Rola-de-socorro, à espera de voltar para casa
Declarada como extinta na Natureza em 1994, a rola-de-socorro existe atualmente apenas em zoos na Europa, nos Estados Unidos da América e no México. Há décadas que uma cooperação internacional entre cientistas, parques zoológicos e governos tem tentado reproduzir as aves em cativeiro para revitalizar a população perdida no seu habitat natural.
Chilreios, guinchos agudos, uns cantares mais melodiosos do que outros, alguns gemidos melancólicos. Entrar no habitat “Américas” do Zoomarine, em Albufeira, é, na verdade, como atravessar uma cortina invisível para um mundo à parte onde quem destoa somos nós, os humanos.
O mês de junho começara há escassos dias, mas naquela tarde o calor já se fazia sentir, fazendo adivinhar mais um verão escaldante. Sentados num banco de jardim, tão simples como qualquer outro que encontramos nos espaços verdes de uma cidade, Ricardo Neto, responsável pelo habitat “Américas”, e eu tentávamos ouvir-nos um ao outro numa atmosfera repleta de vozes de aves de muitas cores e feitios, todas elas oriundas das Américas, como bem denuncia o nome do recinto onde vivem.
Araras e periquitos estridentes, íbis-escarlates irrequietas, patos plácidos, seriemas de passada régia e corujas-buraqueiras de olhar desconfiado eram alguns dos animais não-humanos que, num aparente rebuliço, moviam-se à nossa volta.

Mais inconspícuas, quase impercetíveis aos olhos dos visitantes mais desatentos, eram umas aves que, quietas e silenciosas, contrastando com o pano de fundo, olhavam para a cena de umas gaiolas mais afastadas das luzes da ribalta. Mas foram precisamente essas aves que me fizeram viajar de Lisboa até ao Algarve: as rolas-de-socorro.
A espécie, de nome científico Zenaida graysoni, está classificada como extinta na Natureza, existindo atualmente apenas uns estimados 194 animais em 48 parques zoológicos no mundo inteiro. Foi observada pela última vez em meio selvagem, no seu habitat natural na Ilha de Socorro, no México, em 1972, e desde a década de 90 que um conjunto de organizações, articuladas num esforço global, tem procurado reproduzir a espécie em cativeiro. O objetivo é devolvê-la ao seu lar ancestral e revitalizar as suas populações selvagens.
No dia 14 de fevereiro deste ano, o Zoomarine, uma das entidades que participa no programa europeu de reprodução em cativeiro da espécie, anunciou o nascimento de mais uma cria de rola-de-socorro, a quarta desde que a instituição começou a acolher essas aves em 2021.
As duas primeiras, nascidas na primavera de há três anos, foram transferidas para o Zoo de Lagos, entidade que também participa nos esforços de reprodução em cativeiro da espécie. A terceira, que nasceu no outono seguinte, permanece no Zoomarine. Foi batizada com o nome Rolexa e emparelhada com o macho El Chapo, oriundo do zoo de Ostrava, na República Checa, que chegou ao Zoomarine em setembro de 2021. Esse casal ainda não gerou descendência, mas os técnicos ainda não perderam a esperança.
A cria mais recente, mais uma fêmea e batizada com o nome Anne, é filha da Amália, que chegou em novembro de 2024 do Zoo Royal Burgers, nos Países Baixos, e do Zelensky, que veio juntamente com o El Chapo.
A Amália foi emparelhada com o Zelensky depois de a primeira parceira do macho, que se chamava Esperanza, ter falecido. A Rolexa é filha dessa primeira fêmea, o que faz dela meia-irmã da nova cria Anne.
Ricardo Neto está com o programa de reprodução de rolas-de-socorro no Zoomarine desde o início e recorda que “é sempre um entusiasmo, é sempre fabuloso” quando se sabe que há reprodução. Especialmente porque se trata de uma espécie que já não existe no seu meio natural.
Embora cada nascimento seja uma vitória, o técnico admite que “o maior entusiamo de todos foi mesmo a primeira vez que conseguimos reproduzir”, descrevendo o sentimento como um de “esforço recompensado”.
