O pargo, espécie central para a vida costeira no sul da Austrália, poderá ser mais complexo do que se pensava do ponto de vista biológico. Um novo estudo da Flinders University conclui que, embora as populações estejam altamente ligadas entre si, não são totalmente intercambiáveis.
A investigação, baseada em dados genómicos recolhidos ao longo de mais de 1.500 quilómetros de costa, identificou duas grandes populações regionais com elevada conectividade interna. No entanto, os cientistas descobriram que fatores ambientais locais, como a salinidade e a temperatura mínima da superfície do mar, desempenham um papel determinante na adaptação destas populações.
Segundo o autor principal do estudo, Chris Brauer, a mobilidade dos peixes não garante o sucesso em novos habitats. “Os pargos conseguem deslocar-se por grandes distâncias, mas isso não significa que as características que possuem lhes permitam prosperar em qualquer ambiente”, explica.
Os resultados mostram que certas diferenças genéticas, associadas às condições ambientais locais, são mantidas ao longo do tempo, especialmente em zonas como Ceduna e o norte do Golfo Spencer. Isto sugere que apenas alguns indivíduos conseguem sobreviver e reproduzir-se com sucesso fora das suas áreas de origem.
Para o diretor do laboratório de Ecologia Molecular da universidade, Luciano Beheregaray, estas conclusões têm implicações diretas na recuperação das populações. “A recuperação não depende apenas da deslocação de peixes de zonas mais abundantes, mas também da capacidade de sobrevivência e reprodução nos locais certos”, afirma.
O estudo não põe em causa os modelos atuais de gestão das pescas, mas acrescenta novos dados relevantes, sobretudo em regiões onde os stocks de pargo têm vindo a diminuir. A perda de populações com adaptações específicas poderá comprometer a capacidade de recuperação da espécie.
Os investigadores alertam ainda para a crescente pressão sobre os ecossistemas marinhos costeiros, agravada por fenómenos recentes como proliferações de algas nocivas e mortalidade em massa de espécies marinhas no sul da Austrália.
Entre as recomendações estão a proteção de áreas-chave de desova e crescimento, uma maior coordenação entre regiões e a integração de monitorização genómica nos planos de gestão e recuperação.
“Os padrões históricos podem já não ser um guia fiável num oceano em mudança”, sublinha Brauer. “Considerar simultaneamente a conectividade e a adaptação local permite compreender melhor como estas populações sobrevivem e como podemos reforçar a sua resiliência.”









