Os golfinhos-roazes (Tursiops truncatus) que habitam o norte do Mar Adriático poderão estar cada vez mais dependentes da atividade dos arrastões para se alimentarem, numa possível consequência da sobrepesca que afeta há décadas esta região do Mediterrâneo. A conclusão surge num novo estudo internacional publicado na revista científica Frontiers in Mammal Science.
Os investigadores verificaram que até 76% dos arrastões de fundo observados ao largo da região italiana de Marche eram seguidos por golfinhos-roazes à procura de alimento. No conjunto das observações realizadas entre 2018 e 2025, os cetáceos acompanharam, em média, 41% dos arrastões de portas e 35% dos arrastões pelágicos, mas apenas 1,5% dos arrastões de vara.
Segundo os autores, este comportamento sugere um elevado grau de dependência dos recursos disponibilizados pela pesca, numa área onde os stocks de peixe se encontram severamente explorados.
“O envolvimento prolongado, consistente e deliberado com os arrastões sugere um elevado grau de dependência desta atividade”, afirma Giovanni Bearzi, presidente da organização italiana Dolphin Biology and Conservation e autor principal do estudo. “Nos dias em que há pesca de arrasto, os golfinhos alimentam-se predominantemente junto das redes.”
Ecossistema degradado pela pesca intensiva
O Mar Adriático é considerado uma das zonas marinhas mais intensamente exploradas do Mediterrâneo. Décadas de pesca de arrasto de fundo alteraram profundamente os habitats bentónicos, degradando ecossistemas e contribuindo para o declínio de diversas espécies predadoras de topo.
Atualmente, o golfinho-roaz é a única espécie de golfinho que continua a ocorrer regularmente nesta área.
Para compreender melhor a relação entre os cetáceos e os arrastões, a equipa científica monitorizou embarcações ao largo das regiões italianas de Veneto e Marche. Ao longo de 148 dias de trabalho de campo foram realizadas 859 observações de embarcações de pesca e fotografados os animais para identificar indivíduos.
Os resultados indicam que entre 86% e 90% dos golfinhos identificados foram observados pelo menos uma vez a seguir arrastões, sugerindo que a maioria desta população recorre regularmente a esta fonte de alimento.
Uma estratégia com riscos
Os golfinhos podem beneficiar dos peixes descartados pelas embarcações ou até entrar nas redes em movimento para capturar presas. No entanto, esta estratégia não está isenta de riscos.
Os investigadores alertam que os animais podem sofrer ferimentos ou mortalidade acidental associados às artes de pesca. Além disso, a exposição prolongada ao ruído das embarcações pode provocar impactos na audição, enquanto a dependência desta fonte alimentar pode alterar os padrões de alimentação, comunicação e organização social.
“Parece que, para estes animais, assumir estes riscos é preferível a enfrentar a escassez de alimento”, refere Randall Reeves, coautor do estudo e presidente do Comité de Conselheiros Científicos da Comissão dos Mamíferos Marinhos dos Estados Unidos.
Reduzir a pesca de arrasto pode favorecer a recuperação
Os autores sublinham, contudo, que os golfinhos-roazes são uma espécie resiliente e acreditam que a redução ou proibição da pesca de arrasto permitiria a recuperação dos ecossistemas marinhos e das populações de peixe, diminuindo a dependência dos cetáceos em relação às embarcações.
Além dos benefícios para os golfinhos, uma recuperação ambiental poderia favorecer o regresso de outras espécies que desapareceram ou se tornaram raras no Adriático ao longo das últimas décadas.
“A pesca de arrasto tem causado danos profundos nos ecossistemas do Adriático. A sua continuação não é aconselhável, não apenas para proteger os golfinhos, mas também para conservar a biodiversidade marinha de forma mais ampla”, conclui Giovanni Bearzi.