Mas a reprodução em cativeiro da rola-de-socorro é apenas um dos mais recentes capítulos numa história de muitas décadas. Para conseguirmos perceber como aqui chegámos, temos de voltar atrás no tempo e viajar até às águas do Oceano Pacífico que banham o México.
Arquipélago de Revillagigedo: um oásis de vida
A cerca de 700 quilómetros para oeste da cidade portuária de Manzanillo, no estado mexicano de Colima, surge, no Pacífico Norte, o Arquipélago de Revillagigedo, um grupo de quatro ilhas: San Benedicto, Roca Partida, Clarión e Socorro. Declarado Património Mundial da UNESCO em 1994, Revillagigedo é considerado as “Galápagos do México” devido à grande diversidade de formas de vida que nele se pode encontrar.
No cruzamento de duas correntes marinhas – a da Califórnia, de águas mais frias, e a do Equador, mais quente –, esse arquipélago de origem vulcânica é um oásis de vida, tanto em terra como no mar. A alta produtividade das águas marinhas e o isolamento, característico de habitats insulares, fazem de Revillagigedo um foco de biodiversidade. Grandes congregações de tubarões, raias e de outros peixes pelágicos atraem mergulhadores de todo o mundo para essas águas prístinas, nas quais já se registaram das maiores aglomerações do mundo de mantas da espécie Manta birostris, de atuns, de tartarugas e de baleias. Acredita-se que Revillagigedo é, há milénios, uma vital zona de reprodução para as baleias-de-bossa (Megaptera novaeangliae).
Por causa do seu isolamento, o arquipélago é também lar de várias espécies endémicas, que não existem em mais qualquer outro lugar da Terra. São 61 no total, entre elas a pardela-de-townsend (Puffinus auricularis), criticamente em perigo de extinção. A Ilha de Socorro, a maior de Revillagigedo, é o único local do mundo onde essa ave ainda se reproduz e é aí que começa e, na verdade, acaba a história da rola com o mesmo nome.

A literatura científica aponta que o último avistamento de rolas-de-socorro no seu habitat natural aconteceu em 1972, no decorrer de uma expedição à ilha enviada pelo governo estadual de Colima. Missões posteriores em 1978 e 1981 não encontraram sinais da presença da ave, que, em 1994, foi oficialmente declarada como “Extinta na Natureza” pela União Internacional para a Conservação da Natureza.
Dois anos depois, num artigo publicado na revista ‘Ciencia y Desarrollo’, o ornitólogo lusodescendente Luis Felipe Baptista e o colega biólogo Juan Martínez Gómez, declaravam, com evidente pesar, que “sem qualquer margem para dúvidas, a rola-de-socorro já não habita na sua terra natal”.
Descoberta em 1867 pelo artista e ornitólogo norte-americano Andrew Jackson Grayson, cujo apelido serviu de inspiração para o seu nome científico, a rola-de-socorro pertence à família dos columbídeos, tal como os pombos que tão habilmente colonizaram as cidades europeias. Evolutivamente próxima da rola-carpideira (Zenaida macroura), é 40% mais pesada, podendo, em adulta, chegar aos 200 gramas.
As penas que cobrem o seu dorso são castanhas como as folhas secas do outono, mas o seu peito pode exibir as tonalidades mais claras do bronze. As patas são vermelhas e também o é o seu bico, que termina numa ponta preta. Na cauda, as penas passam progressivamente dos tons terrosos ao cinzento à medida que se afastam da raiz e acabam em pontas retangulares. No pescoço, podem ter penas iridescentes que refletem a luz numa paleta de diferentes cores vivazes. Os machos podem ter a nuca mais acinzentada do que as fêmeas, mas as diferenças entre sexos são, no final de contas, quase impercetíveis.
As rolas-de-socorro não vivem em bandos numerosos, pelo que os grupos tendem a cingir-se ao casal e às crias do ano. Alimentam-se sobretudo de sementes, pelo que são uma espécie maioritariamente granívora, embora possam também comer frutos (por isso são consideradas importantes dispersores de sementes e agentes de regeneração dos ecossistemas) e alguns invertebrados. Normalmente, ambos os progenitores, que acasalam para a vida, partilham a responsabilidade de cuidar das crias.
