Foi nas imediações da Lagoa de São José, no concelho de Pombal, que um grupo de cientistas descobriu o que diz ser uma espécie de borboleta nunca antes descrita para qualquer parte do mundo.
Mais especificamente, a borboleta foi encontrada na margem de um estradão florestal que atravessa a Mata Nacional do Urso. Recordam os investigadores, em comunicado, que esta área foi severamente afetada pelo incêndio que consumiu o Pinhal de Leiria em 15 de outubro de 2017. No entanto, restaram uns quantos hectares densamente florestados “que continuam a albergar um conjunto interessante de fauna e flora”, dizem, explicando que a nova espécie foi detetada através de um método chamado de “armadilhagem luminosa noturna”.

A descoberta é divulgada num artigo publicado na revista ‘Nota Lepidopterologica‘, assinado por Martin Corley, Jorge Rosete e Sónia Ferreira.
“Entre 2020 e 2024 foram instalados diversos pontos de luz ao longo da área amostrada, os quais permitiram a deteção e captura dos espécimes sujeitos a análise laboratorial no CIBIO, Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos”, avançam os cientistas em nota.
Batizada com o nome científico Monochroa monellii, a nova borboleta mede entre os 8 e os 10 milímetros e tem um padrão de cores “pouco vistosos”, dizem os seus descobridores, pelo que dificilmente será detetável no seu habitat natural por um olhar destreinado”.
Trata-se de uma espécie noturna, pelo que durante o dia estará abrigada, quase invisível por causa dos seus tons pardos, sob a vegetação rasteira. Quando perturbada, denuncia a sua localização, mas, por ser tão pequena, com facilidade voltará a desaparecer da nossa vista.
O nome desta nova espécie faz referência à planta hospedeira.
“Após insistentes trabalhos de campo foi possível estabelecer uma relação entre este inseto e o morrião-das-areias (Anagallis monelli) uma pequena planta, cujas flores são de um azul vívido e que coloniza as zonas arenosas do litoral”, detalham os investigadores.
Ainda que não tenham conseguido encontrar sinais de larvas da borboleta nas folhas dessa planta, “em diversos exemplares recolhidos foi possível observar a presença de pequenos túneis de seda adjacentes à zona do caule, junto à raiz”, dizem. Nesses pequenos túneis encontraram pupas cujos ocupantes, viria a descobrir-se, pertenciam à nova espécie.
Além disso, ao combinarem a análise da morfologia com técnicas genéticas, os investigadores aperceberam-se do que descrevem como “o carácter biológico único desta espécie, demarcando-se de outras similares”.
Uma vez que a planta hospedeira ocorre noutros locais e não se trata de uma espécie ameaçada, a equipa acredita que será possível que a nova borboleta existe noutros locais ao longo da linha costeira
“Sabe-se, no entanto, que é crescente a pressão que tem vindo a ser exercida sobre o litoral, nomeadamente aquela que decorre de projetos urbanísticos, pelo que no futuro importa cartografar com maior precisão qual é, afinal, a sua distribuição no território e em que estado se encontram as suas populações”, salientam.
Os investigadores lançam também críticas à forma como a prevenção de incêndios está a ser conduzida no país, em especial no que toca a ações de controlo de potenciais fontes de ignição.
“Num afã de reduzir ao máximo a massa arbustiva adjacente aos núcleos florestados por se considerar que ela constitui, por si só, uma fonte facilmente propagadora do fogo, são atualmente conduzidas verdadeiras operações de raspagem do solo que ameaçam a integridade destes microhabitats. Fica assim comprometida a capacidade de regeneração do coberto herbáceo e arbustivo e, por arrasto, a viabilidade das espécies de fauna que aí se alojam como é o caso da Monochroa monellii.”
Ademais, esperam que esta descoberta possa “promover também uma reflexão crítica acerca do modo como neste momento estão a ser encaradas as áreas ditas ‘incultas’ tantas vezes confinantes com outras de maior estatuto em virtude do seu valor económico”.









