Mais de metade dos consumidores portugueses já tem dificuldades para pagar contas da energia ou acredita vir a ter no próximo ano

A conclusão é de um estudo da consultora Global EY, que revela também que 87% dos inquiridos em Portugal estão a ter hoje mais despesas com a energia do que alguma vez tiveram.

Redação

Quase três em cada cinco (57%) consumidores portugueses diz já ter dificuldades para pagar as contas da energia ou antecipar que virá a tê-las ao longo do próximo ano de 2027, revela análise divulgada esta sexta-feira, Dia Mundial da Energia.

De acordo com o estudo “Global Energy Consumer Research 2026”, feito pela consultora Global EY, 87% dos inquiridos em Portugal estão a ter hoje mais despesas com a energia do que alguma vez tiveram.

Mais de metade (55%) alterou os hábitos de despesas não-essenciais para conseguir suportar o aumento das faturas de energia. E enquanto a larga maioria (75%) atribui esta mudança à inflação ou ao aumento de preços, 55% também aponta o aumento dos lucros das empresas energéticas, revela o inquérito.

Todos esses fatores têm influência na confiança que os consumidores têm no sistema energético como um todo. Em Portugal, o Índice de Confiança do Consumidor de Energia, criado pela EY para medir o nível de confiança no mercado, bem como o otimismo ou pessimismo em relação à transição energética, caiu 5,5 pontos percentuais entre 2023 e 2026 para 53,5, ficando abaixo da média de 54,4 dos países analisados.

O inquérito abrangeu mais de 17.200 consumidores em 20 mercados (801 inquiridos em Portugal), com as respostas recolhidas entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026.

“O inquérito foi realizado antes da escalada do conflito no Médio Oriente, mas já então era muito evidente que os custos da energia estão no topo das preocupações financeiras das famílias”, diz, em nota, José Roque, Energy & Industrials Sector Leader na EY Portugal.

Para o responsável, “o estudo mostra que muitos consumidores sentem hoje uma grande pressão sobre o orçamento familiar e vivem com um elevado nível de incerteza relativamente à evolução futura dos custos energéticos, pedindo respostas a todo o setor que impactem diretamente o bem-estar financeiro”.

Famílias estão “esticadas”

A capacidade de os consumidores pagarem as suas contas, bem como a sua perceção da acessibilidade da energia, são influenciadas por um conjunto amplo de fatores. Tendo isso em conta, a EY desenvolveu o Energy Vulnerability Score, de forma a analisar como os consumidores percecionam as alterações nos custos de energia, os desafios que podem dificultar o pagamento das faturas e as suas escolhas e comportamentos económicos.

Além da perceção de aumento dos custos e das mudanças nas despesas não-essenciais, a EY olhou para a capacidade de as famílias pagarem regularmente as suas faturas de energia e responderem a despesas imprevistas. Os resultados mostram que quase metade dos consumidores (47%) admitem enfrentar dificuldades regularmente para pagar a fatura energética, enquanto 85% dizem já ter sido confrontados com contas inesperadamente elevadas, o que contribui para o stress e insatisfação das famílias.

Além disso, apenas 43% dos consumidores portugueses consideram viver em segurança energética, ou seja, não esperam enfrentar problemas para pagar as contas nos próximos 12 meses (45% na média dos países analisados).

As famílias parecem estar quase no seu limite de poupança: 74% dos inquiridos em Portugal dizem que já não conseguem fazer mais para reduzir os seus custos de energia.

Consumidores mais atentos pedem soluções aos fornecedores

Oito em cada dez consumidores portugueses dizem ter hoje mais interesse em procurar soluções para baixar os custos de energia do que há um ano.

Mas, diz a EY, a forma como se querem relacionar com os fornecedores também está a mudar. A maioria (65%) já prefere usar canais digitais sempre que possível, com uma parte significativa a afirmar ter recorrido a ferramentas de inteligência artificial para tarefas relacionadas com gestão de energia no último ano.

Porém, apesar do crescente interesse em soluções de gestão energética, persistem várias barreiras à adoção, revela a consultora, nomeadamente limitações financeiras (perceção de que a poupança é escassa), falta de informação e desconfiança relativamente à capacidade de os fornecedores ajudarem efetivamente os consumidores a reduzir custos.

O relatório destaca três linhas de ação para os fornecedores de energia: redesenhar a experiência energética em torno do bem-estar do consumidor, indo além de medidas de alívio de curto prazo e garantindo previsibilidade; simplificação e aceleração da adoção de soluções digitais e de Inteligência Artificial (IA); e a reconstrução da confiança no setor.

“A energia tem uma dimensão central na qualidade de vida e na estabilidade financeira das famílias. Ao mesmo tempo que os consumidores enfrentam maiores pressões de custo, também esperam uma experiência mais simples, digital e personalizada. O desafio para o setor passa, assim, por conseguir responder aos desafios de acessibilidade e confiança, oferecendo a novas soluções digitais e de IA para ajudar os consumidores a reduzir, gerir e a antecipar melhor os seus custos”, acrescenta José Roque.

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