Apesar de poderem viver até aos 12 anos, as rolas-de-socorro têm um período fértil relativamente curto, do primeiro ano de vida aos seis ou sete. As fêmeas põem, média, dois ovos por postura.
Quando a cria já está independente dos pais, já se alimenta sozinha e sabe cuidar de si, a fêmea reinicia o ciclo reprodutor, pelo que, se as condições forem as ideais, com temperaturas amenas, alimento e água, pode haver várias posturas por ano.
Estas aves habitaram em florestas pouco húmidas, com especial predileção por altitudes superiores a 500 metros acima do nível do mar.
Por tudo isso, é “uma espécie notável”, descrevia Baptista em 1991, especialmente por causa do seu temperamento dócil e amistoso, traço partilhado por diversas espécies insulares. Tendo evoluído numa ilha tranquila, sem presença de humanos e de outros predadores, a rola-de-socorro “não conhece a maldade”, como escreveu, em 1982, Manuel Velasco-Murguía, jornalista e historiador de Colima. O mesmo autor dizia que era um animal que se movia com “passitos curtos” e que fazia pequenos voos, preferindo deslocar-se pelo solo das florestas onde vivia em vez de se lançar em grandes aventuras aéreas.

Relatos de outros exploradores salientavam que as rolas, ao verem humanos, corriam para eles, levadas por uma aparente intensa curiosidade, estacando a escassos metros dos forasteiros e olhando-os fixamente.
Tal como a falta de defesas levou à extinção do dodó nas Ilhas Maurícias no século XVII, também a docilidade da rola-de-socorro a empurrou para lá do limiar da extinção na Natureza.
Os registos indicam que o desaparecimento da espécie coincidiu com a construção de uma base naval mexicana na Ilha de Socorro em meados da década de 1950. Com os humanos, chegaram lá animais não-nativos, que, no decurso do tempo, acabaram por ter efeitos devastadores no ecossistema do qual dependia a rola e outras espécies não-humanas.
Foram levadas ovelhas, criadas para alimento e para produção de roupas através da sua lã, e também gatos como animais domésticos. Em menos de nada, a ilha de Socorro foi profundamente transformada. A herbivoria das ovelhas dizimou as comunidades vegetais de que a rola dependia e os gatos, tornados assilvestrados, converteram-se em predadores vorazes da ave.
Contudo, há outros relatos que sugerem que a erradicação das rolas-de-socorro terá começado logo no século no final do século XIX. Num artigo publicado em 2016 na revista ‘Interciencia’, um grupo de cientistas do México diz que “em 1869, 100 ovelhas foram introduzidas na Ilha de Socorro” para servir de alimento a pescadores e navegadores. “Com o tempo”, afirmam, “as ovelhas tornaram-se ferais, adaptando-se com sucesso às condições da ilha” e causando uma “grande modificação no habitat natural”, sobretudo devido à perda de vegetação e à consequente erosão do solo.
Os investigadores chegaram, no final, à conclusão de que “as ovelhas ferais contribuíram, juntamente com os gatos ferais (Felis catus), para a extinção na natureza da endémica rola-de-socorro (Zenaida graysoni)”.
Não sendo uma espécie migradora e com uma distribuição limitada a uma ilha com perto de 130 quilómetros quadrados de área, a rola-de-socorro não tinha como escapar à perdição, causada pela chegada dos humanos a um local que não estava preparado para resistir aos seus impactos.
No entanto, os seus admiradores não baixaram os braços e lançaram-se numa façanha nada menos que épica, repleta de avanços e retrocessos, para devolver a rola-de-socorro ao seu lar ancestral.
