Por Bernardo Soares, DVM | One Health Director UPPartner
Sustentabilidade, sustentabilidade e mais sustentabilidade. O termo tornou-se omnipresente nos últimos anos. Mas, apesar da repetição, continua frequentemente reduzido à sua dimensão ambiental, como se fosse um tema setorial ou complementar. Não é. Sustentabilidade significa sustentar, preservar equilíbrio e garantir continuidade. E, nesse sentido, é impossível falar de futuro sem falar de saúde.
Existe sustentabilidade ambiental, social e económica. Mas há uma dimensão menos discutida e absolutamente central: a sustentabilidade em saúde. Se reconhecemos que a saúde é um dos bens mais preciosos que possuímos, então é imperativo compreendê-la como algo que precisa de ser sustentado — e não apenas tratado quando falha.
A saúde não começa nos hospitais nem nas clínicas. Começa no território. Começa nas escolhas quotidianas: na forma como nos alimentamos, como nos deslocamos, como gerimos resíduos, como cuidamos dos animais e como ocupamos o espaço. Cada decisão individual produz um efeito cumulativo sobre o ambiente que nos envolve — e esse ambiente molda diretamente a nossa saúde.
A relação é simbiótica. Quando o equilíbrio ambiental se deteriora, a saúde humana acompanha esse declínio.
Tomemos o exemplo dos incêndios, uma realidade infelizmente recorrente no nosso país. Para além das causas imediatas, representam um sintoma estrutural de impreparação do território e de ausência de uma cultura preventiva consolidada. A destruição de ecossistemas não se limita à perda de floresta. Significa degradação da qualidade do ar, erosão dos solos, perda de biodiversidade, impacto económico e vulnerabilidade social. Tudo isto se traduz, inevitavelmente, em consequências sanitárias — físicas e mentais — para populações humanas e animais.
Outro exemplo recente são as inundações que atingiram diferentes regiões do país. Para além da intensidade das tempestades, ficou exposta a fragilidade dos solos e a insuficiência de planeamento adaptado a fenómenos extremos. Quando os territórios se tornam vulneráveis e as infraestruturas colapsam, a saúde pública é diretamente afetada. A sustentabilidade ambiental, social, económica e sanitária revela-se, afinal, uma única realidade interligada.
A grande questão é esta: continuamos a tratar a sustentabilidade como um sacrifício ou um custo, quando na verdade é uma estratégia de prevenção. Escolhas mais sustentáveis são, muitas vezes, escolhas mais saudáveis — e mais racionais a médio prazo.
A persistente falta de literacia em saúde está profundamente ligada à insuficiente literacia ambiental. Podemos discutir se são formalmente indissociáveis, mas negar a sua interdependência é um erro crasso. Sem compreender o impacto das nossas escolhas sobre o território e tudo o que nele se insere, dificilmente compreenderemos o impacto dessas mesmas escolhas sobre o nosso próprio bem-estar.
Sustentabilidade em saúde, tal como as alterações climáticas, é uma realidade e uma necessidade, não um mero conceito ideológico A saúde só é verdadeiramente sustentável quando decisões individuais, coletivas e políticas contribuem para manter equilibrado o sistema que nos sustenta.
Cuidar do planeta não é uma agenda paralela à saúde. É a primeira forma de prevenção.









