Cerca de 60 manifestantes indígenas bloquearam hoje pacificamente a entrada da conferência do clima (COP30) que decorre em Belém, Brasil, procurando sensibilizar para a questão da Amazónia e falar com o Presidente brasileiro, Lula da Silva.
O protesto interrompeu a conferência climática da ONU na Amazónia brasileira, tendo o bloqueio durado aproximadamente duas horas.
A ação acontece numa altura em que a organização do evento, que decorre entre 10 e 21 de novembro, coorganizado pelo Governo brasileiro e pela ONU, tem sido questionada após uma incursão na noite de terça-feira de outros manifestantes indígenas, que entraram em confronto com as forças de segurança.
Na manhã de hoje a concentração de membros da comunidade de Munduruku causou algum caos e interrompeu a programação de dezenas de milhares de delegados e observadores. Obrigou ainda o presidente da conferência, o diplomata brasileiro André Correa do Lago, a reorganizar a sua agenda para ir ao local falar com os manifestantes.
Depois de se reunir com o grupo, o presidente da COP30 reconheceu as “preocupações muito legítimas” dos manifestantes indígenas.
“Foi um diálogo muito positivo”, disse aos jornalistas após a reunião, acrescentando: “Procuraremos avançar com todas as suas reivindicações”.
Entre as questões levantadas pelos manifestantes estão reivindicações relacionadas com a demarcação de terras. Contestam também a proposta de uma linha férrea na Amazónia para o transporte de cereais.
Os manifestantes, a maioria em tronco nu e com toucados tradicionais, posicionaram-se em frente à entrada principal da “Zona Azul”, o coração da conferência onde decorrem as negociações climáticas. Homens e mulheres de todas as idades, alguns com bebés, bloquearam também uma rua adjacente.
Com a “manifestação pacífica”, que não representava “qualquer perigo” segundo um comunicado da ONU, as pessoas que participavam na COP30 tiveram de utilizar uma entrada lateral durante o protesto. Reforços militares foram mobilizados em redor do local.
“Lutar pelo nosso território é lutar pelas nossas vidas”, proclamava um cartaz empunhado por um dos manifestantes, que protestavam contra os grandes projetos de infraestruturas na Amazónia e exigiam uma reunião com o Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.
“Exigimos a presença do Presidente Lula, mas infelizmente, como sempre, não conseguimos. Nunca fomos ouvidos”, disse a jornalistas uma representante dos manifestantes.
Lula da Silva autoproclama-se um aliado da causa indígena. Entre as suas conquistas destacam-se o reconhecimento oficial de 16 terras indígenas, uma redução drástica da desflorestação e a nomeação de uma figura respeitada, Sonia Guajajara, para chefiar o primeiro Ministério dos Povos Indígenas.
No entanto, muitos criticam a lentidão na demarcação de terras indígenas e a procura de petróleo iniciada em outubro perto da foz do rio Amazonas. Sem contar com o projeto da linha férrea, o Ferrogrão, de quase mil quilómetros.
Na noite de terça-feira, outros manifestantes indígenas invadiram a “Zona Azul” e entraram em confronto com as forças de segurança.
Segundo a imprensa, o chefe da ONU para as Alterações Climáticas, Simon Stiell, denunciou uma “grave violação do quadro de segurança estabelecido”, numa carta às autoridades brasileiras.
Embora tenha reiterado que a segurança dentro da “Zona Azul” é confiada ao Departamento de Segurança das Nações Unidas, o Governo brasileiro afirmou na quinta-feira que reforçou as medidas de segurança após o incidente.