Como tudo começou
Em 1989, depois de ter visitado, um ano antes, a Ilha de Socorro e de ter visto com os seus próprios olhos a devastação sofrida pelo habitat da rola-de-socorro, Luis Felipe Baptista, em conjunto com outros colegas, fundou a Island Endemics Foundation, uma organização sem fins lucrativos que tinha, e continua a ter, como objetivos a recuperação da espécie através da sua reprodução em cativeiro para posterior reintrodução e o restauro do seu habitat.
Foi então que se começaram a dar os primeiros passos em direção a uma cooperação internacional formalmente organizada para devolver à Ilha de Socorro uma das suas espécies mais emblemáticas.
Entre 1988 e 1995, Baptista, que se recusava a aceitar que tudo estava perdido, fez várias visitas à ilha para tentar avaliar a viabilidade de um projeto de reintrodução, que viria a ser conhecido como ‘Socorro Dove Project’.

O ornitólogo estava convicto de que tal era possível, uma vez que o habitat da rola, embora degradado, ainda existia. Para que pudesse regressar “à sua condição primordial”, dizia, ecoando autores do seu tempo e outros que vieram depois, era preciso, primeiro que tudo, remover as ovelhas e os gatos que, entretanto, se tinham disseminado pela ilha.
No mesmo artigo publicado na revista ‘Interciencia’, os cientistas argumentavam que a remoção das ovelhas era a única forma de recuperar o habitat em Socorro, condição indispensável para uma eventual reintrodução das rolas.
No que aos olhos de alguns pode ser considerado um dos lados negros da conservação, deu-se início a ações de eliminação das ovelhas, por via da caça por exemplo, e dos gatos que viviam na ilha.
Entre 2009 e 2012, um total de 1.762 ovelhas ferais foram abatidas em Socorro. Nos dois anos seguintes, expedições à ilha confirmaram a completa eliminação desses animais do habitat insular. Em junho de 2014, foi oficialmente declarada como estando livre de ovelhas.
Essa campanha de três anos de erradicação de uma espécie considerada invasora, por não fazer naturalmente parte do ecossistema e por ser ecologicamente prejudicial, custou perto de 500 mil dólares e contou com o apoio da Marinha mexicana.
Os cientistas olham para esta ação como um sucesso, uma vez que “desde a conclusão do projeto de erradicação das ovelhas, a vegetação começou a recuperar passivamente”. Comparando imagens de satélite de 2008 e 2013, assinalam uma regeneração significativa da flora em 1.450 hectares de Socorro, um primeiro passo crucial para a reintrodução da rola.
“Ansiamos pelo dia em que as colinas e vales da Ilha de Socorro voltarão, uma vez mais, a encher-se com os arrulhos assombrosos das rolas-de-socorro”, escreveu Baptista há mais de 30 anos. Mas, pelo menos por agora, esse dia ainda está longe.
Uma história transatlântica
Já na década de 1920, perto de 20 rolas-de-socorro tinham sido capturadas e enviadas para os Estados Unidos da América (EUA) por cientistas da Academia de Ciências da Califórnia, para reprodução em cativeiro. Já na altura havia preocupações sobre as alterações que os ecossistemas da ilha tinham sofrido, e continuavam a sofrer, e sobre o destino da rola. Isso foi ainda antes da definição de um esforço organizado internacional com vista à sua eventual reintrodução.
Acontece que nos EUA as populações de rolas-de-socorro sofreram o que na gíria científica se designa por hibridação. Ou seja, as rolas-de-socorro reproduziram-se – não se sabe se foi um acidente ou se foi propositado – com rolas-carpideiras. Por isso, não eram viáveis para reintrodução.
Chegados a 1995, do outro lado do Atlântico, a Associação Europeia de Zoos e Aquários (AEZA) deu início a um programa de reprodução em cativeiro com o apoio de parques zoológicos na Europa, que, entretanto, tinham adquirido aves da espécie então já extinta na Natureza. O derradeiro objetivo? Reconstruir a população de rolas-de-socorro na ilha mexicana.
A demanda começou nos zoos de Colónia e de Frankfurt, na Alemanha, sendo que esse último é ainda o coordenador do programa. Desde então, várias dezenas de instituições zoológicas na Europa e também nos EUA juntaram-se ao movimento.

