As focas são conhecidas pela sua impressionante adaptação à vida marinha, mas uma nova investigação internacional revela que um dos seus maiores trunfos pode estar nos ouvidos. Um estudo publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences concluiu que estes mamíferos desenvolveram a capacidade de ouvir eficazmente tanto em meio aquático como terrestre há cerca de 26 milhões de anos.
A investigação, liderada por cientistas da Universidade de Monash, na Austrália, identificou o papel de um tecido especializado presente no ouvido das focas, que lhes permite processar sons em dois ambientes acústicos radicalmente diferentes. Os resultados sugerem que esta capacidade, conhecida como audição anfíbia, é uma característica fundamental da evolução dos pinípedes — grupo que inclui focas, leões-marinhos e morsas.
“As focas têm um superpoder: conseguem ouvir e comunicar tanto em terra como no oceano”, afirma James Rule, autor principal do estudo. “A maioria dos mamíferos não consegue ouvir adequadamente debaixo de água, mas as focas desenvolveram ouvidos especializados para o fazer sem perder a capacidade de audição em terra.”
Para chegar a estas conclusões, os investigadores analisaram modelos tridimensionais de ouvidos obtidos através de tomografia computorizada, combinando dados de espécies atuais com fósseis preservados em coleções museológicas. Entre os espécimes estudados encontra-se Pithanotaria starri, uma espécie de leão-marinho primitivo que viveu há cerca de 10 milhões de anos e que já apresentava características associadas à audição anfíbia.
Segundo os autores, o desafio evolutivo era particularmente complexo porque o som comporta-se de forma muito diferente na água e no ar. Regra geral, estruturas auditivas adaptadas a um ambiente tendem a funcionar mal no outro. As focas, porém, conseguiram contornar essa limitação através de um sistema auditivo de dupla função.
“Desenvolveram um sistema altamente especializado capaz de funcionar de forma eficiente nos dois meios”, explica Natalie Cooper, investigadora do Museu de História Natural de Londres e coautora do estudo. “Conseguem processar sons de alta frequência debaixo de água e manter uma audição direcional apurada tanto no oceano como em terra.”
Os investigadores defendem que esta adaptação ajudou a impulsionar a diversidade vocal observada nos pinípedes atuais, permitindo-lhes comunicar em diferentes contextos ecológicos, desde colónias costeiras até ambientes marinhos profundos.
Para Alistair Evans, diretor do grupo de investigação EvoMorph da Universidade de Monash, esta capacidade representa uma vantagem evolutiva única. “As focas são os únicos animais do seu grupo a desenvolver esta flexibilidade sensorial. Conseguem alternar entre dois mundos acústicos completamente distintos sem perda de desempenho, seja para descansar, caçar ou comunicar.”
Os autores consideram que a descoberta ajuda a compreender melhor a evolução dos mamíferos marinhos e a forma como algumas espécies conseguiram adaptar-se com sucesso a ambientes extremamente diferentes, preservando capacidades essenciais à sua sobrevivência.









