para cima ou para baixo se avançasse ou recuasse no tempo do aquecimento do planeta. Dessa forma, é possível, de alguma forma, contornar a escassez de dados e tecer ilações sobre essas alterações.

“Dado o contínuo aquecimento global, prevemos que as comunidades hoje típicas de Portugal vão, eventualmente, ocorrer na Bretanha. O que é que isso significará para a biodiversidade e ecologia na Europa?”, questiona a investigadora. “É o que queremos explorar.”

Como um planeta mais quente afeta as relações entre organismos

É certo que o trabalho de investigação ainda vai no início (na verdade só começou em dezembro passado), mas, com base no conhecimento já existente, Cátia diz-nos já ter algumas ideias sobre o que poderá vir a descobrir.

As interações entre os organismos são parte fundamental da vida dos ecossistemas. É através delas que se regem as dinâmicas das teias de vida que se ligam a muitos outros seres vivos, pelo que desequilíbrios nessas relações, causados, por exemplo, pelo aumento da temperatura, podem vir a desestabilizar todo o sistema, e essas interações podem, no limite, vir mesmo a desvanecer-se se um dos protagonistas desaparecer, por se ter extinguido ou por ter ido para outro local com condições mais favoráveis.

“Isso acontece, mas é menos comum”, esclarece a investigadora. “O que começa a ser comum é que alterações na abundância de uma ou das duas espécies do par leva a alteração ao balanço e à força dessa interação, e é isso que depois leva a alterações na distribuição e abundância”, explica.

Olhando para outras regiões do mundo, diz-nos que na Austrália e no Norte da Europa, a título de exemplo, “alterações nas interações entre espécies foram responsáveis por grandes alterações na distribuição de uma dada espécie e levou a extinções locais”.

Os ouriços-do-mar, bem como as lapas, deverão ser os protagonistas de maior destaque deste projeto, mas Cátia diz-nos que “outros responsáveis poderão surgir na nossa análise”. Foto: t Penguin / Unsplash.

Pensa-se que o aquecimento global poderá estar a aumentar o consumo feito pelos herbívoros, porque o aumento da temperatura faz também aumentar o número ou a biomassa desses animais e porque mais calor equivale a um metabolismo mais acelerado, o que, por sua vez, exige mais alimento para repor a energia gasta. “Isso poderá levar a uma diminuição da quantidade de algas nas praias”, diz a bióloga portuguesa, o que “terá um impacto em todo o ecossistema dados os vários serviços de ecossistemas que as florestas de macroalgas providenciam”.

Trazendo o olhar para mais perto, Cátia avança que “a minha teoria é que parte das alterações que já vemos aqui em Portugal seja o resultado de uma interação biológica alterada e não o resultado direto do aquecimento na fisiologia das espécies em causa”. Por outras palavras, suspeita-se de que as diferenças que se observam nas comunidades vivas em algumas zonas entremarés nas praias portuguesas se devem mais a mudanças nas interações entre organismos, ou seja, ao facto de os herbívoros poderem estar a comer mais algas e a restringir a área de distribuição de algumas dessas espécies das quais se alimentam, e não tanto ao impacto direto do aumento da temperatura nesses mesmo organismos.

Em todo o caso, esses impactos dependerão das espécies para as quais se está a olhar e do contexto ambiental onde essas interações acontecem, algo que os dados que Cátia e a sua equipa recolheram ajudarão a elucidar.

Uma confluência de saberes

Para isso, serão usadas várias metodologias, das ciências naturas, claro, mas também das ciências sociais, uma diversidade que Cátia considera “muito desafiante, porque requer aprendizagens em várias áreas diferentes e colaborações com outros investigadores”, mas que, ainda assim, “é muito enriquecedora”.

Além disso, destaca a importância da ciência-cidadã neste projeto. Para se conseguir compreender a distribuição destas espécies das zonas entremarés “há um trabalho essencial de procurar por elas em muitos locais e repetidamente pelo ano”, pois a sazonalidade é um fator de grande importância na vida de muitas delas.

“Isso é naturalmente muito caro em termos de recursos humanos científicos”, pelo que “não só a ciência-cidadã pode replicar estes esforços, como há muito conhecimento local que escapa aos cientistas”, reconhece Cátia. “Um pescador ou um surfista poderá saber muito bem onde algumas espécies se encontram nos locais que visitam com frequência”, acrescenta, e isso é “conhecimento-chave”, especialmente quando se trata de raridades do mundo natural.