Porém, esta não é uma história linear, mas sim cheia de avanços e recuos.
Como as populações norte-americanas de rola-de-socorro tinham a sua genética “contaminada” com o ADN de outra espécie, foi decidido que os grupos a cargo dos zoos europeus é que seriam usados em futuras ações de reintrodução.
Por volta de 2003, foram construídos aviários em Socorro, já tendo em mente a receção dos animais europeus que seriam os fundadores da renascida população da espécie no seu habitat de origem. Dois anos depois, cientistas esquadrinharam a ilha em busca de doenças que pudessem afetar as rolas-de-socorro, especialmente patógenos que pudessem ser transmitidos por outras espécies de rolas que viviam na ilha, como a rola-carpideira e a rolinha-cinzenta (Columbina passerina). Os especialistas diziam que animais criados em cativeiro podem ser mais vulneráveis a doenças do que os que crescem em meio selvagem, pelo que era preciso assegurar que não havia um risco significativo para as aves que fossem reintroduzidas.
Em junho de 2005, era suposto chegarem à ilha as primeiras rolas-de-socorro oriundas do programa europeu de reprodução em cativeiro. A esperança era que, no ano seguinte, já se conseguisse registar sinais de reprodução. Mas quis o destino que assim não fosse.
Nesse ano, um surto de gripe aviária avançou pela Europa, pelo que o governo mexicano proibiu a importação de aves para o país, incluindo as rolas-de-socorro. No entanto, decidiu-se criar uma segunda população nos EUA, como uma “reserva de segurança”, caso os núcleos europeus fossem afetados pelo vírus.
Assim, em outubro, foram enviadas 12 rolas dos zoos de Paignton e Edimburgo, no Reino Unido, para o Parque Biológico de Albuquerque, no estado norte-americano do Novo México, o primeiro zoo dos EUA a juntar-se efetivamente ao esforço de reprodução em cativeiro e reintrodução da espécie.
Em 2013, aproximadamente 60 rolas reproduzidas no zoo de Albuquerque foram enviadas para o Africam Safari, na cidade mexicana de Puebla, para aí, no país-natal, poderem formar uma população cujos descendentes, um dia, regressariam à casa de onde, há tantas décadas, foram extirpados. Hoje esse zoo tem várias rolas-de-socorro prontas para serem transferidas para as instalações construídas há mais de 20 anos em Socorro, onde poderão adaptar-se ao habitat e, se tudo correr bem, serem libertadas, marcando o início de uma nova etapa na história da espécie. Mas ainda há caminho a percorrer.
O trabalho de restauro ecológico na Ilha de Socorro está em curso, com ações de plantação promovidas pelo Instituto de Ecologia do governo mexicano, de espécies vegetais autóctones. Além disso, e apesar dos esforços, a presença de gatos continua a gerar preocupação entre os conservacionistas, bem como de ratos, que podem ser predadores das crias de rolas.
Os zoos estão prontos para dar arranque ao transporte das aves para a Ilha de Socorro, 53 anos depois do último avistamento na Natureza, e um século após os primeiros animais terem sido levados da ilha para reprodução em cativeiro do outro lado do Atlântico.
No entanto, Socorro ainda está a recuperar de séculos de danos ecológicos e a tentar curar as suas feridas, com alguma ajuda humana. É um processo longo e é difícil saber ao certo quando as rolas-de-socorro retornarão, por fim, ao seu lar ancestral. Além disso, é possível que entraves burocráticos e legislativos no México estejam a tornar o processo ainda mais moroso e incerto.
A Associação Britânica e Irlandesa de Zoos e Aquários, num texto publicado no seu portal online em janeiro deste ano, diz que o objetivo é que a reintrodução comece em 2030. Resta esperar para ver.
Juan Martínez Gómez, que em 1996, juntamente com Luis Felipe Baptista, declarava que não havia dúvidas de que a rola-de-socorro tinha desaparecido do seu habitat natural, reconhece, num texto publicado no passado mês de julho no jornal mexicano ‘La Crónica’, que as décadas de colaboração internacional bem-sucedida entre cientistas, zoos, organizações e autoridades governamentais impediu que a espécie desaparecesse para sempre.
