Ciência cidadã pode revolucionar a produção de conhecimento científico, conclui estudo internacional

Investigação defende maior reconhecimento, apoio administrativo e financiamento estável para potenciar o contributo dos cidadãos para a ciência.

Redação

Uma investigação internacional concluiu que a ciência cidadã tem potencial para contribuir de forma muito mais significativa para o avanço do conhecimento científico, desde que beneficie de melhores mecanismos de reconhecimento, apoio organizacional e financiamento a longo prazo.

O estudo, desenvolvido por uma colaboração entre 16 organizações internacionais, recorreu a inquéritos e discussões de grupo para identificar os principais desafios, oportunidades e boas práticas nos projetos de ciência cidadã. Os investigadores alertam, contudo, que o setor continua a depender excessivamente do trabalho voluntário e da dedicação de coordenadores com recursos limitados, uma situação considerada insustentável.

Segundo Christopher Lawson, ecólogo da Universidade de Queensland, na Austrália, a ciência cidadã é frequentemente encarada apenas como uma atividade complementar de envolvimento público, mas a investigação demonstra que pode ser ampliada para gerar impactos ambientais e sociais muito mais relevantes.

“A ciência cidadã reúne curiosidade, comunidade e tecnologia, permitindo que pessoas de diferentes origens participem em descobertas científicas e na procura de soluções para desafios complexos”, afirma o investigador.

Atualmente, milhares de cidadãos contribuem para projetos científicos em áreas tão diversas como a monitorização de recifes de coral, o acompanhamento da fauna selvagem, a análise de imagens de telescópios ou a investigação em saúde. Para os autores do estudo, com o apoio adequado, este modelo pode tornar a ciência mais aberta, colaborativa e eficaz.

Dez recomendações para fortalecer a ciência cidadã

A investigação apresenta dez recomendações destinadas a governos, instituições e comunidades para melhorar e expandir estas iniciativas. Entre as principais medidas destacam-se a criação de centros de apoio partilhados para gestão administrativa e tratamento de dados, o reforço do reconhecimento dos participantes – incluindo possíveis compensações financeiras -, o desenvolvimento de parcerias mais sólidas com universidades, escolas e comunidades, e a implementação de sistemas de dados abertos.

Os investigadores defendem ainda uma maior participação dos cidadãos em todas as fases dos projetos, desde a sua conceção até à análise dos resultados, bem como a atribuição de financiamentos de longa duração que permitam garantir a continuidade das iniciativas.

Lawson sublinha que o sucesso da ciência cidadã depende sobretudo das pessoas envolvidas. “Os coordenadores querem dedicar o seu tempo à atividade científica e não a questões burocráticas. Por isso, propomos a criação de centros especializados, possivelmente sediados em universidades, que prestem apoio técnico e administrativo”, explica.

Ciência cidadã reforça confiança pública

Para Jack Nunn, da organização Science for All e líder do estudo, a ciência cidadã desempenha também um papel importante no reforço da literacia científica e da confiança pública na investigação.

“O mundo enfrenta desafios complexos, como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e as crises de saúde pública, numa altura em que a ciência é frequentemente alvo de cortes de financiamento, politização e desinformação”, afirma.

Segundo o investigador, uma participação mais ampla da sociedade na produção de conhecimento científico é essencial para desenvolver soluções mais inclusivas, eficazes e baseadas em evidência.

Nunn defende igualmente uma maior transparência nos projetos de ciência cidadã, incluindo informação clara sobre a forma como são geridos, quem participa e quais as fontes de financiamento. “As democracias dependem de evidências partilhadas e a ciência cidadã pode ajudar a manter esse conhecimento nas mãos das pessoas”, destacou.

O estudo foi publicado na revista científica PLOS One e contou com financiamento da Associação Australiana de Ciência Cidadã, com o apoio da Academia Australiana de Ciências.

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