Entrevista: “Os microplásticos já contaminam os nossos alimentos ao longo de toda a cadeia”

Investigador alerta para contaminação crescente dos solos agrícolas e riscos para a saúde

Ana Filipa Rego

Os microplásticos estão a entrar nos sistemas agrícolas por múltiplas vias – desde biossólidos usados como fertilizantes a plásticos de cobertura e fertilizantes revestidos – acumulando-se nos solos e comprometendo a sua qualidade ao longo do tempo. A explicação é de Tony Walker, professor na Dalhousie University, que participa no Congresso Internacional 1H-TOXRUN 2026, co-organizado pela unidade de investigação da CESPU com este nome em conjunto com a Ordem dos Farmacêuticos, e que coloca o conceito One Health no centro do debate. Em entrevista à Green Savers, o investigador sublinha que muitos destes materiais, incluindo os ditos biodegradáveis, acabam por se fragmentar, contribuindo para uma contaminação persistente.

Do ponto de vista da saúde, o problema já ultrapassou o plano ambiental. “Os microplásticos já contaminam os nossos alimentos ao longo de toda a cadeia, desde a produção até ao consumo (do ‘campo ao prato’)”, afirma. Segundo o especialista, partículas mais pequenas — incluindo nanoplásticos – podem atravessar barreiras celulares e acumular-se no organismo humano, tendo já sido detetadas em tecidos como o sangue, fígado ou placenta, com potenciais efeitos como disrupção endócrina e impactos na fertilidade.

Perante este cenário, defende uma mudança estrutural no setor agroalimentar, alinhada com o conceito One Health. “O impacto dos microplásticos no ambiente e nos organismos é indiscutível”, sublinha, defendendo uma abordagem de precaução e a eliminação de plásticos não essenciais. Para o investigador, a transição para materiais de base biológica e verdadeiramente biodegradáveis, aliada a regulação internacional e novos modelos de produção, será decisiva para enfrentar um problema que “já não pode ser ignorado”.

De que forma é que os microplásticos estão hoje a entrar nos sistemas agrícolas e que impactos já conseguimos identificar na qualidade dos solos e dos alimentos?

Existem inúmeras vias pelas quais os microplásticos entram nos sistemas agrícolas. Alguns exemplos principais incluem microplásticos retidos em biossólidos (que são eficientemente capturados e filtrados nas estações de tratamento de águas residuais), mas que acabam por ser secos e aplicados nos solos agrícolas (fertilizantes), para melhorar a fertilidade do solo e aumentar o teor de carbono orgânico. Ironicamente, estes biossólidos, que são adicionados para melhorar a saúde do solo, acabam por ter impactos negativos na saúde e produtividade do solo ao longo do tempo.

Outras vias importantes incluem os fertilizantes revestidos com plástico, que, mais uma vez, são utilizados para melhorar a fertilidade do solo, mas acabam por ter consequências negativas não intencionais, levando à contaminação dos solos com microplásticos. Embora estes fertilizantes revestidos com plástico sejam por vezes concebidos para serem biodegradáveis, muitos dos plásticos biodegradáveis disponíveis no mercado são derivados de matérias-primas plásticas de origem fóssil (convencionais) e não se degradam adequadamente no ambiente natural, fragmentando-se, na verdade, em microplásticos secundários.

Outros exemplos incluem os plásticos para cobertura do solo (mulchings), concebidos para reter a humidade. Estes incluem plásticos convencionais de origem fóssil, bem como misturas com plásticos biodegradáveis ou de base biológica, mas nem todos se degradam completamente, e a maioria acaba por ser incorporada no solo, uma vez que não pode ser eficazmente recuperada e reciclada. Tal como muitos plásticos no ambiente, estes filmes sofrem desgaste e fragmentam-se em microplásticos no solo.

 Ao longo do seu trabalho, tem também explorado o potencial uso de microplásticos na agricultura. Em que circunstâncias é que essa utilização pode ser considerada sustentável – e onde devem ser traçadas linhas vermelhas?

Relativamente ao uso de plásticos biodegradáveis acima referido, o uso contínuo e necessário de plásticos na agricultura deve eliminar progressivamente os plásticos derivados de combustíveis fósseis e remover os aditivos plásticos nocivos (tóxicos). Deve ocorrer uma transição para plásticos 100% de base biológica, que sejam totalmente biodegradáveis em condições ambientais normais.