Contudo, o agora técnico do Instituto de Ecologia do México avisa que “o trabalho ainda não terminou” e que “com toda a experiência acumulada e os avanços conseguidos, é o momento de dar o grande passo seguinte: a sua reintrodução na Ilha de Socorro”.
O biólogo, em coautoria com a colega Noemí Matías Ferrer, do mesmo organismo, refere que a reintrodução é não só um compromisso assumido pelo México no âmbito da Convenção das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica, mas está também plasmado nos documentos que criaram, nos anos 90, o Parque Nacional do Arquipélago de Revillagigedo.
E deixa outra mensagem: “não é apenas uma obrigação legal, é uma dívida ecológica e moral para com uma espécie que nos pertence, para com um ecossistema que precisa de se recuperar e para com as futuras gerações que merecem conhecer a riqueza da nossa biodiversidade”.
Uma vida, para já, só em cativeiro
Enquanto não se pode, uma vez mais, observar e estudar as rolas-de-socorro no seu ambiente natural, há que fazê-lo em cativeiro e tentar adquirir o máximo de conhecimento possível sobre como vivem, ainda que em condições não-naturais, mas, ainda assim, o mais próximas possível do que seria o seu meio selvagem.
Ricardo Neto, o responsável do habitat “Américas” do Zoomarine, conta que há literatura científica que ajuda as equipas dos zoológicos a cuidarem dessas aves, e que podem também contar com a troca de conselhos, conhecimento e práticas entre instituições que tenham experiência com a espécie.
Enquanto conversávamos, notei que, a uns metros de nós, por trás da malha metálica rígida que formava a sua gaiola, uma rola-de-socorro parecia fixar-nos com os seus olhos pequenos e escuros. Era a jovem e mais recente cria, a Anne, sentada, muito quieta, no seu poleiro. Era como se soubesse que falávamos dela.

Apesar de todo o conhecimento existente sobre como cuidar da espécie em cativeiro, há uma diferença entre o que se diz e como realmente agir quando a situação o exige. Ricardo Neto recorda que a fêmea Esperanza, a certa altura, depois de nascidas as suas primeiras crias no Zoomarine, pareceu ter perdido o interesse em cuidar delas e abandonou o ninho, deixando o macho, o Zelensky, na condição de “pai solteiro”.
O técnico lembra que a equipa ficou um pouco sem saber como atuar, mas, como as crias eram já suficientemente grandes para poderem viver com os cuidados de apenas um dos progenitores, decidiu não interferir e deixá-las seguir o seu rumo. E, por fim, correu tudo bem.
“É difícil fazer a escolha. Se não interferimos, depois pensamos que devíamos ter interferido. Mas optámos por deixar o macho fazer o trabalho dele, e funcionou bem.”
As rolas-de-socorro têm também o que só pode ser descrito como um “relógio biológico” altamente preciso, que poria a um canto qualquer peça de relojoaria de alta gama. Explica Ricardo Neto que a incubação dos ovos dura “exatamente” 16 dias e que “ao 17.º, ou nascem as crias ou o macho e a fêmea perdem o interesse e abandonam o ninho”.
Pouco se sabe sobre como viviam na Natureza. Em cativeiro, as rolas-de-socorro aprendem a voar por volta dos 20 dias após o nascimento, mas permanecem com os progenitores durante mais algum tempo, ainda dependendo dos seus cuidados. Estima-se que as crias se tornam independentes por volta de um mês após terem saído do ovo.
“Quando depois vemos que a cria está mais independente, que os pais já não lhe ligam tanto e que ela já não lhes liga muito, então colocamo-la noutra instalação”, conta o técnico do Zoomarine. E isso acontece “por razões diversas”, sendo que uma delas é a segurança da cria, pois estes animais são bastante territoriais.
“A partir do momento que ela se torna um juvenil, pode já não haver uma aceitação por parte dos progenitores e, para evitar alguma agressão, separamo-los”, salienta, acrescentando que, no que toca a essa separação, “não há uma altura específica. É quando achamos que a cria está 100% autónoma e quando já se comportam mais como indivíduos diferentes e não tanto como família, digamos assim”.