A investigadora do BIOPOLIS-CIBIO destaca a importância da ciência-cidadã neste trabalho: “Um pescador ou um surfista poderá saber muito bem onde algumas espécies se encontram nos locais que visitam com frequência”. Foto: Filipe Pimentel Rações.

“As questões ecológicas a que me proponho responder são complexas e muitas das abordagens utilizadas até agora são muitas vezes criticadas por simplificarem demasiado o sistema. A abordagem proposta aqui não será perfeita, mas permitirá colmatar lacunas de uns métodos com outros para podermos produzir a imagem mais realista do que se está a passar nestes ecossistemas costeiros”, comenta a investigadora.

Falta de financiamento e imprevisibilidade dificultam trabalho científico

Quanto ao que poderá ser feito se realmente se vier a perceber que o aumento da temperatura está a alterar as relações entre herbívoros e algas nas zonas entremarés e que daí podem resultar impactos preocupantes para o ecossistema, Cátia admite que é uma questão de “difícil resposta”. Isso, porque “há muitas peças neste puzzle e é desafiante controlar na natureza tantos fatores distintos”.

No entanto, diz-nos que um dos grandes objetivos desta investigação é “demonstrar a importância de conservar e restaurar estes ecossistemas costeiros compostos de macroalgas”, algo que poderá ser feito limitando alterações nas zonas costeiras, criando áreas protegidas ou disponibilizando incentivos para programas de restauro ecológico. Com isso em mente, a investigadora espera que o seu trabalho possa vir a servir para melhorar a gestão das zonas costeiras, trazendo para o espaço de visibilidade pública mundos muitas vezes esquecidos ou ignorados.

Apesar da importância que é cada vez mais lhe é reconhecida como orientadora de decisões políticas, e até empresariais em alguns casos, a Ciência em Portugal continua a não ser devidamente financiada pelo Estado.

Cátia Monteiro, que conduz a sua investigação com uma bolsa atribuída por uma entidade privada, diz que “há dois grandes problemas no financiamento da investigação científica em Portugal”.

Um deles é o facto de ser “francamente insuficiente”, lamenta, recordando que “da última (e única) vez que consegui financiamento da [Fundação para a Ciência e Tecnologia] para um projeto de I&D, projetos classificados com 8 em 10 já não conseguiram financiamento”.

“Não é uma questão de qualidade, é mesmo de orçamento”, aponta.

O outro grande problema é o facto de o financiamento ser “inconstante em termo de calendário e requisitos”, e, por isso, “os investigadores nunca sabem ao certo quando uma candidatura vai abrir e os requisitos de avaliação mudam frequentemente”.

Cátia Monteiro acredita que “há dois grandes problemas no financiamento da investigação científica em Portugal”: ser “insuficiente” e ser “inconstante”.

“Isto leva a que seja muito desafiante planear devidamente o trabalho e o tempo necessário para a preparação de uma candidatura e uma enorme dificuldade de planear a longo prazo, o que tem um enorme impacto na produtividade”, diz Cátia.

No que toca especificamente à conservação, afirma que “é muitas vezes atropelada por outros interesses”, pelo que acredita que “é fundamental, como sociedade, nos mobilizarmos para demostrarmos que consideramos a conservação importante e que deve ser priorizada”.

Um planeta Terra à beira do precipício

Com cientistas que estuda os impactos das alterações climáticas nos mundos marinhos e costeiros, Cátia confessa-nos que olha “com muita preocupação” para o que poderá estar por vir num planeta cada vez mais quente e em risco de grande desestabilização.

“Os recordes constantes dos últimos anos tanto em temperatura do oceano como atmosférica são algo nunca visto e que chocam todos os anos”, diz a investigadora do BIOPOLIS-CIBIO.

“O que observo no meu trabalho é populações de algumas espécies a desaparecer, outras espécies não-nativas a aparecer”, e algumas em grande quantidade, e é “extremamente preocupante” que em alguns ecossistemas, em algumas regiões do mundo, em alguns grupos de organismos ou mesmo em algumas praias específicas, “nem conseguimos avaliar devidamente o que está, ou não, a alterar”.

É por isso que Cátia considera “tão importante” o trabalho que, em conjunto com a sua equipa, desenvolve agora no âmbito da bolsa de pós-doutoramento recebida, assegurando que “vamos ser criativos e tentar recolher dados de várias fontes que nos indiquem o estado do passado e do presente da biodiversidade marinha”.

“Vamos tentar caraterizar e compreender as comunidades antes que outras alterações ocorram”, declara.

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