Tudo isto exigirá aumento de escala, mas com uma avaliação cuidadosa de quaisquer consequências ambientais não intencionais. Instrumentos políticos, como as negociações em curso para o Tratado Global dos Plásticos, ajudarão a oferecer um enquadramento para a implementação destas mudanças.

Que riscos representam os microplásticos para a saúde humana no contexto da cadeia alimentar, tendo em conta a perspetiva integrada do conceito One Health?

Os microplásticos já contaminam os nossos alimentos ao longo de toda a cadeia, desde a produção até ao consumo (do “campo ao prato”). Microplásticos e até nanoplásticos já estão presentes nos nossos alimentos.

Enquanto os microplásticos maiores podem passar pelo trato gastrointestinal e ser excretados, os aditivos químicos associados libertam-se no organismo e podem causar efeitos nocivos, como disrupção endócrina e até interferir com a fertilidade. Importa salientar que os microplásticos mais pequenos (inferiores a 10 micrómetros) e os nanoplásticos (inferiores a 1 micrómetro) podem atravessar as paredes celulares humanas e acumular-se nos tecidos, tendo já sido detetados no sangue, ossos, coração, fígado, placenta e até no leite materno.

 A agricultura intensiva tem sido apontada como um dos principais vetores de contaminação ambiental. Que papel desempenham os microplásticos neste cenário mais amplo de exposição a múltiplos poluentes?

A utilização de plásticos e microplásticos na agricultura atinge valores entre 12,5 e 15 milhões de toneladas por ano. A maior parte permanece no ambiente após a sua utilização, pelo que a dimensão deste poluente ambiental é enorme e já não pode ser ignorada.

Considera que a atual evidência científica já é suficiente para suportar decisões políticas mais restritivas sobre o uso de microplásticos na agricultura?

Embora existam grandes lacunas no conhecimento e ainda haja muito por estudar, já sabemos que os microplásticos estão nos nossos alimentos e nos nossos corpos, e há agora evidência crescente de que estão a afetar a nossa saúde.

O impacto dos microplásticos no ambiente e nos organismos é indiscutível, mas mesmo sem uma base massiva de evidência sobre os impactos na saúde humana, é necessário adotar uma abordagem de precaução desde já, em vez de esperar até ser tarde demais. Podemos até já ter esperado demasiado tempo.

Foi um dos signatários de uma carta que defendia a proibição de microplásticos não essenciais. Esse princípio deve também ser aplicado ao setor agrícola?

Sim, absolutamente. Todos os plásticos não essenciais devem ser proibidos em todos os setores. Qualquer plástico que não seja essencial, reutilizável ou reciclável não deve ser produzido nem utilizado na nossa economia. É simplesmente insustentável.

Como avalia o papel da regulação internacional, nomeadamente no âmbito do futuro tratado global dos plásticos, na mitigação deste problema?

Como referi acima, instrumentos de política internacional, como as negociações em curso para o Tratado Global dos Plásticos, ajudarão a fornecer um enquadramento harmonizado para implementação global, de forma a mitigar este problema.

Existem alternativas viáveis aos materiais plásticos atualmente utilizados na agricultura, sem comprometer a produtividade?

Sim, existem, mas infelizmente ainda não à escala em que atualmente utilizamos plásticos no setor agroalimentar. É por isso que também precisamos de pensar em sistemas de reutilização para ajudar a reduzir a atual trajetória de aumento da produção de plásticos.

 Que prioridades de investigação considera mais urgentes nesta área, tendo em conta as lacunas ainda existentes no conhecimento?

Investigação sobre alternativas viáveis e sustentáveis aos plásticos de origem fóssil, com consequências ambientais negativas.

Adicionalmente, é necessária mais investigação sobre aditivos químicos nocivos nos plásticos e o desenvolvimento de modelos eficazes de avaliação de risco para exposições a microplásticos e químicos em diferentes contextos.

 Num contexto de crescente pressão sobre os sistemas alimentares, como equilibrar a necessidade de produção com a redução de contaminantes emergentes como os microplásticos?

Com uma população humana global de cerca de 8 mil milhões de pessoas (e projetada para atingir 10 mil milhões até 2050), existe uma pressão crescente para recorrer ao uso de plásticos e microplásticos na agricultura para alimentar a população. No entanto, o modelo atual é simplesmente insustentável, pelo que é necessária uma mudança de sistema em todo o setor agroalimentar.

 

 

 

 

 

 

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