Os rituais de galanteio são também um mistério, pois não há registos documentados desse comportamento na Natureza. Uma vez mais, há que recorrer ao conhecimento adquirido em cativeiro.
Nesta espécie, que acasala para a vida, não há grandes danças nupciais. No entanto, macho e fêmea vocalizam mais intensamente para reafirmarem os seus “votos matrimoniais” e estreitarem os seus laços enquanto casal. As rolas-de-socorro, nesse aspeto, são mais discretas do que parentes como os pombos-das-rochas (Columba livia), espécie muito comum nas cidades e em que os machos emitem arrulhos bem audíveis e perseguem, ziguezagueantes, as fêmeas com determinação, na esperança de lhes conquistarem o coração.
No que toca às interações entre machos e fêmeas de rolas-de-socorro, “às vezes há uns pequenos contactos entre eles que parecem agressões, mas não são. São umas ‘pancadinhas de amor’, e começa a perceber-se que se aceitam como casal”, refere Ricardo Neto.
A Anne, nascida em fevereiro passado, está totalmente independente dos seus pais e, em breve, poderá começar a dar os seus próprios contributos para a revitalização da sua espécie. Quem sabe se, num futuro talvez não muito distante, os seus netos, bisnetos e trinetos serão aqueles que liderarão a recolonização da Ilha de Socorro, sendo dos primeiros a pisar o solo que os seus antepassados, há menos de um século, ainda pisavam.
Conservação num mundo em mudança
O progresso das crises planetárias – alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição – está a tornar cada vez mais desafiante a conservação de espécies ameaçadas de extinção. Condições mais quentes e áridas avançam cada vez mais para norte, alterando profundamente, e até com impactos devastadores, ecossistemas inteiros, incluindo áreas onde estão a ser feitas ou planeadas reintroduções.
João Neves, diretor de conservação do Zoomarine, conta-nos que as alterações climáticas podem deslocar os nichos ecológicos de muitas espécies para outros locais que não aqueles de onde são originárias. Nesses casos, devemos reintroduzir espécies ameaçadas noutras zonas com condições mais favoráveis? Devemos reintroduzi-las nos mesmos sítios de origem, mesmo que as condições já não sejam totalmente ótimas? Devem fazer-se essas ações de todo?
O responsável diz que essas são questões ainda sem resposta, mas que provocam a reflexão sobre os limites da própria conservação na sua luta incessante contra a perda de biodiversidade e contra a extinção.
Quanto à rola-de-socorro, João Neves acredita que “ainda estamos longe” de uma reintrodução, não só porque a Ilha de Socorro ainda não está suficientemente recuperada em termos ecológicos, mas também porque a população em cativeiro ainda não é suficientemente numerosa para assegurar o sucesso dessa ação.
Até lá, “temos de continuar a trabalhar para que os zoos sejam a salvaguarda desta espécie”, sublinha, descrevendo-a como “uma espécie simbólica” da época crítica que o planeta atravessa, fruto dos impactos que sobre ele tem tido a humanidade.
“É uma espécie quase poética, ainda por cima com ‘Socorro’ no nome”, aponta. E lamenta que hoje vivamos um cenário “paradoxal”, na medida em que “andamos a trabalhar, por um lado, para tentar conservar, proteger e renovar as populações de espécies selvagens, e, por outro, continuamos a alterar o ambiente”.
João Neves destaca que fazer conservação num planeta em transformação “é cada vez mais complicado”, mas, numa nota de esperança, assevera que “o ser humano, além de ter capacidade para alterar o ambiente, também tem a capacidade e o engenho para recuperá-lo”.
Só o tempo dirá quando e como a rola-de-socorro – todas as pequenas Annes pelo mundo fora – voltará à casa dos seus antepassados, e os conservacionistas continuam empenhados em impedir que mais uma espécie se perca e se torne apenas mais uma numa lista cada vez maior de extinções.
